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O filme mais esperado

por Redação Carta Capital — publicado 11/08/2011 14h05, última modificação 12/08/2011 16h37
'A Árvore da Vida', de Terrence Malick, que intercala origem do universo com memórias da infância, estreia na sexta-feira 12. Por Rafael Brandimarti
Árvore da Vida

O longa narra a história de uma família americana, na década de 50, encabeçada por um pai rigoroso (Pitt), uma mãe extremamente amorosa (Jessica Chastain), e seus três filhos

Por Rafael Brandimarti

Uma citação do Livro de Jó seguida de uma névoa alaranjada que aos poucos se transforma no que poderia ser uma Madona dão início ao quinto longa-metragem do diretor norte-americano Terrence Malick, A Árvore da Vida (The Tree of Life).

Bissexto por excelência, Malick volta à direção após um hiato de seis anos e não desaponta aqueles que esperaram.

A Árvore da Vida, filme-poesia que estreia nesta sexta-feira 12 nos cinemas, recebeu a Palma de Ouro em Cannes, tornando-se assim um dos filmes mais aguardados do ano e, consequentemente, favorito na corrida ao Oscar do ano que vem.

Estrelado por Brad Pitt e Sean Penn, o longa narra a história de uma família americana, na década de 50, encabeçada por um pai rigoroso (Pitt), uma mãe extremamente amorosa (Jessica Chastain), e seus três filhos homens, na tenra idade ainda.

Após uma notícia devastadora, tal qual as desgraças que caíram sobre o próspero Jó, a narrativa do filme corta para o presente e mostra um homem maduro e bem-sucedido (Penn), embora deslocado em seu meio e envolto em questionamentos existenciais e laços de família partidos.

O que poderia parecer banal ganha ares de sublime quando Malick faz uma longa digressão com belas imagens da Terra e conta, por meio de som e fúria, as origens da vida no planeta, do Big Bang até os dias de hoje, passando pelos dinossauros e sua extinção.

É a forma encontrada por Malick para encaixar a ideia do macro (com imagens do planeta e do espaço) e do micro (como a vida molecular). Ondas quebrando no mar, uma corredeira de rio, sequoias gigantes, nebulosas, o cosmo, um sistema circulatório em funcionamento, a vida selvagem, crianças brincando com bolhas de sabão, um prédio envidraçado refletindo o sol num complexo de escritórios.

Marca registrada do diretor, a natureza e os planos contemplativos estão presentes também nos seus filmes anteriores, como em O Novo Mundo, de 2005, e no belo Além da Linha Vermelha, de 1998.

Recluso a ponto de não comparecer à prémiere e à premiação do longa em Cannes, Malick entrega em 138 minutos de filme o seu trabalho mais "sagrado" e silencioso, a ponto de seus protagonistas perpassarem a tela muitas vezes mudos, observadores da experiência de vida que protagonizam e que o filme tenta explicar.

A falta de diálogos é preenchida por uma belíssima trilha sonora que, nos momentos da formação da Terra, funciona como um paralelo contemporâneo com o quarto movimento de Fantasia, da Disney, musicado então pela revolucionária Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1882-1971).

Os três irmãos da narrativa aparecem quase sempre como representação dos questionamentos e recordações do filho mais velho (nenhum nome é mencionado no filme). Este, quando criança, em meio a deveres como cuidar do gramado da casa e aventuras com os meninos da vizinhança, flerta com a perda da inocência e o latente conflito com a figura opressora do pai, um inventor frustrado que deposita nos três filhos o sucesso que não conseguiu atingir na vida.

Muito bem dirigido – a ponto de prescindir de roteiro durante o "gênesis" – e com uma belíssima fotografia, A Árvore da Vida, se não é o melhor filme do ano, deixa no espectador a sensação de incerteza pouco comum, rara até, ao final de um filme: "Mas o que foi que eu vi afinal?" Nada que uma volta à sala escura e à bela poesia de Malick não resolva.

Com seu final idílico e altruísta, o filme sintetiza, de uma forma singela e ao mesmo tempo trabalhosa, aquilo que o indivíduo autoindulgente busca na vida. Ideia esta muito bem colocada numa das várias falas em off da mãe, a "árvore da vida" do filme: "A menos que você ame, sua vida passará rapidamente".

Em tempo: a "névoa" colorida que permeia o filme do início ao fim remete à escultura de luz Opus 161, do artista dinamarquês Thomas Wilfred (1889-1968).