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Cultura

Crônica do Villas

O comunismo

por Alberto Villas publicado 03/04/2014 09h48, última modificação 03/04/2014 10h07
Tinha eu 14 anos de idade quando meu pai me chamou e perguntou: Você quer ser comunista? Por Alberto Villas
gaelx/Flickr
União Soviética

Galeria de propagandas comunistas da antiga União Soviética

O meu pai tinha muito medo do comunismo. A notícia se espalhou pelo Brasil afora, numa época que não tinha Internet, não tinha e-mail, não tinha whatSapp. Mas se espalhou, acho que foi de boca em boca. E não era só o meu pai que tinha medo do comunismo. Meus tios, minhas tias, os vizinhos, o homem da banca de laranja do Mercado Central, o dono da oficina Mecânica, o dono da fábrica de filtros de barro São João, Seu Benito da Banca de Jornal.

Todo mundo tinha medo do comunismo. Quando o jornal O Globo publicava aquelas radiofotos de Fidel Castro ao lado de Che Guevara, o meu pai fazia questão de mostrar aos cinco filhos que aqueles ali eram os comunistas. Eu tinha quatorze anos e hoje confesso que ficava mesmo com medo daqueles barbudos vestidos de verde- oliva. A notícia que se espalhou não era somente que os comunistas queriam tomar o poder no Brasil.

Era muito mais. Lembro quando o meu tio João chegou com a notícia que me fez, apesar de tão jovem, perder o sono. Os comunistas quando invadissem o Brasil iam sacrificar o filho caçula de todas as famílias. Ele falava isso e olhava pro meu pai, o caçula de seis irmãos. A minha mãe acendia uma vela, pegava com os santos dela, fazia novena com um só pedido: que o comunismo não chegasse até nós. Ela ficava cheia de temores e não era pra menos. Ela perderia o marido e Verinha, nossa irmã mais nova que nem sabia ler ainda.

De onde veio essa notícia ninguém sabe, mas ela chegou pela boca do meu tio João, um homem sério, que vivia de terno e gravata. Quando eu questionava alguma coisa, minha mãe respondia: “Seu tio João não iria inventar uma coisa dessas”.

Além de sacrificar meu pai e Verinha, os comunistas iam tomar a casa do meu pai também, casa que ele construiu com tanto sacrifício. Sim, os comunistas iam tomar a casa dele. Eu me sentia um sem pai, sem irmã e sem teto. Quando veio o golpe e os militares liquidaram com a possiblidade dos comunistas tomarem o poder, senti que todos na minha casa ficaram muito aliviados. No meu bairro também. No Mercado Central também. Ninguém da minha família saiu às ruas para comemorar mas, no fundo no fundo, estavam felizes porque estávamos livres daquela praga do comunismo.

O meu pai voltou a contar piadas e a primeira que contou foi essa. Quando Charles de Gaulle, no alto dos seus dois metros e tanto de altura, veio ao Brasil, o presidente Castelo Branco deu a ele um fusca de presente. E De Gaulle, pra se vingar, deu uma gravata pro Castelo, aquele presidente que não tinha pescoço.

Eu achei a piada meio boba mas fiquei feliz de ver o meu pai ter voltado a contar anedotas na hora do jantar. Quando percebi que, para se livrar dos comunistas, estávamos vivendo uma ditadura, que aqueles adesivos JK 65 já não valiam mais nada porque eleições, nunca mais, eu comecei a questionar o meu pai. Num dia, na hora do jantar, enquanto minha passava o seu bife lá na cozinha, porque ele só gostava de comer bife quentinho feito na hora, ele ficou bravo comigo e perguntou na lata, olhando bem no fundo do meu olho:

- Você, por acaso, quer ser comunista, é?

Eu nunca respondi a ele.