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O círculo imperfeito

por Rosane Pavam publicado 05/03/2008 16h50, última modificação 16/09/2010 16h51
Lemos poucos livros, menos ainda aqueles que analisam outros livros. Acontece que nestes ensaios mirabolantes há muitas novidades que reanimam nosso amor antigo pela ficção e pela humanidade que a faz.

Lemos poucos livros, menos ainda aqueles que analisam outros livros. Acontece que nestes ensaios mirabolantes há muitas novidades que reanimam nosso amor antigo pela ficção e pela humanidade que a faz. Como os teóricos têm sido mais interessantes do que os ficcionistas! Sou uma jornalista que em algum momento preparou cadernos de resenhas literárias, mesmo sabendo que seu patrão considerava as ficções uma perda de tempo... Obrigadas às distrações contemporâneas da banda larga em curto-circuito, das salas abarrotadas dos ortodontistas e das megalivrarias do saber, talvez algumas pessoas gostem de conhecer que novidades são estas.

Porque há pensadores novos. Livros novos (embora, disto, sempre seja prudente duvidar). Por exemplo, existe este que precisa ser consumido com calma, “A Literatura Vista de Longe” (Arquipélago Editorial), escrito como se o bem-humorado autor, Franco Moretti, duvidasse um pouco das próprias idéias. Professor da Universidade de Stanford especialista no estudo de um gênero que se diz morto, Moretti elege o romance europeu e quer destacá-lo como importante retrato do que somos ou nos tornamos no Ocidente. Mas não se atém a todas as teorias ligadas a ele a que se está habituado, nem ao moralismo que subjaz cada ficção, nem mesmo se preocupa com os autores excepcionais que parecem ter reinventado toda a existência, como Marcel Proust.

Para este crítico italiano, farto de que a literatura perca espaço até mesmo nas faculdades de Letras, esvaziadas porque professores em busca de sobrevivência se metem a estudar videogames, os livros precisam ser lidos de fora, e só então novamente nos interessarão por dentro. É como se tivéssemos esgotado a literatura ao analisá-la à moda de quem destrincha uma galinha. Nossa chance de ressuscitar o animalzinho agindo assim, convenhamos, é bem pouca.

Dificilmente Moretti estudaria Albert Camus, por exemplo, como o fez Vilém Flusser no artigo “O Mito de Sísifo de Camus”, publicado no caderno “Mais!” da “Folha de S. Paulo” deste fim de semana. Para este filósofo tcheco morto há 17 anos, só há um problema real na literatura do autor argelino: “Por que não me mato?”

Se usamos a forma habitual de pensar as coisas, haveremos de concluir que esta é uma afirmação importante para entender Camus (e quiçá toda a existência, mas esta é uma outra questão), porque nós estaremos vinculando o escritor ao existencialismo niilista que bem conhecemos depois de ler “O Estrangeiro”. Flusser é sedutor, escreve muito bem, está distante de se parecer com um destrinchador e não há por que negar tudo o que pensou.

Contudo, Moretti raramente caminhará como quem deseja alcançar um impasse que tudo explica, como Flusser faz. Para Moretti, quando deixamos a literatura a esta ordem estritamente filosófica de preocupações, nós nos esquecemos de que ela também pode ser entendida por outros meios que não apenas o texto, o que sugere investigar as condições físicas em que foi produzida. Como historiador que parece ter aprendido boas lições com o marxismo, Moretti nos propõe que a enxerguemos “de fora”, à moda de uma criança iniciada na ciência que observa formigueiros.

Mais metáforas animais. Camus ou Proust como formigas. Dentro de um formigueiro, caminhem à esquerda ou à direita, andem para frente ou para trás, os dois escritores emblemáticos do pensamento europeu fazem apenas sua parte para manter a casa da literatura em funcionamento. E é neste ponto que eles podem nos interessar ainda mais.

O historiador italiano, é preciso dizer, não usa a pobre imagem zoológica para descrever os fenômenos literários. Prefere as árvores, os mapas e os gráficos. Árvores porque explicariam a coexistência de gêneros em uma mesma época, como se fossem galhos partidos de um nó. Mapas porque são indícios de uma amplidão a que o homem pertence, sua localização geográfica como algo que ajuda a determinar o que ele é. E gráficos porque eles indicam pesquisa, dados coletados e interpretados em determinado período, que nos revelarão um novo desenho da história que já não podemos viver.

Que a literatura seja entendida por seu aspecto histórico, gráfico, geográfico ou botânico, eis aí uma ousadia considerável para um humanista. Isto se não quisermos dizer simplesmente que ele comete um pecado contra a tradição analítica. Mas é isto mesmo, o pecado é bom.

A certa altura do livro, Moretti nos traz um maravilhoso estudo feito a partir do romance inglês em cinco volumes “Our Village”, escrito no início do século 19. A autora Mary Mitford, ao mostrar um relacionamento de compadrio de sua protagonista com os habitantes da vila, mostra de início um mundo equilibrado e, por conta disto, circular, que vai mudando de forma conforme a ocorrência das revoltas camponesas.

“Tudo aquilo que se encarna com uma certa liberdade tende à forma redonda”, havia dito Goethe. E isto porque era no círculo que os burgueses se viam afirmativos, protegidos em sua vila pelo campo onde outros trabalhavam na terra por e para eles. Moretti acredita que esta circularidade era o sinal de uma forma literária - “uma mentalité, uma ideologia” - para a qual a vida de vila era ainda livre de toda pressão externa. A narrativa caminhava como ela, livremente em todas as direções, nunca coagida por uma força contrária, ao contrário do que ocorria a Judas, o obscuro, em Oxford, onde a arrogância do mundo universitário o empurrava à Wessex retratada por Thomas Hardy.

Bastou uma revolta camponesa em 1830 e todo o mundo circular de “Our Village” se rompeu, a ponto de em certo momento da série de livros não mais a protagonista estar apta a seus antigos passeios livres e meditativos, e de as histórias ambientadas na própria vila diminuírem, enquanto cresciam aquelas colocadas longe, em cidades sem nome e sem passado. No romance de Mitford, a relação com a história corrente era estreita e modificava a literatura. E olhe que não se está falando, aqui, da maestria de um senhor como Honoré de Balzac, que também trabalhava a partir de um espaço desenhado, a Paris dividida, o campo de batalha entre os novos ricos e os jovens intelectuais ambiciosos.

“Cada configuração é um sinal, um indício -  uma impressão digital deixada pela história”, Moretti diz. É como se o escritor de romances escrevesse, em lugar de textos, diagramas, e que estes diagramas utilizassem conceitos da física para representar forças. Naquele romance inglês, antes o mundo era circular, e as forças, interiores, centrípetas, agiam sem a pressão de fora; agora, o mundo representava uma confusão de interferências contrárias... “Extrair da forma de um objeto as forças que o fizeram ser o que é: eis a definição mais elegante de todas as que jamais foram dadas à sociologia da literatura”, Moretti diz.

Pena que seu estudo não comporte dados muito atuais. Alguém ainda vai explicar por que, nas cidades contemporâneas, assumimos esta forma amebóide de gotas ladeira abaixo, fugidas de poças. Todas as tentativas burguesas de reviver o círculo, como os condomínios residenciais das metrópoles brasileiras, ou as ruas calçadas com intento de exclusão à moda da Oscar Freire paulistana, servirão ao menos para render uma grande ficção brasileira? Assim esperemos, contra tudo o que dizem sobre a morte do romance. Porque, pelo menos na vida cotidiana, conhecemos o diagrama e as forças que suportamos para caminhar dentro dele.