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O intérprete do não

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 18/11/2010 10h45, última modificação 19/11/2010 16h49
Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte
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Itamar na casa paulistana em 2003, ano em que descobriu ter câncer

Caixa de CDs relembra a trajetória de Itamar Assumpção, um compositor em luta contra a morte

Anteontem na UTI foi me visitar a morte/ mesmo sedado senti seu bafo no meu  cangote/ de susto quase morri/ deu pânico, quase entrei em choque. O homem que escreveu esses versos não está mais aqui. Itamar Assumpção morreu em 2003, aos 53 anos, e deixou muitas músicas inéditas. Grande parte delas rondava a morte, um tema que ele transformou em música durante toda a vida, e não apenas nos três sofridos anos em que conviveu com um câncer no intestino. Em 1998, antes de descobrir a doença, avisava, cantando versos do poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989): Um homem com uma dor/ é muito mais elegante/(...) sofrer vai ser a minha última obra. Apresentada em shows de um Itamar em fase agônica, Anteontem (Melô da UTI) é uma das (irônicas, sarcásticas) canções que ele não lançou em vida e vêm agora se somar como apêndices à monumental Caixa Preta, íntegra de sua obra fonográfica bancada pelo Selo Sesc e coordenada por sua viúva, Elizena Brigo de Assumpção, e pelas duas filhas do casal, Serena e Anelis.

Dor Elegante, o autoaviso de 1998, integrava o último trabalho original completo lançado sob direção do próprio autor, o disco-trocadilho Preto Brás – Por que que eu não pensei nisso antes. O grupo de 29 gravações inéditas acrescidas como esboços de “última obra” à Caixa Preta constitui uma trilogia Preto Brás, mais ou menos como planejava Itamar, antes de adoecer.

Preto Brás II – Maldito Vírgula foi pós-produzido por Beto Villares, que elaborou arranjos e intervenções heterodoxas sobre registros voz e violão, por vezes precários, deixados pelo autor. Villares trouxe para o disco as vozes simbólicas, embora não tenham trabalhado diretamente com Itamar, de Seu Jorge, BNegão, Arnaldo Antunes e Elza Soares. Essa entoa uma canção tipicamente “itamariana”, chamada... Elza Soares. Elza canta que my soul is black/ meu sangue é quente e encerra o volume em catarse sobrenatural, caindo em choro livre e explicitado. “Tô chorando, cara!”, resfolega, sob aplausos dos colegas de estúdio.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 623, já nas bancas.