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O fino do sangue-com-açúcar

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 28/07/2010 17h39, última modificação 28/07/2010 17h39
Livros com vampiros românticos embalam lançamentos

Livros com vampiros românticos embalam lançamentos

Claro que os escritores e as editoras nacionais não iam deixar de tentar tirar proveito da mania das adolescentes por amores proibidos com vampiros românticos, desencadeada pela série de Stephenie Meyer. O perigo era o de a ânsia por não perder a oportunidade de um ganho fácil resultar em produtos de baixa qualidade, imitações apressadas e diluídas de um estilo já duvidoso – reciclagens de cenários e personagens conhecidos, mesmo com outros nomes.

Sem deixar de mirar esse público-alvo na mosca – a capa não deixa ninguém mentir –, a coletânea Meu Amor é um Vampiro, da Editora Draco (R$ 31,90, 160 páginas), organizada por Eric Novello e Janaína Chervezan, superou essa tentação e é capaz de resistir ao teste de uma leitura mais adulta. A maioria dos contos visa leitoras adolescentes sem subestimá-las e nenhum se reduz a mera imitação. Todos usam linguagens simples, muitos deles coloquialmente adolescentes, mas também expressam vontade e dedicação da editora e das autoras (todas mulheres) de dar o melhor de seu talento para apresentar histórias criativas e interessantes, com personalidade própria. São assumidamente sangue-com-açúcar, mas o teor de glicose varia. Alguns deveriam vir com advertência aos diabéticos, mas outros se contêm e permitem sentir melhor a presença de outros temperos.

A primeira noite de neblina, de Adriana Araújo, começa bem. É bem escrito, a linguagem é rica, a protagonista soa inteligente, tem uma voz autêntica e característica. Pena que o encontro vai pouco a pouco se acomodando aos lugares-comuns do romantismo mais desbragado, com direito a um passeio por um reino de contos de fadas ao lado de um príncipe encantado para Bela Adormecida nenhuma botar defeito, um e outro sem os toques originais e pessoais que o início prometia. Um tanto frustrante, também, que a experiência – que culmina na tradicional relação sexual metafórica – não afete em nada a heroína, que retoma seus hábitos como se nada houvesse acontecido.

O presente, de Valéria Hadel, é também ingênuo e irônico, mas mais divertido e, no fim das contas, mais satisfatório. Desta vez, a protagonista é uma vampira de muitos séculos (ela nos diz ter sido modelo da Moça com Brinco de Pérola que Johannes Vermeer pintou em 1665), que convive com bruxos e lobisomens, mas tem uma cabeça de menina vaidosa – com a agravante de ter sua insegurança de adolescente multiplicada pela impossibilidade de se ver ao espelho, como é de praxe entre os vampiros desde Bram Stocker. O conto e sua inesperada resolução giram em torno desse pormenor.

Vampiro genérico, de Rosana Rios, é um conto que rema contra a corrente. Uma protagonista relativamente sensata acompanha duas amigas nem tanto, que marcaram um encontro com um suposto vampiro pela internet. São muito convincentes como adolescentes típicas, mas o vampiro é inusual – como vampiro, bem entendido. Parece mais um farsante: um humano comum e sem graça, sem as características tradicionais do vampirismo e sua aura romântica, tentando se divertir à custa das garotas. O resultado traumático dá à história um tom moralista de conto cautelar à Chapeuzinho Vermelho, mas é eficaz.

O Rosa e o Negro, de Nazarethe Fonseca é, infelizmente, o mais fraco do livro. Trata-se de uma autora bem-sucedida no gênero – a mais vendida no catálogo de ficção da Editora Aleph, que conta com feras como Isaac Asimov, Ursula K. Le Guin, William Gibson e Philip K. Dick em seu repertório. Não é uma imitadora, pois gotejava seu sangue-com-açúcar, denso como mel de engenho, muito antes de se ouvir falar de Stephenie Meyer. O conto se confina, porém, a batidos clichês telenovelescos de amor adolescente de classe média, entre uma menina bonita por quem, inexplicavelmente, nenhum rapaz havia se interessado e o namorado perfeito que por fim a descobre. Para quem não é viciado em glicose, a sensação é enjoativa. A história se demora demais em explicar como tudo é perfeito, enquanto o leitor se impacienta pelas consequências da óbvia revelação de que o garotão é um vampiro. E corre o risco de concluir que sua paciência não valeu a pena: tudo acaba em dramalhão mexicano, seguido de previsível happy end hollywoodiano.

Meu Amor Eterno, de Ana C. Silveira, é parcialmente bem-sucedido ao correr o risco de se afastar da comodidade de ambientes modernos ou fantasiosos e de uma linguagem moderna ou coloquial para se aventurar em um ambiente vitoriano. Pode-se reconhecer no conto a atmosfera de O Morro dos Ventos Uivantes e dos clássicos da literatura gótica do século XIX, ou pelo menos de suas traduções para o português. A trama é um tanto óbvia, mas não deixa de ser cativante. Por outro lado, o clima e a coerência da narrativa são um pouco prejudicados quando se sabe que o protagonista, filho de um cocheiro do interior inglês, recorre à religião e simbologia de uma suposta ordem católica romana dedicada a combater o vampirismo, Um inglês vitoriano de origem humilde, nascido no campo, ser ou tornar-se católico é algo tão inusitado que exigiria explicação. Parecem ausentes ou mal interpretados, também, os preconceitos de classe típicos da época e do país, relacionados mais ao berço do que ao tamanho da conta bancária.

Feio como a Fome e a Morte, de Regina Drummond, quer surpreender, mas a habilidade e o engenho ficaram aquém do necessário para a empreitada. O protagonista, estudante bonito e rico, desenvolve um desejo tantalizante por uma bela colega de faculdade e um ciúme igualmente obsessivo por seu namorado sem atrativos aparentes, que acredita ser um vampiro. A ideia é à primeira vista promissora, mas o personagem principal e o desenvolvimento de sua compulsão não são convincentes. A história se passa nesta nossa realidade atual, na qual vampiros são vistos como seres do folclore e da literatura. Então, como o ciumento chega tão facilmente à conclusão que seu rival é literalmente um vampiro e a ela se apega apesar da falta de evidências claras? E por que está tão certo de que vampiros devem ter tais e quais características, quando a concepção do vampirismo varia drasticamente de autor para autor, de lenda para lenda, de filme para filme? Ademais, ele só percebe a verdade bem depois que esta ficou óbvia para o leitor, mesmo sendo o narrador. Por falta de verossimilhança psicológica, o andamento e a resolução da história acabam por parecer muito forçados.

Sede, de Helena Gomes, vem a ser um dos melhores do livro. Em parte, justamente pelo sucesso em criar um protagonista que sente, pensa e age de maneira verossímil, apesar de se revelar ser uma variedade inusitada de meio-vampiro, com características pouco usuais e uma ingênua atração por uma garota humana. Também é um conto bem ambientado, com descrições vivas e ricas de cenários à primeira vista rotineiros, das estações de metrô de São Paulo às ruas e apartamentos de Santos. Por fim, a trama é inteligente e consegue alimentar um real suspense, que faltou em vários outros casos. A revelação do mistério e o desfecho da história conseguem surpreender, sem que o leitor se decepcione ou se sinta tapeado. O maior deslize da história é um detalhe gastronômico: o herói é um cozinheiro de formação superior com um patrão exigente, mas a refeição que serve, à base de frango com ervas e massa, bem pouco imaginativa, é acompanhada por um vinho tinto inadequado tanto ao prato quanto ao calor que sabemos que faz na ocasião.

O Vermelho do Teu Sangue, de Cristina “Tziganne” Rodriguez – heterônimo da escritora de ficção científica e fantasia Ana Cristina Rodrigues para textos com alto teor de glicose – é outro que se arrisca com uma ambientação histórica. O cenário é a Veneza do tempo dos doges e a protagonista, uma jovem cortesã pressionada pela mãe a sair à caça de amantes pela primeira vez. A história não se mostra tão original ou provocante quanto seria de se esperar. É mais previsível que o desejável e a ênfase em sentimentos devastadores e diálogos melodramáticos deixa pouco espaço para aproveitar as peculiaridades do tempo e do lugar, mas ao menos é bem contada, com uma linguagem adequada. Apenas uma inadequação: a cortesã é logo apresentada a dois nobres “da Transilvânia” – como para deixar sua verdadeira natureza imediatamente óbvia ao leitor –, mas seus nomes são eslavos quando a região é habitada, há muito, por romenos, húngaros e alemães.

Nix, de Giulia Moon, é o mais atípico e surpreendente conto da coletânea. Fugiu da proposta de uma história voltada para adolescentes ingenuamente românticas, mas com resultados muito bons. Neste conto, a protagonista é uma vampira prostituta, caçadora impiedosa de homens, que tem como superior e amante vampiro ainda mais poderoso, manda-chuva do pedaço. Deixa-se, porém, fascinar misteriosamente por um rapaz aparentemente comum que foi sequestrado por uma de suas colegas “vampiranhas”. A linguagem é vulgar e picante como seria de se esperar, sem ser descuidada ou cair na caricatura. É outra história com uma personagem exótica fantástica, mas verossímil, que é bem ambientada – neste caso nas ruas e motéis da noite paulistana –, introduz ideias heterodoxas em relação a vampiros e se desenvolve de maneira a criar um suspense autêntico, com um desfecho interessante, ainda que não tão surpreendente. Dá um fechamento digno a uma boa coletânea.