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Refogado

O mistério dos pêssegos em calda

por Marcio Alemão publicado 17/12/2010 10h39, última modificação 17/12/2010 11h15
Há anos tento entender por que alguns produtos estão sempre presentes nas cestas de Natal

Há anos tento entender por que alguns produtos estão sempre presentes nas cestas de Natal
O natal está chegando e com ele as cestas maravilhosas e um insondável mistério: as latas de pêssego em calda. Há anos tento entender. Não encontro explicação razoável a não ser esta: sempre colocamos latas de pêssegos em calda nas cestas de Natal e vamos continuar a fazê-lo. E esse fazedor de cestas, quando percebe que o suspiro final se aproxima em desabalada carreira, chama os herdeiros e, ao pé do ouvido, lhes diz: “Nunca, nunca, jamais deixem de colocar uma lata de pêssego em calda em uma cesta de natal”.
Eu recebo catálogos lindos com cestas que fariam a alegria até de um grão-vizir. As mais caras bebidas, os mais raros patês, copos e garrafas de cristal da Baviera e dezenas de preciosidades do mundo da gastronomia de fino trato. Claro, a lata de pêssegos lá está. E a latinha de castanhas de caju. Por conta dela fui me lembrar do sensacional quadro de humor “primo pobre e primo rico”. Começou na Rádio Nacional em 1950. Era um quadro do Balança Mas Não Cai que virou programa de tevê em 1968. Saiu do ar por algum tempo, retornou em 1975 e permaneceu até 1983. Sempre com Paulo Gracindo fazendo o papel do primo rico e Brandão Filho, o pobre.
Essas cestas seriam um mote formidável para o quadro, que repetia a mesma estrutura: o primo pobre esfomeado sempre se via muito perto de conseguir uma grande refeição, sorver uma grande bebida, mas isso nunca acontecia. E as desculpas risíveis, mas racionais: “Não vou deixar você provar esse bolo porque isso vai estragar seu apetite e você não vai jantar”. O primo pobre: “Não vai fazer diferença, primo, porque eu não janto há mais de dez anos”. E o primo rico: “Você que é feliz, primo!”
Pois imaginei eu que, da tal cesta, é provável que o primo pobre talvez ganhasse a latinha de castanhas. E talvez a latinha de castanhas tenha esse propósito, o de provar que seus possuidores são generosos: “Tome! Não quero tudo para mim. Não saia a propagandear minha infinita bondade... até porque só colocaram uma latinha”.
Sugestão de um bom livro sobre vinhos? O Gosto do Vinho, de Émile Peynaud e Jacques Blouin. Fazia tempo não lia nada tão preciso sobre o assunto. Por exemplo, os autores falam sobre “as palavras do vinho”. Um pouco sobre o quanto é difícil encontrar as palavras certas para descrever um vinho e as sensações que nos traz. “É preciso que seja capaz de traduzir claramente as suas reações sensoriais.” Isso dizem sobre um degustador.
Ou seja: não pega bem provar um vinho e dizer “sei lá, são tantas emoções, tantas sensações que invadem meus sentidos”. E também alertam: “Padecemos de uma falta de palavras, de uma carência de vocabulário e de uma inflação de termos efetivamente utilizados”. Alerta: o livro é grandão e tem poucas figurinhas. Um livro muito sério. O mais sério e palatável livro sobre o assunto. Dedicar-se a lê-lo pode ser um projeto bem bacana de ano-novo. Claro que pode ser um livro de cabeceira, para constantes consultas. “A busca que evoca os cheiros se une às volúpias do imaginário. Mas aqui, como na poesia, onde acaba a sinceridade? E, além de seus limites, onde entram a autosugestão e o blefe?”
Bom, né? Quantas vezes você já se viu nessa arapuca? Eu me vi em algumas. Em uma degustação mandei: “Senti um cheiro de linguiça calabresa”. O condutor da degustação sequer esboçou um sorriso. E deveria. Deveria ter me humilhado publicamente, avisando que o cheiro da linguiça provavelmente vinha do boteco ao lado. Mas essa condescendência com os chutes tornou o mundo dos vinhos local amigável, lotadinho de compreensão. Cheiro de pedras? Claro. Cheiro de aço inox? Possível.
Resumindo: sobre cheiros, sabores, sensações, percepções, o livro sobre tudo e muito mais, fala. Recomendo e na próxima coluna trarei mais sugestões.