Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O Massacre du Printemps de Igor Stravinsky

Cultura

Visões musicais

O Massacre du Printemps de Igor Stravinsky

por Alexandre Freitas — publicado 31/08/2010 16h59, última modificação 31/08/2010 15h57
29 de maio de 1913, noite histórica. O maestro Pierre Monteux e o balé russo de Diaghlev, sob uivos e objetos arremessados, apresentaram a obra até a última nota

Há uns dias vi que CartaCapital oferecia ingressos para “Coco Chanel e Igor Stravinsky”, de Jan Kounen, em cartaz nos cinemas. O filme, baseado em um romance de Chris Greenhalgh, fala de um suposto affaire entre a estilista e o compositor. Claro que ele suscitou alguma discussão sobre a veracidade desse caso entre os dois. Acho que isso não importa tanto. O que gostei mesmo foi de ver reconstituída no cinema a estréia da Sagração da Primavera, que a crítica da época chamou de Massacre du Printemps, em um trocadilho com o título em francês, Sacre du Printemps.

29 de maio de 1913, noite histórica. O maestro Pierre Monteux e o balé russo de Diaghlev, sob uivos e objetos arremessados pela platéia, apresentaram a obra de Stravinsky até a última nota e o último gesto. Imagino a cena nos dias de hoje. Na primeira manifestação mais eufórica, o maestro interromperia a música, solicitaria silêncio e, caso não fosse respeitado, encerraria o espetáculo. Mas não. Foi diferente. O maestro francês continuou impávido e concentrado nas centenas de trocas de compasso e acentos deslocados. Os dançarinos, de acordo com o filme (mas gosto de acreditar nisso), eram encorajados por Nijinsky, que havia coreografado a música e estava na lateral do palco. Isso me faz pensar no pianista canadense Glen Gould. Ele dizia que treinava a concentração estudando fugas de Bach com o rádio ligado fora de sintonia e em volume alto. Precisava localizar, em meio aos ruídos, as melodias que se sobrepunham no seu piano. Acho que a sensação de Monteux devia ser mais ou menos essa. Com a diferença de que o barulho não era voluntário. Stravinsky, no meio do público, não teve a frieza heróica de seu amigo regente. Vai embora antes do final. O filme não mostra, mas a aura desse aparente fracasso da première não durou mais que uns poucos meses. No próprio ensaio geral da véspera, o Sacre não foi nem de longe massacre. A obra tinha sido aclamada por um pequeno e interessado público, onde se encontravam nomes como Maurice Ravel e Claude Debussy.  Mas o impacto do espetáculo perturbou muito na estréia por não acalentar os olhos e os ouvidos daquela nobre burguesia.

Quase cem anos depois, este impacto parece permanecer. Porém não perturba mais. Afinal, somos quase imperturbáveis. Infelizmente. Com maior ou menor grau de entusiasmo, o público sempre aplaude. Só se sentem agredidos se o espetáculo atrasar ou se alguém desembrulhar uma bala na fila da frente.

Sob o cenário da estréia dessa grande obra de Stravinsky vale ainda algum comentário. O Théâtre de Champs Elysées representou um marco na arquitetura teatral. O edifício é pensado por Gustave e Auguste Perret a partir de todos os parâmetros da modernidade artística e tecnológica. Ele deve se adaptar as novas exigências cenográficas, acústicas, além de criar uma nova relação com o público, rompendo com a rigidez hierárquica dos teatros italianos. O teatro, assim como a obra mais famosa do compositor russo, entra para modernidade e marca o século 20. No filme dá para ter uma vaga idéia da beleza nova da sala.

Quanto à execução da Sagração que ouvimos no filme, ela foi realizada pela Filarmônica de Berlim sob direção Simon Rattle. Não me surpreende que a Introdução (com o solo agudo do fagote) e a Dança dos Adolescentes tenham sido tão bem feitas. Foi preciso ficar até os últimos créditos para descobrir.

Não entrei em grandes méritos do filme, não foi o objetivo da coluna. Queria somente divagar um pouco sobre este momento histórico que ele relembra e dividir algumas reflexões.