Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O engajamento libertário de Graciliano Ramos

Cultura

CartaCapital na Flip

O engajamento libertário de Graciliano Ramos

por Marsílea Gombata publicado 05/07/2013 14h08, última modificação 09/07/2013 18h05
"Procurar exemplos de marxismo em sua obra é perder o que há de mais importante", diz o neto do escritor alagoano , homenageado do evento neste ano
Divulgação
Graciliano Ramos

Randal Johnson, Sergio Miceli, José Luiz Passos e Dênis de Moraes participam de debate sobre a obra de Graciliano Ramos, homenageado da 11ª Flip

Quem foi Graciliano Ramos? A pergunta, para o escritor Dênis de Moraes, poderia ser respondida com um substantivo apenas: “um revolucionário”. Presente à mesa Graciliano Ramos: ficha política, da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o também jornalista classificou o autor alagoano como um “um homem de convicções libertárias”, e não apenas um "comunista".

“Seu compromisso com o ideal de libertação humana foi permanente. Desde os escritos dos anos 20, ele mostra essa tendência libertária”, lembra Moraes. Ele participou do debate ao lado do brasilianista Randal Johnson, do sociólogo Sergio Miceli, e do mediador José Luiz Passos, professor da UCLA. “Ele ainda responderia, da boca para fora, que a Flip era um rapapé burguês e que era exagero dedicar uma edição toda para ele.”

Para Marcos Falchero Falleiros, estudioso da obra de Graciliano e professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o autor foi “político no sentido grandioso do termo, que atribui ao homem a qualificação essencial de animal político”. “Por isso sempre combateu o proselitismo na arte, construindo uma obra com tal responsabilidade estética que em sua plenitude humana representa no século XX uma das respostas mais significativas às aporias da literatura engajada”, disse ele, em entrevista a CartaCapital.

Mesmo que veja o avô primordialmente como escritor e não como político, o neto do autor de Vidas SecasSão Bernardo, Ricardo Ramos Filho, não discute o ativismo do avô - que morreu em 1953, um ano antes de seu nascimento. “Ele certamente foi um autor engajado. Engajamento que se fazia pelo texto, nas preocupações explícitas abordadas, no contexto, nas situações vividas por suas personagens”, afirmou Ramos Filho, autor do infantojuvenl Se eu não me chamasse Raimundo (Globinho), lançado nesta Flip.

“Procurar exemplos de marxismo em sua obra é perder o que há de mais importante. Melhor permanecermos no literário que há no texto, em sua maneira diferente de contar suas histórias e, principalmente, na capacidade que tem de proporcionar aos seus leitores um vasto campo de interpretações.”

A política aparece cedo na vida e obra de Graciliano. Os relatórios que apresentou quando era prefeito de Palmeira dos Índios, entre 1929 e 1930, são indícios de uma grande obra em construção, segundo os especialistas. O estilo seco, no entanto, parece ter origem no período da infância que enfrentou no ambiente rústico sertanejo.

Moraes, seu biógrafo, lembra que o grande mérito de Graciliano é não ter subordinado sua arte à política. “Ele mostrou que arte e literatura não podem ser subjugados pela política. Engajamento sim, mas submissão e sufocamento da literatura pela ideologia, não”, avaliou.

“Nesse sentido, ele foi paradigma da consciência política e social, que não é rebaixada pelos ditames das políticas imediatas e pelas palavras de ordem. Mesmo em suas obras póstumas, após sua passagem pela extinta União Soviética, nunca cedeu ao culto à personalidade e ao panfletarismo. Pelo contrário, resistiu à censura e ao patrulhamento dos aloprados do PCB durante a Guerra Fria.”

Governo. Além de ter ocupado a prefeitura de Palmeira dos Índios, em 1933 Graciliano assumiu o cargo de diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente a secretário de educação. Ficou preso de março de 1936 a janeiro de 1937 acusado de ser comunista. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) a convite de Luís Carlos Prestes. Morreu em 20 de março de 1953, filiado ao partido.

Seu primeiro romance, Caetés, foi lançado em 1933 já com traços do pessimismo que marcou sua obra. A obra teve uma nova edição lançada pela editora Record nesta 11ª Flip.

O primeiro romance de Graciliano foi também tema da mesa desta sexta-feira 5, na qual foram analisados ainda os clássicos São BernardoAngústia. Os três livros, lembrou Miceli, têm em comum “personagens dilacerados entre o projeto intelectual que não dá certo e a tentativa de se reapropriar”.

Além disso, os três mostram uma característica fundamental de seu estilo: “a impressionante capacidade que tinha de combinar leitura de análise socioeconômica, com psicológica, amorosa e sexual”, conforme observou Johnson.

Certa vez, Antonio Candido disse que Graciliano passou da “necessidade de inventar” à “necessidade de depor”. A mesma visão compartilhada por Moraes, que vê o escritor alagoano como um combatente que lutou em nome dos oprimidos. “Às questões humanitárias, ele deixa um legado de que é possível exercer a política com P maiúsculo. Se fosse vivo, indiscutivelmente estaria apoiando os protestos da cidadania e seria uma voz crítica. Para os dias que correm, seria uma figura fundamental.”