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Cultura

O dia seguinte

por Alberto Villas publicado 23/10/2014 10h02, última modificação 23/10/2014 10h21
Estou esperando ansiosamente o dia 27 de outubro de 2014
Elza Fiúza / ABr
urna

Quando chega o fim?

Segunda-feira que vem, quero acordar um pouco mais tarde, virar pro lado, dar uma boa espreguiçada, voltar a cochilar.

Segunda-feira que vem, quero acordar às sete horas, não mais às seis. Quero regar minhas plantas na varanda, minha hortinha, cuidar das orquídeas, tirar os pulgões do romanzeiro.

Segunda-feira que vem, quero deixar o iPhone quietinho em cima do criado mudo, no silencioso.

Segunda-feira que vem, quero arrumar minhas gavetas que andam meio bagunçadas, colocar tudo em ordem, as contas pagas na pastinha, os CDs dentro das capinhas, as moedas espalhadas pelo escritório, no cofrinho.

Segunda-feira que vem, quero voltar a fazer esteira, caminhar a pé fotografando as novidades grafitadas nos muros e paredes do meu bairro.

Segunda-feira que vem, quero que minha vida volte ao normal. Que eu sente aqui diante do computador e avance a biografia que estou escrevendo, com prazo de entrega.

Quero marcar a data do lançamento do meu livro em Belo Horizonte, escrever uma nova crônica pra revista Viagem e Turismo, a orelha para um livro infantil da editora Geração, organizar as folhas onde anoto os meus sonhos.

Quero fazer aquela lista enorme que sempre faço antes de uma grande viagem, incluir dessa vez as roupas de frio que vou levar porque quando o Natal chegar, estamos pensando em ir longe demais.

Quero colocar a leitura em dia. Em cima da escrivaninha tem Pagu, Saramago, Sergio Porto Dave Eggers, um Mondiano e um Pintassilgo, intactos.

Quero apontar os meus lápis de cor, comprar tinta pra impressora, mandar um e-mail pro meu advogado, ler o projeto de um amigo para um novo programa de televisão, ler um livro inédito que chegou do Rio de Janeiro em PDF.

Quero terminar o projeto Vamos Fugir, um segredo que guardo a sete chaves que, por enquanto, não posso dar nenhum detalhe aqui, nem inbox.

Vou guardar numa caixinha de miniaturas o meu Fuleco que, acredite, ainda está ao lado do computador até hoje, desde aquele 7 a 1 pra Alemanha, aquele 3 a 0 pra Holanda.

Quero voltar a ouvir música todos os dias. Escutar com atenção o novo U2, traduzindo as letras que vieram no encarte. Escutar mais uma vez a Banda do Mar, La Mirada de Yaniel Matos, as Esmeraldas de Tiê, os Amigos Imaginários de Anelis Assumpção e os sambas de Sergio Sampaio.

Segunda-feira que vem quero limpar com Vanish o coelhinho de plástico do América Mineiro, que anda meio encardido de poluição.

Quero tomar uma providência com relação ao pé de nêspera que plantei na janela do meu escritório e que está crescendo assustadoramente. Sei que o prédio não comporta um pé de nêspera por aqui.

Quero checar a lista dos meus amigos no Face, rever os excluídos, fazer uma tentativa de reaproximação.

Quero ir ao correio ver se saiu algum selo bacana e enviar um livro que prometi a uma amiga lá de Manaus.

Quero voltar ao Mercado da Lapa, só pra dar uma espiadinha na barraca de ervas e na barraca dos passarinhos.

Quero colocar em pastas, todas as minhas fotografias que estão uma zona no computador.

Quero ir também ao banco depositar minhas moedas de 1 real que já encheram o porquinho.

Quero também responder um e-mail de um estudante de Jornalismo, que chegou de Ponta Grossa, perguntando se posso emprestar minha tese sobre censura de imprensa que fiz, lá nos anos 70.

Quero comer um pastel de feira, tomar o Crush que minha filha trouxe de Santiago do Chile, quero conhecer o restaurante On Va Manger, estrela da Veja Comer e Beber.

Segunda-feira que vem, quero que minha vida recomece, com mais mudanças e mais futuro. Plagiando aquela velha canção que a Marina Lima cantava, espero que você me abra seus braços e a gente faça um país.