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Calçada da Memoria

O homem-cinema

por José Geraldo Couto — publicado 02/07/2011 10h32, última modificação 02/07/2011 10h32
André Bazin, crítico francês que influenciou o cinema apenas com palavras; para ele, a crítica de arte consiste em prolongar ao máximo o impacto da obra de arte
O homem-cinema

André Bazin, o crítico para quem a arte deveria transparecer vida

Bazin está por toda parte onde se exibem filmes, é um homem-cinema.” As palavras do discípulo François Truffaut dão bem a dimensão da importância do crítico francês André Bazin (1918-1958).

Nenhum outro indivíduo exerceu uma influência tão grande sobre o cinema servindo-se apenas da palavra. Sua vocação pedagógica e sua formação católica o levaram
a ver a cinefilia quase como um sacerdócio.

Com esse espírito, desde meados dos anos 1940, Bazin fundou cineclubes, animou debates, organizou mostras e ciclos, ao mesmo tempo que exercia continuamente a crítica em publicações como Parisien Libéré, L’Écrain Française, Esprit e Revue du Cinéma.

Em 1951, fundou, com Jacques Doniol-Valcroze,
a mais influente das revistas de cinema, a Cahiers du Cinéma, que consolidaria seu papel de pai intelectual e espiritual dos cineastas-críticos da Nouvelle Vague.

Bazin não era propriamente um teórico, mas tinha uma concepção coerente do cinema como revelação, como janela transparente para a vida. Defendia a ideia de um “realismo ontológico” do cinema, daí sua resistência
à montagem e aos truques,
e sua defesa dos planos longos com profundidade de campo.

“Bazin revelou certos aspectos de minha obra que eu próprio ignorava”, declarou Buñuel. “Ele era a lógica em ação, um homem de razão pura, um dialético maravilhoso”, exaltou Truffaut.

A herança maior de Bazin é sua visão criativa e generosa da crítica: “A função do crítico não
é trazer numa bandeja de prata uma verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que o leem,
o impacto da obra de arte.”

DVDs

Alemanha, Ano Zero (1948)

Na Berlim reduzida a escombros pelas bombas aliadas, um garoto
de 12 anos (Edmund Moeschke) busca trabalho e comida para ajudar a família a sobreviver.
O filme é analisado por Bazin
na célebre Defesa de Rossellini
(um dos deuses do seu panteão realista), incluída em seu principal livro, Qu’est-ce Que le Cinéma?

Noites de Cabíria (1957)

A saga tragicômica de uma pequena prostituta da periferia romana (Giulietta Masina) é vista por Bazin como um ponto de inflexão da obra de Fellini no ensaio Cabíria ou a viagem aos confins do neorrealismo, também incluído em Qu’est-ce Que le Cinéma? e na edição (parcial) brasileira, O Cinema (Brasiliense).

Os Incompreendidos (1959)

O primeiro filme de Truffaut
e um dos marcos inaugurais
da Nouvelle Vague é dedicado a André Bazin, e não por acaso. A história do adolescente desajustado Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) alude em muitos aspectos à do próprio Truffaut, resgatado da delinquência para
o cinema por seu mentor Bazin.