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Cultura

Edição 630

O cara do cinema

por Orlando Margarido — publicado 26/01/2011 07h28, última modificação 26/01/2011 11h28
Responsável por sucessos nacionais, como Cidade de Deus, Daniel sabe prender o espectador. Por Orlando Margarido

Responsável por sucessos nacionais, como Cidade de Deus, Daniel sabe prender o espectador

Ainda hoje, Daniel Rezende se vê num aperto quando tem de explicar ao pai o que faz da vida. “Imagine, uma profissão que você não consegue explicar à própria família”, ri. Talvez seja o caso de ampliar essa dificuldade caseira à escala de plateia dos cinemas para dar a real dimensão da pouca afinidade entre os espectadores e o ofício em questão. Rezende, de 35 anos e rosto de garoto, é um montador de filmes, alguém que coloca ordem e sentido no emaranhado de imagens captadas pela câmera do diretor nem sempre preocupada com esses dois fundamentos. Toda produção cinematográfica tem montagem, mas nem toda montagem tem inscrito no cenário nacional uma estética pessoal e congruente ao cinema que se busca impor, seja ele de grande empatia e apelo popular, seja ele mais afeito ao bordado autoral.
Rezende atende a ambos os registros, embora ele mesmo compreenda a chancela de especialista no molde de ação e violência em que se acomodaram os maiores sucessos do qual participou, Cidade de Deus e Tropa de Elite, tanto o primeiro como o segundo, este considerado recorde de audiência até hoje da produção local. É mais pelo reconhecimento, portanto, que o jovem deve se entender com o pai.

Essa vocação numa trajetória agora superior a dez longas-metragens não o faz, acredita ele, mais credenciado ou audaz do que outros colegas. “Tudo depende do filme, do material que chega às minhas mãos. A melhor montagem é a montagem apropriada para aquela produção e o bom profissional percebe isso”, diz Rezende, iniciando uma cuidadosa abordagem de seu meio. Pela mesma razão também questiona ser conhecido por um estilo “pauleira” se entre a estreia, a convite de Fernando Meirelles, em 2002, e a dobradinha com José Padilha há mais “o olhar no ator, no personagem” de títulos como Narradores de Javé, de Eliane Café, Diários de Motocicleta, de Walter Salles, com quem reincidiria no terror americano Água Negra, ou ainda o recente As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodansky. “Entendo a fama porque são aqueles os filmes de ação e violência que me projetaram, mas há uma associação errônea ao achar que onde a montagem é mais percebida, ela é boa.” E qual seria a ideia de um trabalho de qualidade? “Se você está no cinema e em nenhum momento olhou para o relógio ou pensou na conta a pagar, a montagem é boa. Exceção feita, talvez, aos filmes iranianos.”

Na visão do jovem formado em publicidade, área que permitiu a ele aprendizado em comerciais e as oportunidades antes de se iniciar na carreira, não há como elaborar um conceito para seu estilo e tudo deve ser explicado pela prática. Por exemplo, o ex-DJ, hoje pai do menino Henrique, de 6 anos, gosta de ter o compositor envolvido desde o início do trabalho e prefere fazer a montagem sozinho, sem a presença do diretor. “Senão, farei a coisa pela cabeça dele.” Quando muito, formula uma vaga interpretação que engloba as noções do racional e do intuitivo. “Quando me debruço sobre um material novo sempre vou escutar primeiro a intuição e depois o racional, pois a este sempre posso voltar quantas vezes quiser.” É seguindo essa lógica que ele prefere abordar seus feitos, mesmo quando reconhece deslizes, caso do incensado Cidade de Deus, que lhe garantiu uma indicação ao Oscar e o Prêmio Bafta, o maior do cinema inglês. “Acho que comprimi demais o filme e há vários momentos acelerados que são gratuitos e que não faria hoje. Mas são erros que se tornaram acertos e assim aconteceu justamente por não haver uma metodologia.”
Em contrapartida, acredita que sua percepção contribuiu de modo decisivo para a virada que fez toda a diferença no primeiro Tropa de Elite. Uma guinada radical de narrativa foi acertada em conjunto com o diretor e o roteirista Bráulio Mantovani quando se concluiu que não deveria ser o personagem Matias e sim o Capitão Nascimento o protagonista da história. Isso quando as filmagens já estavam encerradas e algumas sessões de teste foram feitas. Coube a Rezende então remontar a fita apenas com o material rodado, sem nenhuma cena adicional. O desafio, como se sabe, ganhou o público e o jovem técnico foi recompensado com a presença na sequência não só como montador, mas também responsável pela segunda unidade de filmagem. “Padilha é generoso”, retribui. “Abre espaço para todos participarem. Ele fazia questão que eu estivesse presente em todas as etapas, inclusive no set, atitude que uma determinada corrente de montadores reprova.”

Os cineastas, aqueles com quem trabalha, são mais significativos na trajetória desse montador do que possíveis influências do próprio cinema e toda a sua história. “Cresci vendo algo de Hollywood e Trapalhões, mas de Glauber Rocha não consegui passar a um segundo filme. Sei que é uma deficiência.” Só bem mais tarde, diz, conheceria trabalhos de Martin Scorsese, por exemplo, a partir da fase Os Bons Companheiros e Cassino e, fora do eixo americano, os do sérvio Emir Kusturica. Lembra que Walter Salles, quando do processo para Diários de Motocicleta, lhe mostrou Easy Rider – Sem Destino. “Sei que Godard ou Truffaut são considerados paradigmas, mas eles não me interessam.”
Autodidata, Rezende prefere atrelar sua formação à curiosidade de estudante na ilha de edição da faculdade e depois na chance de trabalhar com comerciais na produtora O2 de Fernando Meirelles, espécie de mentor, com quem voltaria à parceria em Ensaio sobre a Cegueira e se prepara para colaborar no novo filme do cineasta, 360. “Por ser um diretor-montador, a experiência com ele foi fundamental e, claro, me abriu as portas.”

Algumas delas no exterior. Uma dessas experiências, possibilitada por Meirelles, ainda permanece inédita ao público justamente pela exigência e peculiaridades do cineasta em questão. Rezende chefiou uma das cinco equipes de montadores de A Árvore da Vida, quinto longa-metragem do americano Terrence Malick em quatro décadas de carreira. A restrita obra dá uma noção do perfeccionismo e do modelo autoral de seu cinema, o que determinou que o novo filme, com Brad Pitt e Sean Penn no elenco e previsto para estrear aqui em 1º de julho, levasse mais de dois anos para ser montado. Como os demais profissionais, Rezende só permaneceu numa fase do projeto. “Malick filma muito, mais do que escreve no roteiro, e monta de maneira diferente, é mais transgressor”, avalia. “É um dos filmes mais sensoriais que já fiz, mas não sei o quanto vou reconhecer do meu trabalho no filme.”

Uma de suas posturas é não comentar além do necessário sobre os filmes em montagem ou já finalizados, mas não lançados. “Acho que é uma traição com o diretor.” Atualmente, o montador trabalha no segundo longa de César Charlone (O Banheiro do Papa), um uruguaio radicado no Brasil com carreira também de diretor de fotografia. Chama-se La Redota essa ficção sobre o herói nacional do Uruguai José Artigas e sua resistência na luta contra os dominadores espanhóis. “É um projeto mais intimista em que o diretor desconstrói o mito.” Rezende diz não saber muito da história e prefere, em geral, que assim seja, sem pesquisas anteriores, para levar um olhar fresco e neutro para o material. “Diferente de alguns colegas, trabalho em apenas um filme por vez. Todo projeto tem seu tempo de reflexão e, além da intuição, preciso daquele olhar do dia seguinte, de finalizar uma etapa e depois retomar para ver como ficou.”

Embora titubeie em definições mais precisas de seu ofício, Rezende criou alguns estratagemas que lhe servem de linha norteadora. Gosta de ler o roteiro antes de aceitar um encargo, mas só até o momento de entrar na ilha da edição. “Depois não leio mais. Se o diretor fizer mudanças, saberei só com o filme na minha frente.” Durante o processo no set de Tropa de Elite 2, diz ter criado uma teoria. “Não é para valorizar o nosso trabalho... Material filmado, mas não montado, não existe.” Essa participação em outras etapas, como aconteceu com Padilha, permitiu, segundo ele, uma alteração no roteiro de As Melhores Coisas do Mundo. “Disse para Laís e o Luiz (Bolognesi, roteirista) que havia vários finais ali e eles mexeram no texto.”

O diálogo com diretores e seus parceiros para ele é fundamental, ainda que contradiga uma das regras do americano Walter Murch, o montador de Tetro, de Francis Ford Coppola, considerado um guru por Rezende. “Ele é da corrente contra o profissional permanecer no set, por exemplo.” Mas foi devido a uma conversa que o jovem compreendeu a expectativa de Malick quando ouviu dele: “Eu quero o que você não faria, o que não seria parte de um filme”.

Foi munido desses conselhos e aprendizados que ele já chegou à direção, primeiro em 2008 com o curta-metragem Blackout, uma história de humor um tanto negro que simula um plano-sequência com cortes imperceptíveis. Os amigos Wagner Moura e César Charlone deram sua colaboração no elenco.  Agora, Rezende prepara-se para a estreia no longa-metragem, uma produção de Padilha sobre um personagem real que ganhou as manchetes dos jornais “por suas maluquices”. Mais ele não adianta. “Terá uma pegada humana, pop. Acho que tem de ter de tudo no cinema, adoro essa pluralidade.” Talvez como diretor, o montador tenha mais facilidade de explicar ao pai o que tem feito da vida.