Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O Magrelo

Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

O Magrelo

por Matheus Pichonelli publicado 16/01/2015 14h49, última modificação 11/06/2015 16h46
Você percebe que o quintal de casa é do tamanho do mundo quando seu antigo colega de futebol vira centroavante do seu time. Por Matheus Pichonelli
Divulgação
Rafael Marques

O novo atacante do Palmeiras, Rafael Marques, durante treino na Academia de Futebol

O Troféu Piratininga de futebol de salão de 1997 foi o ápice da minha curta vida de atleta. Na época, nada poderia ser mais tv para os garotos da nossa idade: pegávamos estrada em um ônibus equipado para disputar embates históricos com os times da região. Éramos divididos em duas categorias: os oito-dois e os oito-três, referência aos nossos anos de nascimento. A diferença de idade, na época, era uma distância colossal, como era colossal a distância entre Araraquara e São Paulo, onde nos alojaríamos nas proximidades do Ginásio da Federação para disputar o torneio infanto-juvenil. Até então, podia contar nos dedos quantas vezes tinha ido até a capital.

No ônibus viajavam os associados, os sócio-atletas e a comissão técnica do Clube 22 de Agosto, conhecido na época por ser imbatível em quadra – ao menos na cidade. Se minha memória não falha, os adversários do nosso quadrangular eram o Taboão da Serra (vencemos), o Jundiaí (perdemos) e o Santos (perdemos, claro). Dessas partidas, só entrei em quadra contra o Taboão. Ainda assim, por poucos minutos. Nos demais, fui preterido, junto com outros dois colegas franzinos como eu: o Papagaio e o Magrelo, com quem havia disputado o campeonato interno do 22 no ano anterior (lembro até hoje da escalação: Bigorna no gol, Pipoca de fixo, Paulo Bigode de pivô, eu e o Magrelo nas alas).

Sobre a quadra ficava um mezanino que dava para os banheiros e o alojamento. Do alto, com o queixo colado ao parapeito, assistimos às duas derrotas do time com a resignação típica de quem nada pode fazer a não ser torcer.

Pouco depois eu deixaria a equipe porque corria risco sério de levar bomba no primeiro colegial. A maioria dos colegas continuou na estrada, mas aos poucos cada um foi tomando um rumo diferente. O Magrelo, com quem dividi a frustração de não entrar em quadra contra o Santos e o Jundiaí, continuou. Oito-três, ele permaneceu na categoria no ano seguinte e seguiu adiante. Perdemos contato.

Alguns anos depois, em 2004, eu estava de volta a São Paulo, onde cursava a faculdade. Tinha acabado de conseguir um estágio no site da Gazeta Esportiva e costumava cobrir treinos das equipes da capital quando os setoristas tiravam folgas ou férias. Nessas brechas, quando o treino era na Academia do Palmeiras, eu me reencontrava com o Magrelo: sim, o meu colega de equipe, que anos antes fora barrado comigo de um jogo amador de futsal, havia se tornado jogador profissional. Não nos parecíamos quase nada com os meninos calados e magros esperando o fim daquele jogo em 1997.

Como eu, ele havia acabado de se mudar a São Paulo após jogar pela Ferroviária, time de campo da nossa cidade, e se destacar na Copa São Paulo de Futebol Junior. Era agora chamado de Rafael Marques. Quando ia até a Academia, nos cumprimentávamos à beira do gramado após os treinos. Não me lembro do que conversávamos, mas me lembro que parecíamos um tanto desnorteados, talvez confusos, com as andanças que nos levaram até ali. Ao fim dos treinos, desejávamos sorte um ao outro e seguíamos o rumo.

Apesar das oportunidades, aquele não seria um ano fácil para nenhum dos dois. Aos 21 anos, eu tentava me equilibrar entre duas faculdades e o estágio recém-iniciado. Não dei conta. De novo, troquei o esporte pelos estudos. O Magrelo começava a se destacar, mas tinha como concorrente da posição um ídolo da torcida: o Vagner Love. Ainda em 2004, do alto de outro mezanino, a sala de imprensa do antigo Parque Antártica, assisti à primeira partida das semifinais do Paulistão contra o Paulista (de novo um time de Jundiaí). O Magrelo estava em campo e por pouco não fez o gol da vitória. No jogo de volta, o Palmeiras foi eliminado. A chance perdida tirou dele a oportunidade de seguir no time.

Fiquei sem notícias do Magrelo por um tempo. Um dia nos reencontramos pelo Orkut. Soube, assim, que ele andava fazendo sucesso na Turquia e, depois, no Japão. Ali, encontrou seu espaço com o técnico Oswaldo Oliveira, que o traria de volta ao Brasil para jogar pelo Botafogo. Na equipe carioca, o Magrelo formou uma bela dupla com ninguém menos que o Seedorf – um ídolo de qualquer um daqueles garotos que em 1997 viajaram até a capital para disputar o Troféu Piratininga. Como palmeirense, comemorei discretamente cada gol do Magrelo pelo time rival, inclusive o gol que levou o time ao título carioca de 2013.

Lembrando de tudo isso, senti uma pontada de orgulho ao ver o Magrelo vestir novamente a camisa do Palmeiras na última quinta-feira. Foi quando me dei conta de que o quintal da nossa casa é mesmo do tamanho do mundo. Após uma temporada na China, e a pedido de Oswaldo Oliveira, ele acaba de acertar o seu retorno à equipe, dessa vez em outras condições: mais calejado, mais experiente, mais matador. É a principal esperança de gols de uma equipe que se renova após uma temporada de percalços – como a história de cada um.

Na entrevista de apresentação, ele se lembrou da bola perdida contra o Paulista naquele já distante 2004: “Talvez se ela tivesse entrado, hoje eu não estaria voltando aqui, não teria a carreira que fiz fora do Brasil. Eu tenho comigo que tudo acontece no momento certo.”

Não sei se o Rafael ainda se lembra das viagens pelo clube, do Troféu Piratininga ou do reencontro na Academia. Não sei se ele se lembra daquele campeonato interno do 22, quando já trocávamos uma vida para ganhar uma jogada. Mas, se pudesse, diria a ele que todo recomeço é, em si, uma conquista. E que, do alto do mezanino, agora da TV ou da arquibancada, os velhos colegas do velho Clube 22, palmeirenses ou não, estaremos sempre na torcida. Boa sorte ao Magrelo!