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O gosto do jornalismo

por Rosane Pavam publicado 28/09/2010 10h00, última modificação 29/09/2010 16h27
José Hamilton Ribeiro vira Cidadão Paulistano, descrê na profissão via internet e lamenta que a festa eleitoral tenha sido roubada do povo
O gosto do jornalismo

José Hamilton Ribeiro vira Cidadão Paulistano, descrê na profissão via internet e lamenta que a festa eleitoral tenha sido roubada do povo. Por Rosane Pavam. Foto: Olga Vlahou

José Hamilton Ribeiro tem nome de flor. Um antúrio- mirim, batizado em homenagem à sua lendária, para não dizer alta, figura de repórter. Cientificamente, a flor é uma Aceae anthurium hamiltoni. E a prosa do jornalista-escritor de 75 anos, assim como ele próprio, continuamente desabrocha. Na última semana, Zé Hamilton esteve na redação de CartaCapital “faceiro, dengoso e gabola”, sem deixar de ressaltar que no Paraná ligam a faceirice à alegria. Sorridente, mas também preocupado em relação às coisas do jornalismo atual e da política, ele falou com ímpeto narrativo sobre mais um prêmio, o de Cidadão Paulistano, que lhe concederam dia 17.

Para cada pergunta, mais do que uma resposta, esse autor de 15 livros tem um caso a oferecer. E mesmo tendo passado de noticiador a notícia, como acontece desde 1968, quando uma mina terrestre arrancou sua perna esquerda durante a cobertura da Guerra do Vietnã para a revista Realidade, a postura que tem é a de repórter, até literal. No início desta entrevista, ele pede um bloco e uma caneta iguais àqueles em posse de sua entrevistadora. E, enquanto fala, embora nada anote nas linhas de papel, age como se uma lousa imaginária recebesse suas frases curtas e sua ironia caipira, às vezes próximas daquelas produzidas pelo refinado escritor matuto Cornélio Pires.
O título de Cidadão Paulistano emocionou de verdade Zé Hamilton. Ele nasceu em Santa Rosa de Viterbo, no interior, e se vê como essa “pessoa com sonhos” aceita no “seio materno generoso” que é a capital. Compartilhou a sorte, neste quesito, com “5 ou 6 milhões” de outros, os políticos Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra entre eles, como diz.

Embora tenha apreciado a homenagem paulistana, o detentor de sete estatuetas do Prêmio Esso reparou feio quando um vídeo de seis minutos, exibido durante a cerimônia na Assembleia Legislativa, comentou o estado atual de sua carreira. É que, nele, o fotógrafo Walter Firmo fala sobre uma inquietude pessoal, mas frequente no coração do público de Zé Hamilton. A cisma de Firmo é a de que tão grande repórter, hoje em dia, só fale sobre “vaquinha e boizinho”, enquanto poderia estar, em conformidade à guerra que conhece, na “linha de frente” dos terríveis acontecimentos do mundo e do Brasil.
Tal linha de pensamento mostra sua fragilidade desde o início. Zé Hamilton não deixou de ser um combatente somente porque se voltou ao campo. E talvez escreva para retratar aqueles, antes de tudo fortes, que se orgulham de sua porção sertaneja. Mas esse homem de originalidades caminha em outra direção para contestar Firmo e raciocinar sobre seu trabalho atual, aparentemente não de todo reconhecido.

“O programa de televisão em que trabalho espelha a alma do homem do campo”, ele argumenta. “E você dirá que a alma do homem do campo é menor que a do homem da cidade? Talvez se possa dizer que a alma do homem do campo é até maior.” Ele lembra o homem da cidade que acorda às 4 horas, chega ao trabalho às 7, volta no fim do dia, janta e dorme depois de só ter visto trem, ônibus e fábrica. Enquanto o homem do campo encara o sol e “espera a planta vegetar”, ouve o acauã e sabe que a temperatura vai diminuir.

Este profissional para quem o segredo do jornalismo reside em ser duradouro, por meio da pesquisa e do acabamento, um jornalismo permitido em poucos lugares, entre eles o horário matutino de pouco ibope das televisões, lamenta que não se faça caso de assuntos importantes na imprensa brasileira. “Jornalista não vê Globo Rural porque não levanta cedo. Então o programa não tem notícia na imprensa. A imprensa dá notícia sobre a apresentadora Luciana Gimenez. De todos os programas da noite a imprensa dá notícia, porque o jornalista está acordado e vê. Um programa às 8 da manhã jornalista não vê.”

Pobre jornalismo, da escrita impressa e da televisão. Zé Hamilton, que grassa neles desde os anos 50, depois de quase completar a Faculdade Cásper Líbero, e que, além de cobrir o Vietnã, retratado no livro O Gosto da -Guerra, de 1969, promoveu, entre outras coisas, reformas gráficas capazes de mudar os jornais do interior paulista, livres da fundição de chumbo, fala em crise. Tecnológica, para começar.

Ninguém sabe o que vai virar o jornal, ele diz. “No jornal está envolvida uma operação absurda, se você pensar. A televisão faz a produção de uma reportagem, gasta dinheiro com hospedagem, transporte, passagem aérea, e aí você edita a matéria e ela está pronta para ir ao ar. Acabou o serviço, o gasto pesado. Papel, tinta, energia elétrica, estacionamento para caminhão, transporte, ali começa o gasto grande do jornal. Será que a sociedade vai suportar esse custo por muito tempo?”

Zé Hamilton parece de volta ao futuro quando conjectura o jornalismo que virá. “Eu acho que o jornal vai ser de plástico”, ele imagina. “O cara recebe no começo da semana um jornal de plástico e ele serve para todos os dias. Só muda o chip lá em cima.” Internet, nem pensar no jornalismo, ele crê, embora admita seu caráter revolucionário como meio de transmissão. “Não tem almoço de graça no capitalismo. Alguém está pagando. (E dizem que no socialismo não tem nem almoço...) A informação é um produto caro. Então, quem tem informação boa, valiosa, não vai pôr na internet de graça.” Para qualquer jornalista, diz ele, o site de buscas Google representa perigo. “Se depender dele, o jornalista vai lidar com informação de segunda mão. Ou terceira. Não vai ter um furo.”

Ele acompanha “horrorizado” o processo eleitoral. “O presidente Lula, que diz tanta bobagem, também fala coisa séria. Uma coisa séria que ouvi dele, instintiva, e Lula é uma pessoa instintiva, é que não pode um partido político, na sua assembleia ou convenção, preocupar-se com o que o juiz eleitoral vai pensar ou não. “Essa legislação eleitoral atual proibiu o povo de pensar”, afirma Zé Hamilton. “A eleição não é mais uma festa do povo. Antes era. A sociedade ficava colorida, cartazes para todo lado, conjunto musical aqui e ali, grandes comícios com grandes artistas, e o povo ia e vibrava com aquilo. Hoje é tudo enquadrado. Você escolhe entre dois bonecos maquiados na televisão. E que falam o que o marqueteiro escreve. Os debates são engessados, debate não vale nada. Não tem debate nenhum.”

Enquanto a política, amarrada por “regras tacanhas”, inibe “a criatividade da política e o contato do político com o povo”, não custa lembrar aquilo que Zé Hamilton diz a um jornalista sobre como fazer uma reportagem. Vale, para seu uso, a regra Rubem Braga. “Reportagem boa, dizia o escritor, começa com maiúscula e termina com ponto final. Com isso, Rubem Braga fazia o material dele.” E é para esquecer o Joel Silveira que aparece na televisão, editado, dizendo que a reportagem necessita de três coisas, “paciência, persistência e sorte”. Quando ouviu isso por ocasião da morte do jornalista, Zé Hamilton não acreditou. “Se o Joel tivesse visto o que fizeram do depoimento dele, teria ficado horrorizado. Com paciência, persistência e sorte, dá para ganhar no bingo. Também dá para arranjar uma namorada, não é? Mas para fazer uma reportagem não dá, não.”

Diante do professor que agora também se transforma em Prêmio de Jornalismo José Hamilton Ribeiro, a ser concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, a aula é certa. “Para fazer reportagem, um jornalista precisa de formação e vocação”, ele afirma. “Se o camarada não ler, não estudar, não estiver ligado no mundo, se não souber coisas básicas da história da arte, da história da ciência, como vai ser jornalista?” E tem a vocação, o “perfil psicológico muito definido”, como outro requisito. “Em jornalismo, existe uma condição básica. Informação é poder. Nas outras profissões, a pessoa que tem informações as segura para si. O jornalista, não. É generoso, quer dar. O gosto do jornalista é contar para os outros. É a psicologia do furo.”

O contraditório, ou afirmativo, em se tratando de Zé Hamilton Ribeiro, é que ele tenha bastante paciência para ver o furo crescer antes de soltá-lo à luz. Suas reportagens de televisão podem durar um ano ou até cinco para serem realizadas, como em uma ocasião na qual ele precisou de tempo para observar os ninhais do Pantanal. O jornalista não se apressa para o furo, mas seu fruto tem data certa para surgir. Mais do que um nome, Zé Hamilton talvez seja mesmo essa flor.