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O homem iludido

por Rosane Pavam publicado 24/06/2008 15h57, última modificação 16/09/2010 15h59
A leitura de alguns livros que parecem dificeis num primeiro instante pode nos trazer muitas alegrias, especialmente depois que, corajosos, nós os enfrentamos. O livro difícil pode ser como o corpo que recompensa o corredor depois de percorridos dez quilômetros. Leio porque estudo, mas, também, leio ao acaso, quando me presenteiam com alguma possibilidade de trabalho ou de lazer por meio dos livros. "O Real e seu Duplo - Ensaio sobre a Ilusão", do pensador francês Clément Rosset, em uma segunda edição revista pela editora José Olympio, caiu-me às mãos como uma espécie de presente para refletir este exato instante.

A leitura de alguns livros que parecem dificeis num primeiro instante pode nos trazer muitas alegrias, especialmente depois que, corajosos, nós os enfrentamos. O livro difícil pode ser como o corpo que recompensa o corredor depois de percorridos dez quilômetros. Leio porque estudo, mas, também, leio ao acaso, quando me presenteiam com alguma possibilidade de trabalho ou de lazer por meio dos livros. "O Real e seu Duplo - Ensaio sobre a Ilusão", do pensador francês Clément Rosset, em uma segunda edição revista pela editora José Olympio, caiu-me às mãos como uma espécie de presente para refletir este exato instante.

Na semana passada, eu discutia o nada posterior à morte, em uma na qual argumentava o profundo sofrimento da ensaísta Susan Sontag e principalmente de seu filho, David Rieff, durante os últimos dias da mãe e depois que ela partira sem se despedir. Eu dizia que todos nós reconhecíamos, ateístas religiosos que éramos, de que um nada nos aguardava no fim. Isto me parecera franco e imediato de afirmar. Susan Sontag sabia disso, e por isto lutou para permanecer entre os vivos. Mas esta luta a fez esquecer-se por completo de que aceitar a morte poderia ser útil a seu filho, que ainda vivia.

Alguns de meus leitores me contestaram gentilmente. Como assim, depois da morte haveria nada, à moda daquilo em que acreditava Jorge Luis Borges?

Friedrich Nietzsche escreve isto em "Considerações Intempestivas", conforme reproduz o pequisador José Thomaz Brum, tradutor e organizador de “O Real e seu Duplo”, de Clément Rosset: "No fundo, todo homem sabe muito bem que só viverá uma vez, que é um caso único, e que jamais o acaso, por mais caprichoso que seja, poderá reunir duas vezes uma variedade tão singular de qualidades fundidas em um todo."

Não vejo como refutar a afirmação de Nietzsche, acreditemos ou não em recompensas ou castigos cruciais depois da vida. O homem acaba. Pode voltar a ser outro, segundo sua crença religiosa estabeleça, mas o que ele é hoje não se repetirá. Volte como gafanhoto, volte como nuvem, volte como princesa, ou não volte, fincado no Céu ou em garras flamejantes. Ele será o que não é agora, de forma irremediável.

Para Clément Rosset, quando lutamos contra isso, não somos nós, na maioria das vezes, os lutadores, mas nosso duplo, o ser ilusório. Podemos perfeitamente entender que o homem acaba, segundo uma concepção racional, que nos mostra carnes e ossos desfeitos com rapidez; mas podemos seguir a vida com uma indeterminada esperança de que tudo não seja assim, e que vençam nossas utopias particulares do espírito. Ninguém nos proibirá de acreditar em surpresas. Nem a realidade.

A realidade é o diacho. Ela é o que faz Macbeth praguejar, sintetizando que a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada. A circunstância de que tudo seja tão burramente simples, e que nossa ilusão jamais se estabeleça, é o que faz ruir nossa crença no homem, no que ele vive, no que criou. O pensamento do caos e da insignificância predomina, assim, no momento do contato com o real, diz Rosset: "É que, até no último instante, Macbeth, como de resto todo homem, na hora da morte, por exemplo, espera que A difira nem que seja um pouco de A, que o acontecimento não seja exatamente aquilo que ele é."

Vai daí que tantos artistas tenham se ocupado de destruir nossas ilusões. Eles também são iludidos, mas precisam não ser mais assim, já que estão conscientes do que é real, ao menos sob a perspectiva da arte. Eles têm o poder de nos fazer acordar. Mas às vezes, simplesmente, não podemos viver como eles desejam, despertos. É duro, pequeno, inacreditavelmente estúpido, entender que desaparecemos. À moda do que faz o personagem Swann na obra máxima de Marcel Proust, reivindicamos um momento ou outro para nós em que a "a preguiça do espírito" se instale e nos deixe viver em relativa, ilusória paz.

Podemos aplicar esse raciocínio a muitas coisas. Podemos destruir as ilusões quando desejamos ser cômicos, por exemplo. Artistas como o diretor Dino Risi, de "Il Sorpasso", morto recentemente, foram mestres na aplicação deste golpe magistral, de meter o real no êxtase de nosso contentamento. O que faz Mario Monicelli em "Parente é Serpente", senão martelar as ilusões? Um carro cai na ribanceira de Risi, uma explosão destrói os velhinhos de Monicelli, e tudo fica claro para nós. Claro demais. Amargo e simples. Necessariamente terrível.

Não sei se Risi viveu a ponto de se ter dado conta de uma frase involuntariamente cômica dita nestes tempos por Carla Bruni sobre o amado, o presidente o francês Nicolas Sarkozy. Ela afirmou que seu homem é inteligente a ponto de ter cinco cérebros funcionando concomitantemente. Me perdoe o irresistível, o mau gosto, o gato negro do real contra seu duplo, mas se Sarkozy tem cinco cérebros, onde eles se localizariam?