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O Guia anti-gafe

por Beatriz Mendes — publicado 06/03/2012 12h54, última modificação 06/03/2012 12h54
Inspirado por suas vivências quotidianas, o executivo Daniel Barros criou um guia básico para ajudar os brasileiros a entenderem os gringos
Mussum

Brasileiros são, em geral, simpáticos e carismáticos, garante autor de livro. Galeria de â–ºJohann/Flickr

Simpáticos, carismáticos e extrovertidos. Provavelmente você, brasileiro, já foi associado a essas características muitas vezes. É quase um destino manifesto desenhado antes de você nascer. Que explica, por exemplo, o seu estranhamento diante da frieza alemã ou da disciplina japonesa.

Pois antes de receber alemães, japoneses e outros turistas de todo canto do mundo para os jogos da Copa e as Olimpíadas, é bom se preparar: em contato com os estrangeiros, vai ser necessário aprender a lidar com múltiplas personalidades. Os megaeventos serão uma espécie de laboratório para quem quiser expandir acordos e fazer dinheiro mundo afora.

Para facilitar a sua vida, o executivo Daniel Barros acaba de colocar na praça um guia prático para o brasileiro se dar bem nos negócios com os estrangeiros. O livro reúne dicas sobre como não cometer gafes nem ofender algum interessado em investir milhões na sua ideia.

Tudo graças à experiência pessoal de seu autor, que aos 25 anos deixou o cargo de coordenador de marketing na unidade brasileira de uma multinacional para representar a companhia pelo mundo. Durante oito anos, alternou estadias em países como Suécia, Bélgica, Canadá e Cingapura, acumulou causos e impressões.

À medida que convivia com pessoas diferentes, o executivo descobria mais curiosidades a respeito da civilização. Percebeu assim que as associações não se resumiam a um só indivíduo, mas aos cidadãos de todo um país. Assim, uma reunião malsucedida com engenheiros alemães se tornou apenas uma entre as muitas experiências (pessoais) que levaram todo o povo alemão, Angela Merkel à frente, a se encaixar perfeitamente ao estereótipo número 6, os Especialistas.

“Os alemães são muito céticos, eles custam a acreditar no que você diz e só valorizam os produtos nacionais. Uma vez fui dar um treinamento para alguns engenheiros e eles ficavam fazendo perguntas para me testar, quanto mais que eu sou um brasileiro que estava apresentando um produto chinês. Eu saí de lá derrotado”, conta.

Para escrever o seu “Esterótimos – Dicas de um Expatriado para Entender os Estrangeiros”, Daniel Barros recorreu a ninguém menos do que Leonardo da Vinci. Em suas dicas, ele utilizou um eneagrama, aquela estrela de nove pontas cujo símbolo foi imortalizado no Homem Vitruviano do inventor italiano. Nela cabem todos os povos: os perfeccionistas, os altruístas, os transformistas, os românticos, os preservacionistas, os especialistas, os epicuristas, os extremistas e os pacifistas.

Dali para dividir cada nação conforme seus próprios anseios, motivações e formas de levar a vida foi um palito.

Os ingleses e japoneses, segundo Daniel, são Perfeccionistas (como ele, diz). Valorizam a pontualidade e a precisão técnica e, de acordo com o executivo, acreditam que seu papel é arrumar o que está errado no mundo. Os chineses, por suas vez, são os Preservacionistas: sinceros, observadores e priorizam as tradições sociais. Na China, a recusa de um brinde pode cancelar um negócio.

No livro, ele conta que, uma vez, de passagem por Huanzhou, foi recepcionado por um grupo chinês com quem sua empresa estava fazendo negócios. Eram 20 empresários na mesa durante o jantar. Cada um deles quis fazer um brinde ao convidado. Daniel, que não bebe, enfrentou uma ressaca daquelas depois da noitada, só para garantir o contrato.

Além de suas experiências diárias, a formação de Relações Internacionais e os cursos de MBA que fez na Universidade de Toronto, no Canadá, e de Saint Gallen, na Suíça, também ajudaram a mapear o que chamou de “esterótimos”.

A própria história dos países é utilizada para embasar suas observações: “A ideia foi pegar o conhecimento frio que eu adquiri na universidade, adicionar às minhas vivências e às próprias visões que as pessoas têm de cada país, digerir tudo e narrar de uma forma fácil para as pessoas entenderem”, explica.

Por ironia, para criar perfis globais e extrapolar fronteiras, Daniel teve de passar três dias trancafiado. Foi durante um workshop compartilhado com cada um dos estereótipos base. “Você fica trancafiado com pessoas desconhecidas, realizando atividades que mostram a qual padrão você melhor se encaixa. Eu, por exemplo, sou um perfeccionista”, relata.

Tempos depois, com o livro praticamente pronto, convocou 50 brasileiros expatriados para ler os manuscritos e validar suas narrativas antropológicas.

A amostragem foi significativa, garante ele, que ouviu sugestões de mudanças e viu a maior parte de suas impressões confirmadas. E como poderia ser diferente? Daniel é dos perfeccionistas.