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O lirismo do único momento

por Luis Krausz — publicado 14/04/2013 07h34, última modificação 14/04/2013 07h34
"A morte de Virgílio", de Hermann Broch (1886-1951), é um marco da literatura do século XX tanto quanto o "Ulysses" de Joyce, a a quintessência do clássico
Morte de Virgilio

Prosa filosófica. Nesta quintessência do clássico, a crença no poder redentor da arte

A MORTE DE VIRGÍLIO
Hermann Broch
Benvirá, 512 págs., R$ 49,90

A morte de Virgílio, de Hermann Broch (1886-1951), é um marco da literatura do século XX tanto quanto o Ulysses de Joyce. Seu tempo ficcional está limitado, como o do livro de Joyce, a um período de 24 horas, que começa ao entardecer, com a chegada do navio que leva o autor da Eneida ao Porto de Brindisi, na Itália. As horas de agonia do maior de todos os poetas latinos, que se seguem ao desembarque, são, na imaginação de Broch, dedicadas a uma longa meditação a respeito do valor e do significado da poesia, traduzida por um monólogo interior filosófico-teológico, mas também de enorme lirismo, que retoma a tradição medieval de que Virgílio seria anunciador da chegada de Jesus. O próprio Broch referiu-se a essa obra como “um único poema lírico que, como toda a lírica, deve ser compreendido como expressão de um único momento da vida”.

A extensão quase colossal do livro vem da infinitude de reflexões em torno dos temas eternos do fazer literário: como se dão as relações entre palavra e realidade, entre religião e palavra, entre morte e poesia? A prosa filosófica de Broch atinge seu ápice estético nas descrições do mundo antigo que entremeiam os questionamentos do poeta e nas esplêndidas recordações da infância de Virgílio. São exemplos de uma forma de literatura tributária do século XIX, mas à procura de renovação na tradição narrativa, e cuja tendência ao monumental, ao neobarroco, representa uma ponte entre os monólitos de certezas supostamente indestrutíveis dos velhos impérios e o desvario moral, ideológico e espiritual do século XX.

O livro expressa sinceramente a crença no poder redentor da arte, que, bem distante de uma concepção ornamental do fazer poético, ou a serviço de poderes constituídos, revela-se como busca por salvação. Exemplarmente traduzida nesta consagrada versão de Herbert Caro (1906-1991), um dos melhores tradutores do alemão vistos no mundo de língua portuguesa, este A Morte de Virgílio é a quintessência do clássico.