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O gene solidário

por Elias Thomé Saliba — publicado 01/12/2010 16h00, última modificação 03/12/2010 16h49
O primatologista Frans de Waal mostra que os sentimentos de empatia são tão freqüentes na natureza quanto os comportamentos belicosos

O primatologista Frans de Waal mostra que os sentimentos de empatia são tão freqüentes na natureza quanto os comportamentos belicosos

Natureza humana, luta pela vida, sobrevivência dos mais aptos. Há muitos anos invocamos tais metáforas biológicas como favas contadas de argumentos irrespondíveis, diante dos quais os diálogos se encerram e todos se calam. Inflacionamos demais o conceito de natureza humana, recheando-o com pressupostos biológicos quase sempre negativos. Enquanto isso, surgidas nas mal resolvidas fronteiras entre a neurociência, a psicologia e a primatologia, inúmeras pesquisas silenciosamente detonam antigas certezas sobre a espécie humana, mostrando que somos animais gregários, altamente cooperativos e sensíveis à injustiça, belicosos às vezes, mas, na maior parte do tempo, amantes da paz. Resultado de dez anos de pesquisas centradas no estudo do comportamento dos grandes primatas não humanos (chimpanzés, bonobos, gorilas e orangotangos), A Era da Empatia – Lições da natureza para uma sociedade mais gentil, de Frans de Waal (Companhia das Letras, 397 págs., R$ 55), é uma síntese erudita e bem-humorada destas novas pesquisas.

O livro começa pela história da própria noção de empatia, palavra criada pelo esquecido psicólogo Theodor Lipps (1851-1914) para designar aquela capacidade de se colocar no lugar de outro indivíduo, sentindo suas experiências como se fossem nossas. Em 1991, o pesquisador sueco Ulf Dimberg havia demonstrado que a empatia não depende de nossa decisão, uma vez que nós simplesmente sentimos a empatia. Anos depois, a psicóloga Carolyn Zahn-Waxler investigou como as crianças reagiam ao ver familiares passando por tristeza, dor ou aflição, e descobriu que bebês com pouco mais de 1 ano já consolam os outros, concluindo que a empatia se desenvolve em nós antes mesmo da própria linguagem. O próprio Frans de Waal, em seu livro anterior Eu, Primata, ilustrou como os bonobos, em situações de sofrimento e aflição, são capazes de se colocar no lugar dos outros.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 625, já nas bancas.