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Cultura

Cartas de Portugal

O estado do orçamento...de estado

por Eduarda Freitas — publicado 28/10/2010 10h12, última modificação 28/10/2010 10h12
De nossa colunista portuguesa Eduarda Freitas:" o meu país vive na indecisão de aprovar ou não um orçamento de Estado."

O meu país vive na indecisão de aprovar ou não um orçamento de Estado

O partido do governo e o maior partido da oposição têm que chegar a acordo para a viabilização do orçamento. Ou não. As negociações estão em curso. O país vive suspenso a contar moedas. Euros que se vão com as novas medidas de austeridade para evitar – dizem – que o que está mau fique ainda pior. Cortes nos salários públicos, cortes nos benefícios fiscais, cortes na alegria, cortes na esperança e cortes na vontade de acreditar.

No meio dos cortes e das contas, desligo a televisão e vou espreitar os buraquinhos entre as pedras da parede da casa da minha avó, a ver se ainda lá estão as moedas que  guardava em menina. Faziam parte do orçamento...

Lembro-me do orçamento que ainda não o era. Lembro-me do meu orçamento quando se resumia a um conjunto de moedas que ia juntando aqui e ali para depois comprar presentes. Tinha sabor de vitória esse guardar de escudos para depois comprar uma jarra à mãe, porque flores ela tinha muitas no jardim. E entrava na loja de cristais com louças e bonequinhas de porcelana na montra, cheia de casacos e mochila às costas a caminhar devagar no receio de uma distracção que pusesse em causa todo o esforço do orçamento. A avó pendurava notas de reis na árvore de Natal. Notas que guardava durante meses, bem dobradas em quatro num porta-moedas preto, e que todas juntas por serem pouquinhas e pequeninas, pareciam muitas e grandes, porque resultavam do esforço de uma apurada gestão entre carne, peixe, água, luz e pão. O meu orçamento também engordava com moedas perdidas no carro e que tão magicamente caiam do bolso das calças do pai. Outras dormitavam nas dobras do sofá, outras ainda – poucas – nos tapetes de casa. Muitas vezes, o orçamento crescia um pouco mais com o troco das  compras que a mãe me mandava fazer. Aquele “o que sobrar fica para ti”, sabia sempre a poupança, mesmo que o troco não passasse de um troca de afectos, coisa mais própria do campo do amor do que do capital. O meu orçamento era todo gasto, moeda a moeda, quando a ocasião pedia. E pedia muitas vezes: Natal, Páscoa, anos do pai e da mãe, anos da irmã. Por aí... O orçamento era tema entre amigos, não a ver quem tinha mais dinheiro, mas sim a ver quem tinha mais imaginação para o gastar e fazer os outros felizes. E a nós. Corríamos com papeis de embrulho pelas ruas da cidade e eu com uma vontade enorme de contar aos destinatários dos presentes, onde e como tinha sido gasto o dinheiro. O pai dizia que se não pudéssemos comprar um casaco com duas mangas, comprávamos com uma. E a mãe concluía a lição dizendo que em caso de não dar sequer para comprar uma manga, então não comprávamos o casaco. Ou então, comprávamos um colete. E riamos. Porque era um orçamento saudável, sempre aprovado, contado ao tostão, amigo e repleto de momentos que multiplicávamos uns pelos outros, como notas de afecto distribuídas com critério, mas de mãos largas.