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O eterno combate

por Rosane Pavam publicado 29/06/2009 15h07, última modificação 16/09/2010 15h08
Eu gosto de Michael Jackson. Preciso dizer isto literalmente, obviamente, agora que li comentários assustadores ao que escrevi sobre o músico na coluna passada.

Eu gosto de Michael Jackson. Preciso dizer isto literalmente, obviamente,  Naquele texto, creio mostrar pelo artista todo o meu sofrido respeito, ressaltando que houve para ele, sempre, a senha jornalística de evidenciar seus problemas pessoais. Na minha última coluna, “eu gosto de Michael Jackson” foi dito de uma maneira bastante clara, mas não óbvia. Não gosto do óbvio, embora às vezes ache que ele seja necessário à maioria dos que vivem ao redor.

Entendo o cartunista Laerte. A ambiguidade é uma necessidade. O leitor precisa crescer com a sutileza e com as palavras geradas a partir de novos sentidos. Ou não crescerá. Ou não será leitor. Não à toa Jorge Luis Borges dizia que era mais difícil ler do que escrever.

Está na hora de sairmos de um pequeno lugar em que a língua se vê dominada pela simplicidade do index e rejeitar a condição um dia imposta a nós de homer simpsons, postes de egoísmo e ignorância nos quais as esperanças bancárias alheias são depositadas. É preciso que nos apossemos de nosso principal instrumento civilizatório. Sem língua não há cultura. Sem língua somos incapazes de fazer algo útil por nós mesmos. Sem língua, bárbaros e vilipendiados nos tornamos.

A internet deveria servir ao menos para isso. Raramente escrevemos tanto como depois de seu advento. Deveríamos aproveitar esta oportunidade que ela nos dá para transcender a leitura apressada, para derrubar as proibições à complexidade, esta que, no entanto, é capaz de nos fazer a cada dia mais homens, perguntadores e críticos. Um grande amigo sempre me diz que falta muito para o homem se tornar humano. Não quero crer que ele esteja certo para sempre.

Investiguei em uma reportagem, publicada esta semana na revista CartaCapital com o título , o sentido de autoajuda que a literatura ganha nas escolas, e o mal que isto tem feito ao pensamento não somente dos jovens, mas de seus pais e professores, um mal comunitário. Chegamos a um ponto em que escritores julgam não haver lugar para a verdadeira literatura em sala de aula. Enquanto, pelo contrário, ela representa a grande experiência humana, o bom e o mau que há em nós _ e sobre o adjetivo mau, tenho a agradecer ao Michael Jackson, que um dia disse “eu sou mau” em uma canção provocativa do tipo “venham que vocês terão”.

Literatura não é um enfileirar de boas intenções, a reportagem prossegue dizendo. E ali cito um excelente artigo de Regina Zilberman no livro “Escola e Leitura: Velhas Crises, Novas Alternativas” (Global-ALB). Não percam o ensaio “A Escola e a Leitura da Literatura”. Nele, a educadora explica por que, historicamente, a literatura é familiar à escola e por que deve permanecer nas salas de aula, como um requisito da civilização. Se a escola ainda deseja explorar o que de melhor há no homem, seu desenvolvimento, sua cultura, deve encarar o desafio literário de frente.

Um comentário a minha reportagem em um blog da internet diz que, em , escrevi uma matéria sobre quadrinhos. Embora tenha falado da rejeição conhecida a Will Eisner no texto, não escrevi sobre quadrinhos, mas sobre toda forma literária cerceada. E, se escrevesse sobre quadrinhos em um texto, isto não deveria constituir uma grande surpresa ao blogueiro. Não descobri os quadrinhos hoje. Meu pai os desenhava, eu os lia. Há duas décadas, ajudei a lançar, na companhia de excelente equipe, a revista brasileira “Animal”, na qual os quadrinhos eram tratados com profundidade e beleza.

Os quadrinhos, ao contrário do que comumente acontece, não podem ser tratados apenas como coisinhas novidadeiras. Eles são, de certa forma, a leitura de combate contemporânea. Se o que Eisner disse há trinta anos, em referência ao que se passara há setenta, ainda é capaz de trazer incômodos pedagógicos, Eisner deve ser lido ainda mais.

Nunca nos faltará literatura. Aquela de Eisner, Joe Sacco, Robert Crumb, Jorge Amado, Henry Miller. A de T.S. Eliot e Ted Hughes. A de Cortázar, Arlt e de tantos outros que nos esperam nas estantes que ainda há. Não vamos desistir deles, nem de nós.