Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O mais provocante dos escapismos

Cultura

Cultura

O mais provocante dos escapismos

por Luiz Antonio Cintra — publicado 04/05/2010 17h15, última modificação 08/09/2010 17h16
A editora brasileira que mais publica ficção científica internacional preferiu, outra vez, um clássico do gênero a autores e tendências mais contemporâneas. Mas neste caso não deixa de haver um elemento de aposta e risco: embora seja uma obra consagrada na ficção científica anglo-saxônica há quase um século, jamais havia sido traduzida e editada no Brasil. Trata-se de Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs (Aleph, 272 págs., R$ 39,90), cuja primeira edição em livro é de 1917.

A editora brasileira que mais publica ficção científica internacional preferiu, outra vez, um clássico do gênero a autores e tendências mais contemporâneas. Mas neste caso não deixa de haver um elemento de aposta e risco: embora seja uma obra consagrada na ficção científica anglo-saxônica há quase um século, jamais havia sido traduzida e editada no Brasil. Trata-se de Uma Princesa de Marte, de Edgar Rice Burroughs (Aleph, 272 págs., R$ 39,90), cuja primeira edição em livro é de 1917. Não chega a bater um recorde: Planolândia, de Edwin Abbott, ainda mais interessante, precisou esperar 118 anos pela primeira edição brasileira (pela Conrad, em 2002, já esgotada).

O sucesso desta obra, publicada em capítulos na revista All-Story Magazine – uma das pioneiras da pulp fiction – a partir de fevereiro de 1912, incentivou Burroughs, balconista na papelaria do irmão, a iniciar uma carreira de ficcionista aos 35 anos. Dos 86 livros que publicou, o mais popular é Tarzan dos Macacos, iniciado como série de episódios pulp em outubro do mesmo ano e publicado em 1914 como primeiro livro de uma série de 22 (não incluídos os póstumos), mas os onze da série Barsoom – nome dado pelos marcianos de Burroughs a seu mundo – talvez tenham sido ainda mais influentes na história da cultura de massas.

Além das séries mais famosas, Tarzan e Barsoom, Burroughs criou outras algo menos bem-sucedidas, mas que também foram influentes e merecem ser conhecidas: sete da série Pellucidar (um mundo subterrâneo e pré-histórico no centro da própria Terra), quatro da série Vênus (conhecida pelos habitantes como Amtor, algo mais primitiva que Barsoom) e três da série Caspak (uma ilha antártica habitada por dinossauros), além de séries menores e romances isolados, ambientados no faroeste, na selva ou em ambientes urbanos
O pulp, gênero de contos e romances em capítulos definido por revistas populares de terror, aventura, mistério e fantasia, vinham sendo publicadas desde 1896, mas nenhum chegara a ter um sucesso tão amplo e duradouro, ao menos nesse país. No Reino Unido, houvera um precedente de sucesso: Ayesha de H. Rider Haggard, sequência do romance She (algo mais famoso), publicada de 1904 a 1905 naWindsor Magazine.

Uma Princesa de Marte é mãe de Superman, bisavó de Star Wars e tataravó de Avatar. John Carter, ex-capitão confederado convertido em garimpeiro, é acuado por índios em uma caverna do Arizona e despacha-se para Marte ou Barsoom com uma viagem astral ao pé da letra. Ali encontra gigantes verdes de quatro braços e salva de suas garras a corajosa princesa da avançada cidade de Helium após batalhas em que pistolas de raios e naves voadoras contracenam com espadas, estranhas montarias e monstros ferozes.

Ajudam-no a amizade do gigante verde Tars Tarkas – seu Chewbacca, por assim dizer. Como também o fato de vir da Terra e de seus músculos estarem acostumados com uma gravidade quase três vezes maior, o que o faz superforte pelos padrões marcianos. O mesmo raciocínio seria algumas décadas depois aplicado em sentido reverso por Jerry Siegel e Joe Shuster a seu Superman, cujos superpoderes na Terra vieram a ser explicados por sua origem em um planeta de gravidade muito superior, Krypton (que como Helium é o nome de um gás nobre, provavelmente não por coincidência).

Claro que a bela e corajosa princesa Dejah Thoris está destinada a ser o par romântico do herói plebeu e ousado, assim como suas descendentes, a princesa Leia de Star Wars e a Neytiri de Avatar. Como todo o seu bravo e nobre povo, ela tem pele não azul, mas vermelha como a dos nativos prestes a escalpelar o racista Carter. Quase um século antes de James Cameron, Burroughs usou a fórmula de idealizar uma raça exótica, mas depreciada, colocá-la bem longe e tirar-lhe as marcas da história, da realidade e da imperfeição, mas não a ponto de deixá-la dispensar os serviços de um militar estadunidense.

Vale notar também o parentesco entre os thoats, “cavalos” de Barsoom com oito patas e três metros de altura (na variedade usada pelos marcianos verdes) e os direhorses de Pandora, bem como entre o terrível “leão” barsoomiano ou banth, com dez pernas, várias fileiras de dentes e sem pelo (salvo a juba) e o thanator de Cameron. O nome foi também aproveitado nos banthas, iaques gigantes que servem como animal de carga em Star Wars, embora a função e aparência destes sejam correspondentes à dos zitidars de Barsoom, animais de tração semelhantes a mastodontes.

A linguagem de Uma Princesa de Marte e suas sequências pode soar pretensiosa, altissonante e talvez até falsa ao leitor moderno. O herói John Carter tem a cortesia romântica e os conceitos de honra, cordialidade e hospitalidade de um gentleman sulista, assim como a paixão vitoriana por uma retórica idealista e grandiloquente, cheia de detalhes, abstrações e adjetivos. Como, aliás, o verdadeiro Tarzan de Burroughs, que falava e pensava muito mais como um proverbial lorde inglês (cujo verdadeiro nome, não nos esqueçamos, era John Clayton, Lorde Greystoke) do que como o monossilábico homem-macaco do cinema (“Me Tarzan, You Jane”).

Entretanto, o escritor de Chicago era também cem por cento ianque: seu pai, George Tyler Burroughs, do interior do Illinois, foi um ardoroso partidário de Abraham Lincoln, um dos primeiros a se oferecer como voluntário para lutar contra os escravagistas e separatistas confederados e chegou a major na guerra civil. Também cem por cento burguês: papai Burroughs era um médio empresário que escreveu dois livros de administração de empresas e possuiu e dirigiu uma fábrica de baterias elétricas – tecnologia de ponta em seu tempo.

Os valores aristocráticos de Burroughs já deviam soar um tanto antiquados e fora de lugar para ele mesmo e seus leitores quando começava sua obra. Ainda mais quando escreveu seus últimos livros, nos anos 1940. São tanto mais curiosos quanto o fato de que seus personagens se movem em uma realidade que nada tem a ver com a dos aristocratas vitorianos ou dos senhores de escravos do sul. Tarzan vivia nu entre africanos e grandes macacos antropoides – não os chimpanzés ou gorilas dos nos filmes, mas a espécie imaginária dos mangani, mais inteligente, humanoide, carnívora e feroz que os grandes macacos reais. Carter chegou igualmente nu a Marte e assim ficou, de acordo com a moda local (apesar da tecnologia avançada), enquanto lutava entre monstros e bárbaros e comandava frotas aéreas futuristas.

A mocinha, por outro lado, está longe de ser reflexo dos ideais vitorianos. A de Tarzan, Jane Porter, assume no início o papel tradicional de “donzela em perigo” antes de gradualmente se tornar uma digna habitante da selva e, como estadunidense de Maryland, retém um potencial de identificação com os leitores e suas concepções de feminino. Mas Dejah Thoris mostra-se logo como o exotismo em pessoa. Politicamente astuta, anda nua por seu país (e planeta), sabe manejar espadas, pistolas e aeronaves e além da pele vermelha, põe ovos e tem a ética de uma aristocrata renascentista. A ajuda de Carter é necessária para livrá-la de seus carcereiros verdes, mas daí em diante torna-se senhora da situação e do coração do herói, embora esteja prometida a um príncipe (que, naturalmente, fará o favor de morrer antes do fim do livro).

Nas sequências, John Carter viajará mais algumas vezes entre a Terra e Marte, da mesma inexplicada maneira, mas acaba por se radicar definitivamente no planeta vermelho. Tornado jedak (rei) de Helium, vem a lutar com outros monstros e outras raças e cores de marcianos (inclusive os quase extintos marcianos brancos, que dominaram Barsoom há 500 mil anos), defender o planeta de invasores de Júpiter e de um cientista que desenvolve um exército de clones antes que a palavra fosse inventada (emOs Homens Sintéticos de Marte, de 1940). Enquanto isso, vem a ter com sua princesa, agora rainha, não só um filho como Tarzan (Carthoris, que conquista sua própria donzela, Thuvia), como também uma filha (Tara), protagonistas de suas próprias aventuras – e desta última nasce uma neta, Llara, heroína do último romance da série, Llana de Gathol (1948).

Ao contrário do herói popular dos EUA tradicionalmente representado pelo caubói, os de Burroughs não buscam se identificar com o leitor pela linguagem, modéstia ou simplicidade, nem por sua luta por ascensão social. Pelo contrário, nascem maiores que a vida, como ideais inatingíveis de honra e nobreza que rapidamente provam sua grandeza e conquistam o respeito dos mortais comuns. Nisso, parecem-se aos super-heróis dos quadrinhos. Mas ao contrário destes descendentes aburguesados, conformistas e infantilizados, angustiados por duplas personalidades, os orgulhosos heróis de Burroughs vivem em mundos exóticos e fantásticos onde a lei dos EUA e a moral da classe média nada significam, ditam suas próprias regras, têm uma só cara (mesmo que possam ter um segundo nome), amam mulheres, casam-se e têm filhos.
Há um forte lado escapista nesses romances, com certeza, mas também uma abertura e um desafio a imaginar outras possibilidades, outros modos de vida e outros valores a que grande parte dos heróis pulp(e dos quadrinhos) não se atreveria a imaginar – e que talvez explique sua popularidade duradoura.