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O livro leva ao ridículo a nossa burguesia arrivista

por Redação Carta Capital — publicado 26/02/2013 17h46, última modificação 27/02/2013 14h28
Confira o posfácio do crítico literário Alfredo Bosi ao livro "O Brasil", de Mino Carta

Cotia, 23 de fevereiro de 2012

 

Caro Mino Carta,

[Captatio benevolentiae pela demora destas linhas. Passado infelizmente um tempo turvado por longo pós-operatório, dispus daquelas horas de leitura, intervalo feliz entre os cuidados de que é feito o cotidiano. Foi só então que pude ler os originais do seu livro.]

Balanço de uma vida, diz o bilhete com que me chegou este retrato agônico da vida pública brasileira. Nascido em 1936, fui contemporâneo dos sucessos narrados. Mas, lido este Brasil, vejo pessoas e acontecimentos à luz de outro olhar. Mais intenso, quase ofuscante, não raro cruel. No começo da leitura pareceu-me que a ferinidade vinha de uma visada mais aguda e ácida que a do comum dos mortais. Mas não, não era só isso. Era a própria realidade que se revelava na sua crueza. Crueza cruel, com o perdão do pleonasmo. Retratar o nosso homo politicus é lidar com o nauseante: que galeria de patifes talvez superada apenas pela dos jornalistas! Aqui o narrador pôs o dedo na ferida, mas, em vez de sangue fresco, o que jorrou foi pus. Lembra, de longe, a fauna satirizada por Lima Barreto nas Recordações do Escrivão Isaías Caminha, mas tão deteriorada que desafia qualquer hipótese progressista em relação à história da nossa espécie.

Sempre desconfiei dos colunistas de nossos jornalões. Agora vejo estampada em negrito a sua venalidade, a completa expressão da covardia e do oportunismo. A exceção luminosa de Cláudio Abramo brilha, de raro em raro, servindo apenas para que o leitor entreveja o negrume da malta. Que figura organicamente lastimável esse Abukir (pouco importa se figura à clef, ou não), que atravessa o livro de ponta a ponta e só teve um momento fugaz de autoconsciência nas páginas finais! Aí o autor acertou em cheio dando a palavra, entre cínica e confessional, a esse títere do sistema trabalhado em terceira pessoa ao longo do texto. No final, as personagens, quase sempre meros tipos sociais, tem a oportunidade de se converterem em pessoas. Não todas, é bem verdade, pois o tipo é inerente ao gênero satírico da escrita. E qual o desígnio do seu texto? Levar ao ridículo a nossa burguesia arrivista e puni-la metodicamente, mas sem nenhuma esperança de corrigi-la. Já não daria mais para crer no ridendo castigat mores? Parece que não. Tudo ficou opaco, tudo mercadoria subindo ao primeiro plano, tudo status dentro de cada carreira profissional.

A caricatura expõe traços obsessivos. O narrador nunca deixa de pontuar o cafonismo kitsch colado ao granfinismo paulista e figurado pelo ponto de vista de um anarco-sindicalista aristocrático e renascentista chamado Mino Carta. Afinal, “nel mondo non c’è che volgo”, palavra de Maquiavel ajustada à semicultura dos políticos e jornalistas que não cessam de nos infelicitar. Farpas lançadas contra as veleidades gastronômicas e as indumentárias dos figurantes valem como portraits de uma classe sem classe.

No entanto, há clareiras neste carrascal. Quem diria que o enigmático Golbery conseguisse passar quase incólume pela malha apertada de um juiz invariavelmente democrático e progressista, que é o nosso narrador? Pois passa; é o olhar humanizado por uma longa experiência da fragilidade humana que o valia, e é capaz de compensar a triste astúcia do maquiador de golpes com a melancolia do jogador derrotado em um momento digno do seu destino. (Terei entendido bem?)

E há a figura imponente do chevalier sans peur et sans reproche, Raymundo Faoro. Não conheci o privilégio de tê-lo como confrade, mas a honra de tê-lo como eleitor. Um voto que ainda me surpreende e comove. E há os que ajudam a matizar o quadro sinistro: Ulysses, Montoro, Severo Gomes, mas são tão poucos... E a imagem de Lula, que apesar dos pesares, resiste galhardamente.

No tecido que remata o livro, sinto em Paulo alguém que me dá vontade de abraçar fraternalmente.

Mas é já tempo de reconhecer, ao longo de cada página, uma voz amarga, ainda que animosa. É a voz que fundou o Jornal da República, e que se desenha, em corpo inteiro, na tocante autobiografia do jornalista intimorato, homem digno de outro jornalista, que o gerou e instruiu.

Obrigado e o abraço amigo do

Alfredo Bosi

 

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