Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O colecionador de frases

Cultura

Crônica do Villas

O colecionador de frases

por Alberto Villas publicado 21/11/2013 09h40, última modificação 21/11/2013 09h52
Comprei uma cadernetinha para colecionar frases como fazia o meu pai
Arquivo Pessoal
pai villas 2

'Meu pai gostava também de anotar frases de parachoques de caminhão'

O meu pai colecionava frases, não na cabeça mas num velho Caderno Avante que encontramos no seu armário depois que ele morreu. Frases famosas que ele foi pescando com o passar dos anos, tiradas não sei de onde já que não havia ainda Google nem nada. Ele ia anotando uma após a outra sem colocar datas nem registrar quem era o autor. Sei que do Millôr ele tinha dezenas.

Na terra de olho, quem tem cego... errei.

Para bom entendedor, meia palavra basta. Entendeu, ecil?

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

Se todos os homens recebessem exatamente o que merecem, ia sobrar muito dinheiro no mundo.

Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.

Ele gostava também de anotar frases de parachoques de caminhão. Às vezes parava no primeiro posto para anotar uma frase que não podia se perder na memória ou na estrada. Gostava daquelas bem cafonas:

Na escola da vida, fui um aluno exemplar.

E as engraçadas também. As que ele mais gostava de lembrar eram:

O amor é cego. Por isso vivo apalpando.

Se gordura fosse físico porco seria atleta.

Se me ver abraçado com uma mulher feia pode separar que é briga.

Algumas, depois de grande, fui pesquisar e acabei descobrindo a autoria.

Quem é que quer flores depois de morto? foi J.D.Salinger quem escreveu.

Viver é negocio muito perigoso, essa é de Guimarães Rosa.

Ninguém pode ser sábio de estômago vazio, de George Eliot.

Tinha umas bem populares e conhecidas que ele não se cansava de repetir, recitava quase todos os dias:

A mentira tem pernas curtas.

A palavra é prata, o silêncio ouro.

Deus ajuda quem cedo  madruga.

Cavalo dado não se olha os dentes.

Quem tem boca vai a Roma.

Não há regra sem exceção. Essa ele foi buscar lá de Miguel de Cervantes, eu sei.

Só agora comecei a fazer um caderno como o do meu pai. Não é um Caderno Avante como o dele, aquele do escoteiro empunhando a bandeira brasileira na capa, porque não há mais. Comecei a anotar numa cadernetinha da Muji e já tenho duas. Uma, que nunca me esqueci, foi dita por um grande amigo que trabalhava na TV Globo:

Deixa eu ler o editorial de O Globo para saber o que eu estou pensando.

E a outra colhi outro dia no Facebook, vinda também de um amigo:

Atualmente o jornalismo é a arte de separar o joio do trigo e publicar o joio.