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Cultura

Crônica

O Divórcio

por Alberto Villas publicado 04/09/2014 15h35
Todo dia, lembro-me daquela pedra do poeta Carlos Drummond de Andrade

De segunda a sexta, os meus dias costumam ser cheios, às vezes transbordam. Acordo religiosamente às seis horas da manhã, ainda está escuro. São os sinos do iPhone que me despertam. Abro a janela do escritório e vou vendo o dia chegar, o sol despontando lá longe nas frestas dos prédios que rodeiam o nosso apartamento.

A primeira felicidade da manhã é um café forte e um suco de laranja com mamão que preparo para as pessoas queridas da minha casa, que vão acordar mais tarde. Minha mulher e minha quarta filha, a caçula. Um sabiá às vezes pousa na  janela para comer as frutinhas vermelhas da jardineira.

Ligo o computador e assim que ele clareia o ambiente, vou até a porta pegar os jornais, a Folha e O Globo, que o porteiro deixa, pouco antes das seis, em cima do capacho. Mesmo sabendo que eles estão morrendo no papel, sempre espero uma notícia boa, que raramente vem. Tomando o café forte e assistindo o Télématin no Canal 5, vou lendo os jornais e registrando as principais coisas do nosso dia anterior nos Cadernos da Família, hábito que cultivo desde o dia 6 de novembro de 1977, lá dos tempos de Paris ainda.

Nunca me esqueço de anotar o sonho, logo cedo, a pedido do meu médico. É raro quando não sonho com passarinhos. Escolho músicas para ouvir durante o dia porque, desde 1966, quando comprei o primeiro disco, o Domingo, do Caetano e da Gal, minha vida só funciona com trilha sonora. Hoje por exemplo, separei Tiê, um Walter Franco que consegui finalmente passar do vinil pro CD, Leonard Cohen, Tom Waits, Roberto Carlos em Ritmo de Aventura e os novos CDs do Morrissey, da Banda do Mar, do Terno e dos Primos Distantes. Organizo o meu blog, defino o que vou postar no decorrer do dia. Posto algumas coisas no Face, brigo com um, com outro, mas costumo fazer as pazes rapidinho. Com os bons e velhos amigos, sempre faço as pazes.

Leio. Estou mergulhado num livrinho ótimo da Cosac Naif chamado Mudança, do chinês Mo Yan, merecido Nobel de Literatura. Por volta de onze horas, desço para fazer esteira. Sessenta e quatro anos, preciso. Volto pra casa, envio e respondo alguns e-mails.

Escrevo. Essa semana, além dessa crônica aqui, estou fazendo um texto para a revista Viagem e Turismo e outro pra revista Trip. Almoço com a minha filha caçula vendo o horário político na TV, que ela adora. Releio. Reviso cada capítulo do meu livro para a Editora Planeta, programado para sair no final do ano. Passo um pente fino parágrafo por parágrafo, antes de ir despachando os PDFs pra editora. Lambo a cria.

O livro A Alma do Negócio que saiu do forno, quentinho ainda, está em cima da escrivaninha desde o dia em que o motoboy da Editora Globo deixou na portaria. Gosto dele, penso no lançamento que será no início de outubro. Vou organizando um mailing para encaminhar para a Ana Lucia da GloboLivros. Me preocupo, pesquiso. Tenho um deadline para entregar um novo e-book, segredo absoluto. Vou colocando em pastas tudo que tenho e consigo reunir sobre o meu personagem. São livros e mais livros, revistas amareladas com o tempo, recortes, páginas encadernadas.

No final da tarde, pilates. Costumo, na volta, dar um giro pelo meu bairro, a Lapa, em busca de novas histórias, além de comprar pão quentinho na Merci. Sempre volto com uma história meio de padaria. Anoto tudo no computador. A noite cai, a família volta pra casa. Jantamos e começamos a traçar os planos para a próxima viagem. No final do ano, estamos querendo ir longe demais. Oito da noite, costumo comer frutas numa tigela de louça branca vendo o JN, um encontro diário com a minha querida Patrícia Poeta.

Na segunda, o iPhone toca avisando que vai começar o Roda Viva. Na quarta é o Saia Justa, com a minha querida Astrid Fontenelle, e na sexta, o GloboNews Literatura, com o meu querido Edney Silvestre. Tarde da noite sempre rabisco alguma coisa, leio revistas e tomo um  comprimido de Líptor para estancar o colesterol alto.  Mas, antes de desligar o computador, sempre dou uma espiadinha pra ver se não chegou um e-mail do meu advogado, lá de Belo Horizonte, com uma notícia que espero há vinte e sete anos: O juiz assinou o seu divórcio!

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