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O colonialismo visto do avesso

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 21/10/2008 15h39, última modificação 15/09/2010 15h40
Como gênero literário, o romance colonial atingiu seu apogeu na “Era dos Impérios” de Eric Hobsbawm, nos anos de 1870 a 1914 nos quais o Império Britânico e seus concorrentes – Portugal, Espanha, Holanda, França, Bélgica, Itália e Alemanha – impuseram o domínio europeu à quase totalidade da África e à maior parte da Ásia.

Como gênero literário, o romance colonial atingiu seu apogeu na “Era dos Impérios” de Eric Hobsbawm, nos anos de 1870 a 1914 nos quais o Império Britânico e seus concorrentes – Portugal, Espanha, Holanda, França, Bélgica, Itália e Alemanha – impuseram o domínio europeu à quase totalidade da África e à maior parte da Ásia.

Não que tenha desaparecido imediatamente depois. Tornou-se cada vez mais popularesco e de menor qualidade, à medida que os escritores de primeira linha abriam os olhos para a injustiça e a tragédia da exploração colonial, mas continuou a existir até a queda definitiva dos impérios coloniais, já bem depois da II Guerra Mundial.

Entre suas muitas derivações, estiveram quadrinhos de aventuras como Tintin, do belga Hergé: na sérieTintin no Congo, de 1930, vivida em meio a negros estúpidos e caricatos, o herói dá uma aula a crianças africanas: “Meus caros amigos, hoje vou lhes falar de sua pátria: a Bélgica” – e seu cãozinho, Milu, vigia e denuncia os africaninhos: “Tintin, dois ali estão conversando...”

Boa parte da ficção científica se inspirou na literatura colonialista, disfarçando os impérios coloniais europeus sob a máscara de impérios galácticos e acrescentando um verniz extra de exotismo aos cenários de suas aventuras.

Nas metrópoles coloniais, muitos foram os escritores, grandes e pequenos, a nadar a favor da corrente e contribuir para convencer a opinião pública de que esse empreendimento os enobrecia e enriquecia e ao mesmo tempo seria benéfico aos povos submetidos.

Os nomes mais conhecidos incluem Henry Rider Haggard, John Buchan, Florence Dixie, Conan Doyle e Joseph Conrad no Reino Unido, assim como Pierre Loti, Paul Vigne D’Octon e Paul Bonnetain em França, mas o mais conhecido e representativo e um dos mais hábeis desses autores foi provavelmente Rudyard Kipling, britânico nascido na Índia, cuja postura foi perfeitamente resumida pela primeira estrofe do poema O Fardo do Homem Branco, publicado em 1899:

Tomai o fardo do Homem Branco -
Envia teus melhores filhos
Vão, condenem seus filhos ao exílio
Para servirem aos seus cativos;
Para esperar, com arreios
Com agitadores e selváticos
Seus cativos, servos obstinados,
Metade demônio, metade criança.

Este poema foi escrito com o propósito específico de saudar a recente chegada dos Estados Unidos ao clube das potências coloniais, devida à conquista das Filipinas e Porto Rico ao decadente império colonial espanhol em 1898. Honestamente, Kipling prevenia os estadunidenses de que a aventura tinha riscos e um lado sombrio, sem deixar de ser, a seu ver, nobre e grandiosa.

Essa capacidade de temperar com realismo a apologia do colonialismo o tornava tanto literariamente superior quanto propagandisticamente mais eficaz do que a ingênua descrição da opressão colonial como uma aventura divertida e benéfica de conquistadores bondosos, iluminados e amigos dos nativos, perturbados apenas por uns poucos vilões arruaceiros e obscurantistas.

Em um ensaio sobre Marguerite Duras, a crítica literária Jovita Noronha descreveu as linhas gerais do típico romance colonial francês, tomando como paradigma a obra de Pierre Loti (1850-1923). Seus romances se construíam sistematicamente em torno de uma mesma intriga: um europeu que vive uma aventura erótica com uma nativa em um país estrangeiro exótico, explorando impressões sobre a vegetação luxuriante e hábitos licenciosos, até que o protagonista a abandona por se convencer de que as diferenças que, de início, o atraíam, acabavam por criar uma barreira intransponível

Muitas outras potências européias criaram narrativas semelhantes, entre elas a retardatária Itália, a última delas a se lançar às peripécias do colonialismo. A lembrança da propaganda da aventura colonial ainda está bem viva na memória dos italianos que eram crianças quando Mussolini tentou a anexação da Etiópia, nos anos 30.

No romance A Misteriosa Chama da Rainha Loana (2004), Umberto Eco conta a história de um sessentão desmemoriado por um derrame, que tentar reconstruir sua infância ao redescobrir livros e quadrinhos de sua infância, boa parte dos quais descrevia em termos heróicos as aventuras de heróis italianos na África, inclusive aquela que dá título ao livro.

Em outra série, publicada em plena II Guerra Mundial, o bravo herói atravessa o continente negro para levar uma mensagem ao Duque de Aosta, vice-rei e comandante das tropas de Mussolini na Etiópia. O curioso é que, ao ser publicado do capítulo final, no qual o protagonista por fim cumpre sua missão e promete lutar ao lado do duque Amadeu de Savóia até a vitória, os italianos já haviam perdido a Etiópia. O Duque fora internado em um campo de prisioneiros inglês e ali morreu pouco depois, de tuberculose e malária. Naturalmente, os jovens leitores não se davam conta disso, a menos que desobedecessem a lei fascista e acompanhassem os acontecimentos pela BBC...

Esse quadro geral torna bem interessante e atípica a obra de Emilio Salgari (1862-1911), que provavelmente foi o mais bem-sucedido autor italiano de romances de aventura de todos os tempos, muito mais lido do que Dante Alighieri. Seu nome não é particularmente conhecido no Brasil, mas foi e é extremamente popular na Itália e também na América Hispânica. Entre seus fãs confessos, além de Federico Fellini e Umberto Eco, estão ou estiveram Gabriel García Marquez, Isabel Allende, Carlos Fuentes, Jorge Luis Borges, Pablo Neruda e Che Guevara. Este último leu 62 dos 84 livros autênticos de Salgari (existem ainda 64 outros apócrifos, escritos por imitadores).

Do ponto de vista da linguagem e da técnica literária, é fácil deixar Salgari de lado. Seus livros seguem a receita, já gasta e abusada em sua época, do folhetim romântico. Seus heróis que nada ficam a dever, em façanhas impossíveis, exaltação verbosa e repetição de chavões aos Mosqueteiros ou ao Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas pai – embora este tivesse a desculpa de escrever sessenta anos antes, em pleno auge do romantismo, enquanto as obras de Salgari, criadas entre 1895 e 1911, são contemporâneas de Émile Zola, Machado de Assis, Eça de Queirós, Henry James e Joseph Conrad.

Entretanto, Salgari se diferenciou no seu gênero por tomar a perspectiva oposta: não a do conquistador e suposto civilizador colonial, mas a do nativo que resiste às suas atrocidades. E isso logo após a Itália ensaiar seus primeiros passos no colonialismo (iniciara a ocupação da Eritréia em 1869 e a transformara em colônia em 1889) e seus soldados sofrerem uma humilhante derrota para os etíopes, na primeira guerra ítalo-abissínia, de 1896.

Mesmo em épocas muito mais recentes, um escritor popular contrariar dessa maneira o chauvinismo patrioteiro seria uma ousadia. Tornar-se, nessas condições, o autor favorito da juventude seria insólito. Seria como se um autor estadunidense de quadrinhos virasse mania popular e conquistasse as grandes editoras com histórias sobre guerrilheiros da selva que humilham tropas ocidentais, nos anos que se seguiram à derrota dos EUA no Vietnã. Ou como se em vez de contar as aventuras de um gaulês que lutasse contra os romanos, René Goscinny e Albert Uderzo, ficassem famosos com a luta de uma aldeia árabe contra os colonialistas europeus.

O Asterix de Salgari, o mais famoso de seus surpreendentes personagens, é Sandokan. Criado em 1900, é um pirata de Bornéu, "negro" pelos padrões do autor e de seu público, que combate os colonizadores britânicos, holandeses e espanhóis das ilhas malaias em meados do século XIX. Tem como seu ajudante e imediato, seu Obelix ou Robin, um europeu branco, um português de olhos cinzentos chamado Yanez de Gomera.

Yanez de Gomera é pouco convincente como português, tanto pelo nome quanto pelo hábito, mais próprio de italianos de sua época, de exclamar “Por Baco!” ou “Por Júpiter” a cada momento. Funciona bem, porém, como o companheiro de cabeça fria, moderador dos excessos temerários do herói romântico. Sandokan e Yanez são o que seriam Dom Quixote e o Sancho Pança se o mundo mais propício a heróis românticos.
Yanez foi também o personagem principal do último livro da série, publicado postumamente depois que Salgari, oprimido pela exploração dos editores, pela pobreza e pela doença mental da mulher, suicidou-se por seppuku, à maneira tradicional dos samurais japoneses, em 1911.

Outro dos mais importantes personagens salgarianos é Emilio Roccanera, o “Corsário Negro” que, como Sandokan, tornou-se pirata para vingar o assassinato de sua família por um governador colonial no Caribe da pirataria ocidental clássica. Seguem-se em fama o Capitão Tormenta (na verdade, uma mulher disfarçada), herói de aventuras de O Leão de Damasco, situado no Império Otomano do século XVI e Tremal Naik, o caçador de tigres de O Mistério da Floresta Negra.

Conhecer esses personagens, assim como as outras criações de Salgari, não tem sido muito fácil para o apreciador brasileiro de romances de aventuras. A edição brasileira de O Leão de Damasco, pela Ediouro está esgotada. Adaptações para cinema e quadrinhos existiram, mas são ainda mais difíceis de encontrar.
Além da importação das edições portuguesas, um tanto mais numerosas, foi agora lançada no Brasil Os Tigres de Mompracem (Iluminuras, R$ 44, 336 páginas). Nesse romance, Sandokan conquista o coração da bela napolitana Marianna Guillonk, loura de olhos azuis que era filha de pai inglês e mãe italiana, rouba-a ao tio e tutor e ao noivo indesejado, um par de altivos e fidalgos gentlemen britânicos que bem poderiam ser heróis de Kipling.

É a inversão da fórmula de Pierre Loti, não só porque é o nativo que vive uma aventura erótica com a européia, como também porque, em vez de desistir dela devido à força das circunstâncias ou das barreiras culturais, faz de tudo por torná-la sua esposa. A fórmula favorita de Salgari, pelo contrário é o anti-herói – pirata, bandido, fora-da-lei, rebelde – que se apaixona pela filha do inimigo e trava quantas batalhas for preciso para transpor o abismo que os separa.

Mas as mulheres salgarianas não são as típicas mocinhas dos romances vitorianos, úteis apenas para serem salvas ou para desmaiar nos momentos oportunos. No mínimo, como Marianna Guillonk, a “Pérola de Labuan”, elas também sabem caçar e atirar, estão dispostas a usar uma espada ao lado dos heróis, serem cúmplices de sua artimanhas e ajudaem a salvá-los de seus excessos. E às vezes são a protagonista de suas histórias, como a Capitã Dolores del Castillo, heroína de A Capitã do Iucatã, Shima, a protagonista japonesa de A Heroína de Por Arthur e, naturalmente, o “Capitão” Tormenta.

Os livros de Salgari não têm as características de refinamento e boa escrita que as tornaria recomendáveis para as aulas de literatura, nem as lições de moral convencional demandadas pelas escolas como literatura paradidática. Mas são boas aventuras que, contadas de maneira despretensiosa, expandem os limites da imaginação, da moral e da política não só além do que era de se esperar para o início do século XX, mas de maneira que ainda hoje parece ousada. Mostrou aos vitorianos do passado, e ainda pode mostrar aos do presente, um mundo que não é racista nem sexista, cosmopolita no sentido próprio da palavra – cidadão de todo o mundo, incluídas suas terras tropicais, não simplesmente cidadão da Europa ou do “Ocidente”.