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O chefão sociopata

por Rosane Pavam publicado 21/01/2012 09h02, última modificação 21/01/2012 09h02
A cinebiografia J. Edgar, de Clint Eastwood, apresenta inovação narrativa e omissões históricas
J. Edgar

Na cena Hoover exibe sequestrador

Uma fala do ator Sean Penn durante a entrega do prêmio anual do cinema Globo de Ouro, sábado 14, em Beverly Hills, resume satisfatoriamente o espírito do novo longa-metragem de Clint Eastwood, cuja estreia é prevista para dia 27 no Brasil.

“Os cínicos dizem ser impossível projetar força usando um vestido”, considerou Penn, “mas J. Edgar está aí para provar que eles erraram.”

Um filme bem definido por uma piada será um bom filme ou uma boa piada? O fato é que, no caso desta obra de mais de duas horas de duração, as oportunidades para o riso são afastadas com tato, às vezes com temor.

Vindo de pelo menos uma biografia solene, a do saxofonista Charlie Parker (Bird, 1988), Eastwood situa a graça apenas em algumas linhas de texto, ora ao enfocar os bastidores de Washington, ora ao expor o sorriso eventual de um ator.

O cuidado deve-se possivelmente à escolha do cineasta e de seu roteirista, Dustin Lance Blank, premiado com um Oscar pela biografia do militante homossexual Harvey Milk, com aquele mesmo Sean Penn, de não abordar de maneira humorística a homossexualidade de John Edgar Hoover, chefão do FBI por 48 anos, até sua morte, em 1972.

Revelado ao público pelo pesquisador Anthony Summers no livro Official and Confidential: The secret life of J. Edgar Hoover, de 1993, esse aspecto da personalidade do xerife foi trancado a muitas chaves públicas enquanto ele viveu.

Seria algo, digamos, aceitável de fazer, já que àquela época, caso declarasse sua opção sexual, um homem poderia pôr em jogo o cargo e a reputação.

O filme caminha por este que é seu tema central com delicadeza. A contundência fica reservada a alguns momentos, quando, por exemplo, interpretado a ferro e fogo por Leonardo DiCaprio, e talvez inspirado nos faroestes tão bem vividos por Eastwood, este J. Edgar Hoover rola com Clyde Tolson no chão do hotel e eles se beijam, sangue nos lábios, sobre um assoalho que mais se parece com a terra empoeirada diante do saloon.

Ou naquele instante em que, em frente do espelho, o homem durão chora a mãe morta (interpretada ao estilo sempre firme de Judi Dench), usando seu colar e seu -vestido e, de novo, atira-se ao chão.

O filme de Eastwood tem muitas dignidades. Seus atores são ótimos. Ele se sai bem com os efeitos especiais e com a reconstituição de época, em cenários, móveis e vestimentas.

Além disso, como em qualquer obra do diretor, esta reforça o brio dos negros, um deles no papel de um fictício agente que redige as memórias do chefe e muito tem da figura longilínea de Barack Obama.

Eastwood detecta em Hoover ora o expert que de fato foi, ao levar a tecnologia das impressões digitais e dos fichamentos ao departamento de investigações criminais, ora um farsante, aquele tipo hoje tão combatido, capaz de grampear telefones para chantagear um presidente ou de se posicionar diante do fotógrafo para se fazer passar pelo homem que prendeu Bruno Hauptmann, acusado de sequestrar o bebê de Charles Lindbergh.

Mas os problemas deste filme são muitos, também.

Embora não deseje se mostrar ingênuo diante de tão complexa figura, Eastwood evita dar a seu biografado a dimensão histórica que, somente ela, o jogaria ao chão. Hoover foi um homossexual que duramente perseguiu homossexuais, o que o filme não diz.

Racista, embora existisse uma especulação sobre sua ascendência africana, mais combateu os militantes negros que os criminosos da Ku Klux Klan. Ele investiu contra os homens de esquerda e seus opositores por considerá-los “comunistas”, o que fica claro no filme, embora Eastwood não dê aos homens de esquerda uma voz.

A única militante retratada, Emma Goldman, é mais uma caricatura não ouvida, já que no filme, de forma emblemática, ela se recusa a apresentar sua defesa em tribunal.

Neste filme, comunistas são resumidamente arruaceiros que jogaram bombas a esmo após a Primeira Guerra Mundial, em clara afronta à democracia americana. Por ter presenciado e combatido esse horror, Hoover estaria parcialmente justificado por toda a vida a agir como agiu contra os adeptos da ideologia ou contra aqueles supostamente ligados a ela.

O problema principal deste filme, contudo, como fora daquele sempre parodiado A Queda – As últimas horas de Hitler, de Oliver Hirschbiegel, talvez tenha sido mesmo o de dar a um nítido sociopata uma dimensão humanista.

Sua homossexualidade e a repressão sexual praticada pela mãe não poderiam constituir itens a redimi-lo de uma responsabilidade, já que nem mesmo podem explicar o mal psicológico a acometê-lo. Pouco importa o apreço de Hoover pelos bons ternos, gravatas e apostas em corridas de cavalo quando em jogo estava a magnitude de seu papel dentro da Guerra Fria. Os dados da intimidade deveriam reforçar, em lugar de negar, aquilo que ele representou para a história.

Clint Eastwood domina o ofício do cinema e deixa isso claro em muitos momentos desta obra, especialmente naqueles em que um personagem deve demonstrar fortaleza diante de um obstáculo, seja ele uma explosão ou um grupo de mulheres inconvenientes num jantar dançante.

De forma inovadora dentro deste modelo de biografia industrial, é um filme a lidar livremente com o tempo, recusando a linearidade dos fatos a compor a vida do protagonista. Mas, talvez por sua longa duração e pelo emaranhado de personagens, em parte descritos pela narração em off, o ir e vir cronológico distraia frequentemente o espectador, afetando o bom ritmo do filme.

E há a questão DiCaprio a restar como incômodo. Nos últimos anos, o ator tem experimentado boas atuações, algo a justificar seu brilhante início, vencedor do Oscar de ator coadjuvante como o garoto problemático de Gilbert Grape – Aprendiz de um sonhador, dirigido por Lasse Hallström em 1993.

Não é que tenha deixado de se empenhar aqui, mas frequentemente esse esforço parece caminhar na direção errada. Ele é mais feliz quando seu personagem pratica o bom e velho confronto físico, aquele que fez uma parte da boa fama norte-americana nas telas. Por todo o filme, DiCaprio se vê colado à dicção e à fala acelerada exibidas pelo Hoover real em documentários de autopropaganda (aliás, ilegais).

Eis um intérprete preso por não se dar o direito de ser sutil. Como é clássico em casos assim, brilha, em seu lugar, a estrela de Armie Hammer no papel do amante Clyde Tolson, ainda que, por momentos, sufocado pela maquiagem que deveria envelhecê-lo, em lugar de constranger.