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O Gigante que transforma tudo

por Redação Carta Capital — publicado 19/03/2012 17h36, última modificação 19/03/2012 17h38
De suas mãos nascem favelas, casarões coloniais, bairros e cidades. Tudo com papelão. Por Adriana Marcolini
Sérgio César

O “Gigante do Papelão”, Sergio Cezar, no Rio de Janeiro. Foto: Adriana Lorete

Por Adriana Marcolini

 

“Mudo tudo o que encontro pela frente, o que eu faço nunca está terminado.” O “Gigante do Papelão” é assim: está sempre criando, montando, construindo. Nunca para. De suas mãos nascem favelas, casarões coloniais, bairros e cidades. Tudo em miniatura, de papelão e material reciclado. As casas têm sofá, cadeira, mesa, TV, geladeira. Em suas mãos um canudo de refrigerante vira um cano e uma lata de óleo torna-se um caminhão. O “Gigante do Papelão” nasceu Sergio Cezar, no Rio de Janeiro, há 54 anos. Seu poder de provocar mudanças em tudo o que vê chega até as favelas cariocas, onde ele tem o dom de transformar os participantes de suas oficinas, ministradas gratuitamente.

 

Um deles é Robson Alves de Sousa, um ex-detento que se reintegrou à sociedade graças ao trabalho com papelão e hoje é seu assistente. No momento, Robinho está dirigindo oficinas nas favelas da Maré, Dona Marta e Nova Holanda. “Nosso trabalho é feito com o reaproveitamento do lixo”, explica o “Gigante do Papelão”. Este exercício de criação, garante, contribui para que os participantes recuperem a auto-estima e comecem eles próprios a passar o que aprenderam para outros, estabelecendo um efeito multiplicador. “Quando ensinamos a arquitetura do papelão nas favelas, percebemos que há muita gente querendo aprender”, conta. “Passamos uma semana trabalhando em comunidades comandadas pelo fuzil e ao terminar sabemos que deixamos uma semente; as pessoas sempre querem mais.” As oficinas são divulgadas através das associações de moradores e atraem participantes entre 6 e 80 anos. Já houve casos de ex-alunas que depois se dedicaram à confecção de enfeites para festas e bolos de aniversário. Mas só o fato de atrair rapazes que poderiam trabalhar para o tráfico, caso não estivessem em uma oficina, já tem um significado muito importante para ele.

O “Gigante do Papelão” considera imprescindível ampliar o número de moradores das favelas que se dedicam a criar obras artísticas: assegura que esta atividade pode mesmo transformar as pessoas. “A arte bota a chave na sua mão, ela tem uma grande capacidade de mexer no seu interior, mesmo que você não se torne um profissional”, afirma. Conta que vários alunos dependentes químicos conseguiram dar a volta por cima. “Tudo o que fiz foi colocar a chave em suas mãos; eles tiveram a coragem de abrir e hoje alguns trabalham em informática”, relata. Os cursos deram tão certo que, em 2009, Sergio Cezar foi convidado a tomar parte da 10ª. Bienal de Arte de Havana. Ele e Robinho viajaram com uma favela de 1.400 barracos acondicionada em quatro caixas de papelão. A montagem teve a participação da equipe de apoio do evento, como faxineiras, pintores de parede e ajudantes. “O resultado foi tão gratificante que eles decidiram levar o que aprenderam para os asilos”, afirma.

Seu trabalho já é conhecido em outros países, além de Cuba. No ano passado, o filme “O Gigante do Papelão”, dirigido por Bárbara Tavares, recebeu o prêmio de melhor curta-metragem dos festivais de cinema brasileiro de Buenos Aires e Montevidéu. Ainda em 2010, o artista foi convidado a dirigir uma oficina para alunos da Universidade de Columbia, em Nova York, e de design da Universidade da Pensilvânia. Agora está começando a dar palestras em faculdades do Rio. O assunto, diz, é a reciclagem do olhar e a motivação. Para divulgar essas atividades, Sergio Cezar postou na internet o site www.reciclandoolhar.wordpress.com.  No entanto, apesar do sucesso, ele lamenta não ter sido procurado pelos organizadores das UPPs sociais, o programa implantado nas favelas do Rio de Janeiro para coordenar as ações sociais, urbanísticas e ambientais em áreas das Unidades de Polícia Pacificadora.

O início de tudo – Desde cedo, o “Gigante do Papelão” começou a observar as adaptações que seu pai fazia nos móveis e brinquedos velhos que ganhava: seu Alziro era porteiro de um edifício de classe média alta no bairro de Laranjeiras e recebia de presente dos moradores o que eles não queriam mais. “O pedaço de um cabo de vassoura virava o pé de um armário de roupa que estava capenga; o boneco sem uma perna ganhava uma e depois ficava em pé”, lembra. O filho do porteiro não ficava para trás dos meninos ricos da rua e também tinha o seu carrinho de rolimã. Só que o seu, ao invés de ser novinho em folha, era montado com as peças usadas doadas por um mecânico. E assim, desarmando o usado para armar o novo, o garoto foi aprendendo a arte da reciclagem.

Nas férias que passava com os avós e primos na zona rural de Macaé, no interior do estado, o menino aprendeu a amar e respeitar a mãe natureza.

“A relação dos meus parentes com a natureza era muito simples; com eles aprendi a tratá-la como uma coisa só, a entender que fazemos parte dela.” Ele considera que aquelas férias lhe proporcionaram um dos ingredientes para seu trabalho: a reciclagem do olhar e a convivência respeitosa com o meio ambiente. Uma das etapas de sua obra consiste na aquisição de lixo, para depois montar as casas e favelas em miniatura. Quando sai em busca daquilo que os habitantes das metrópoles jogam fora, fica impressionado com o descaso em relação aos materiais e peças descartadas. E garante que uma boa parte poderia ser reaproveitada.

Antes de se tornar o “Gigante do Papelão”, Sergio Cezar foi jogador de futebol durante dez anos. Graças a esta profissão, pôde comprar um bom equipamento fotográfico e abraçar a arte. Por volta de 1980, deixou o mundo da bola para mergulhar na fotografia. Daí em diante não parou mais. Já fez de tudo um pouco: pintura, escultura, desenho e miniaturas em papelão.  Agora começa a escrever contos inspirados nas suas miniaturas, criando personagens para as favelas e cidades que constrói. Tem início mais um capítulo.

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