Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O goleiro

Cultura

Crônica

O goleiro

por Alberto Villas publicado 20/06/2014 11h09
O dia em que eu percebi que, definitivamente, eu não dava pra coisa
SXC
goleiro-villas.jpg.jpg

"Goleiro usava apenas camisa preta de manga comprida, cotoveleiras e joelheiras, bem do jeitinho que me vesti"

Desgraçado é o goleiro porque até onde ele pisa não nasce grama. Quando li o título dessa reportagem na revista Realidade, lá nos anos 1960, pensei com as minhas chuteiras: Esse cara sou eu!

Tinha eu pouco mais de 14 anos de idade quando faltou o goleiro naquele final de campeonato entre o Colégio de Aplicação e o Colégio Estadual e eu assumi o posto. Troquei minha camisa azul por uma preta de manga comprida, com o número 1 nas costas. Coloquei cotoveleiras e joelheiras e lá fui eu ficar debaixo daquele travessão.

O jogo terminou zero a zero, foi pro pênaltis e, como segurei dois, assustadíssimo, fui nomeado imediatamente goleiro oficial do Colégio Arnaldo Futebol Clube.

Voltei pra casa até achando mesmo que era um bom goleiro pelo fato de ter conseguido segurar aqueles dois arremessos que foram parar no canto esquerdo e eu também.

O lugar do goleiro no campo era muito especial, e a reportagem da Realidade estava certa. Não nascia grama onde o goleiro passava os noventa minutos, andando pra lá e pra cá acompanhando onde estava a bola.

Eu tinha medo de ser goleiro, mas fui em frente. Medo de deixar escapar a bola e sofrer um frango homérico, fazendo o meu time perder e ser desclassificado. No paredão da minha casa, ficava chutando a bola de couro marrom e defendendo como se fosse um Gilmar, um Castilho, um Manga.

Goleiro usava apenas camisa preta de manga comprida, o número 1 nas costas, cotoveleiras e joelheiras, bem do jeitinho que me vesti para aquele jogo da morte no Colégio Arnaldo.

Mas eis que meu dia chegou. Organizamos um pequeno torneio no bairro do Carmo, cujas partidas seriam realizadas no campinho de terra da casa do Doutor Asplênio. O campo era só terra e pedrinhas e o gol era engraçado, três pedaços de pau, não tinha rede, não tinha nada.

A essa altura do campeonato, já tinha convencido minha mãe a ir comigo até O Mundo Colegial e comprar um uniforme completo de goleiro, inclusive uma sunga Big, que tinha um macaco no logotipo.

O primeiro jogo era entre a turma da Rua Rio Verde e a turma da Rua Grão Mogol. Todos a postos, eu ali debaixo daquele pedaço de pau, na maior expectativa do mundo. Jogou-se para o ar uma moeda e a saída ficou com a turma da Grão Mogol.

Pimenta era o que chamávamos na época de pereba. Driblava mal, cabeceava mal, finalizava mal. Seu chute era torto e fraco e raramente acertava o gol. Mas por falta de elenco ele estava ali naquele time, bem na hora H em que o juiz apitou o início da partida.

Guilherme apenas tocou na bola e Pimenta enfiou um bicudo que passou feito um foguete em cima da minha cabeça. Só não furou a rede porque não tinha rede. Confesso sinceramente que não vi a cor da bola.

Resultado: Cinco segundos de jogo, um a zero para a turma da Grão Mogol. Resisti bravamente, fui até o final do jogo e só sei que perdemos aquela partida, nem me lembro do placar final.

Saí do campinho cabisbaixo e decidido a nunca mais vestir aquela camisa preta com o número 1 nas costas. Percebi que, definitivamente, eu não tinha nascido pra Gilmar. Hoje, sinto que tampouco pra Guillermo Ochoa.

registrado em: , ,