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Cultura

O diretor fantasma

por Orlando Margarido — publicado 13/09/2011 10h19, última modificação 15/09/2011 20h42
Com Carnage, Roman Polanski volta a se armar de corrosão para, em isolamento, rir dos dissimulados

Será inevitável nos tempos atuais refletir sobre o cinema de Roman Polanski à luz da mais recente entre as tragédias que se abatem com comovente frequência em sua vida. O enlace entre obra e autor, tão observado por críticos, entusiastas e biógrafos que pretendem encontrar o ponto nervoso, vem com frequência à tona para certificar um destino previamente traçado e não raro confirmado na tela. Até agora, a condição parecia fazer jus à vítima. Mas parece haver uma mudança em curso. Se no thriller político O Escritor Fantasma surgiam indícios suficientes de um sorriso sarcástico para aqueles que condenavam o cineasta como o patife da vez, coberto pela ignomínia, agora o rosto parece se constringir de tanto rir de certa dissimulação. Fica difícil não crer ser de caso pensado. Polanski, aos 78 anos, recomeça a se armar.

Essa nova atitude se demonstra por Carnage, ou Deus da Carnificina na recente montagem teatral brasileira, a mais nova diatribe de Polanski exibida no 68º Festival de Veneza. Não propriamente dele, como se sabe ser a peça de 2006 de autoria de Yasmina Reza, mas com um acento mais adequado dado por ele ao registro da civilidade que desaba na barbárie absoluta e, portanto, digno de figurar na cinematografia do polonês. Sim, porque o diretor não chega a essa dramaturgia por acaso em busca de algum traço interessante de contemporaneidade. Há todo um precedente em sua obra reavivado agora no esforço de continuar sua imaginação artística enquanto paga pena, se não mais de cárcere privado, ao menos de isolamento.

Um isolamento também físico, como é o do apartamento no qual se digladiam os dois casais da peça e da mesma forma que um dia foram a personagem de Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo, de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary e o do próprio cineasta em O Inquilino. Mesmo quando também é um navio, suas minúsculas cabines, como em Lua de Fel. Já em O Escritor Fantasma, o fator é determinante para o protagonista que deve escrever uma biografia de um político em sua casa de praia e não consegue suportar a pressão.

É menos ainda casual que temos como ponto de partida de Carnificina a criança acuada e perseguida como o diverso que não deve ser integrado aos melhores. Foi essa a impressão que o garoto Polanski teve na sua Varsóvia de nascimento sob o domínio nazista, trauma que o acompanharia por toda a vida. No texto de Reza, dois colegas de escola de 11 anos se estranham no parque e aquele não aceito na turma do outro agride o líder com um pedaço de madeira, estragando-lhe dois dentes. É o momento, então, de os respectivos pais ajustarem de modo civilizado como proceder na possibilidade de uma retratação, tanto moral como financeira.

No filme eles são Penelope e Michael- Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly), pelo lado da vítima, e Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph- Waltz), como responsáveis por quem atacou. Os primeiros recebem os dois em sua casa para discutir o caso. Esboçam um documento, pedem uma demonstração de rigor aos outros para que orientem o filho e até ajustam um encontro de reconciliação. O encontro se alonga em amenidades, como uma pausa para café e uma torta que será simbólica da degeneração da conversa. Quando os pontos de vista entram em conflito, a classe e a civilidade são as primeiras a sofrer com o revés. A partir daí é ladeira abaixo, caminho eventualmente interrompido pelo celular de Alan, advogado que está em pleno processo de defesa de um grupo farmacêutico, ou um mal-estar súbito de sua mulher, e pior, a crise do outro casal que surge com fúria. São todas pessoas decentes, nós quatro, crê Michael Longstreet, anfitrião ainda recoberto de polidez, aquela possível a um tipo um tanto bronco e vendedor de produtos domésticos que jogou o hamster dos filhos na rua por não suportar o pequeno animal.

Em um ponto ao menos dessa trajetória pode-se refletir sobre a insistência dos convidados em permanecer no ringue de luta por um ou outro motivo casual. Mas se Deus da Carnificina se inscreve num universo de realismo que busca a transcendência para um sentido mais metafórico, da briga burguesa expandida a conflitos de nações, por exemplo, a leitura nem sempre funciona a contento no que tange ao comportamento dos personagens. Nesse aspecto, o texto de Reza parece flertar mais com a via surreal do Luis Buñuel, por exemplo, de O Anjo Exterminador, do que a dramaturgia americana cínica aos valores burgueses de Harold Pinter ou Edward Albee.

Há, desta forma, condições no original que permitem nuanças de interpretação do tom de abordagem, seja ele mais dramático e minimalista, como se deu na montagem teatral parisiense, seja cômico, a exemplo de maior liberdade no caso argentino. A opção de Emílio de Mello na montagem que percorreu o Rio de Janeiro e São Paulo está mais em sintonia com esta única versão cinematográfica, embora seja válida a apreciação de Paulo Betti, um dos atores ao lado de Julia Lemmertz, Deborah Evelyn e Orã Figueiredo, de que o nosso passado chanchadeiro sempre se fará presente na tradição cômica nacional.

O riso, como se sabe, também pode despertar e Polanski não tem outra intenção maior que esta para o seu momento. O diretor elaborou o filme todo em seu chalé na Suíça, como havia feito anteriormente com O Escritor Fantasma, quando dava instruções precisas para um assistente por telefone. Polanski não veio ao Lido de Veneza, a sede do festival, para não correr o risco de uma nova prisão, segundo o diretor do evento, Marco Muller. Sua presença, além da necessária oportunidade para discutir sobre a condenação, não chega a ser obrigatória neste caso. O filme é claro quanto à mensagem que seu quarteto de intérpretes se incumbiu de trazer.

Tanto Winslet quanto Waltz, durante a entrevista oficial do filme, sublinharam a sensação de confinamento natural de trabalho no pequeno cenário do apartamento, desejada pelo diretor para criar o clima de acirrada disputa. A câmera leva vantagem se comparada ao palco na possibilidade de trabalhar mais afiadamente as expressões dos atores e a batalha verbal que se instala, recurso de que Polanski não só não abre mão como instiga, muitas vezes tirando partido de uma evidente contrariedade entre o que é dito e a face de quem diz. Nesse sentido, talvez o personagem da mãe do acusado, interpretado por Winslet, termine por simbolizar toda a civilidade que se desmonta por uma única sequência em que, nauseada, expõe pelo vômito a sofisticação e compreensão que se esvai. E faz isso sobre os livros de arte da dona da casa, entre eles um precioso e antigo volume com pinturas de Kokoschka.

Em uma recente biografia à revelia do cineasta publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira, Christopher Sand-ford defende que o realizador é muito melhor na análise do lado obscuro da vida do que tem olhar cômico. Cita, por exemplo, Piratas, seu fracasso de 1986, no qual tenta a vertente de aventura e de humor que não lhe é peculiar. Também para cada filme marcante, dotado de cinismo e circunstâncias sinistras, haveria um fato desolador ocorrido pouco antes, como a alimentar seu talento artístico. O caso demonstra justamente a ironia agora em curso. Polanski realizou Tess em 1979, logo depois de ser acusado de estuprar uma menina de 13 anos, evento que em 2009 foi resgatado para puni-lo. Note-se ainda a passagem mais escabrosa, quando do assassinato de sua mulher Sharon Tate por um psicopata, e sobre o qual ele refletiria em Macbeth.

Carnage é mais habilidoso, até onde o texto de Reza permite, ao não forçar nenhuma consideração maior sobre a situação atual do realizador. Tudo pode ser visto apenas como uma deliciosa sátira aos ditos valores de decência e civilidade que sempre foram seus alvos, mesmo, às vezes, de forma tortuosa. O que Polanski aguça com esse novo trabalho é a discussão do que é valor básico e o que se constitui ponto de vista. É nesta fronteira que reside a batalha dos Cowan e Longstreet, a princípio preocupados mais em se mostrar tolerantes e flexíveis ao outro do que em buscar razões e consequências do ato que os levou ao encontro.

Uma forma de avaliar sua intenção é atentar a receptividade da imprensa presente na primeira sessão do filme em Veneza. Não se escondia a risada nem mesmo nas disputas mais dramáticas da história, como aquela em que os Longstreet lavam a roupa suja do casamento perante os convidados, todos já devidamente animados por uma garrafa de scotch. Não são poucos que apostarão que, nesse jogo, Polanski também lava a alma e será o último a rir da patética condição a que lhe legaram. •