Você está aqui: Página Inicial / Cultura / O caminho do corpo na Bienal de SP

Cultura

Artes Plásticas

O caminho do corpo na Bienal de SP

por Overmundo — publicado 02/10/2010 11h53, última modificação 02/10/2010 11h53
Um dos momentos muito felizes da curadoria deste ano está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio

Por Daniela Name

Um dos momentos muito felizes da curadoria nesta Bienal de São Paulo está na passagem entre os dois “lados” do terceiro andar do prédio. No projeto arquitetônico labiríntico e fragmentado proposto por Marta Bogéa, outro ponto alto desta edição, há um falso fim de espaço expositivo na altura do terreiro A pele do invisível, criado pelo esloveno Tobias Putrih, com a instalação A origem do terceiro mundo, de Henrique Oliveira, funcionando como uma das passagens possíveis para o espaço onde estão as obras de Leonilson e Efrain Almeida. Migramos assim do corpo da cidade e da arte para o corpo propriamente dito, com os tecidos bordados por Leonilson e obra de Oliveira funcionando como encruzilhadas entre estas duas vertentes.

Batizado de Alvorada, o terreiro de Tobias Putrih faz referência à impressionante fachada criada por Oscar Niemeyer para o Palácio da Alvorada, em Brasília, com uma única coluna, estelar, repetida em série. Este é um espaço dedicado à exibição de vídeos e vai funcionar ininterruptamente na Bienal. O interessante é que o artista esloveno corrompe a visão de Niemeyer com um corpo menos harmônico e menos otimista que nossa arquitetura moderna. Por trás do arremedo de palácio há um revestimento de papelão e fita adesiva, revelando cicatrizes e remendos da cidade. O nome do prédio, Alvorada, também é digno de nota: um novo amanhecer é também uma esperança e as marcas de fita crepe por trás da beleza de Niemeyer mostram que um dia não começa sem a herança da noite passada.

Metáfora para a urbe, tão presente nesta Bienal, mas também alusão a outros corpos – a arte, a pele – o terreiro tem uma vizinhança que só lhe acrescenta sentidos. De dentro da estrutura de Putrih se enxerga Faça você mesmo: território liberdade e O país inventado (Dias-de-Deus-dará), dois clássicos de Antonio Dias.

A bandeira vermelha do segundo trabalho é feita de um retângulo com o canto superior direito ausente, recortado – marca recorrente na obra do artista – , sinal de uma falta que aponta para a impossibilidade de uma totalidade, de um absoluto, levando territórios e definições para o eixo das mutações constantes. Fincar uma bandeira incompleta relê de muitas maneiras o gesto de demarcação de fronteiras, de apropriação de terreno, de conquista de Oeste. Cigano na vida e na obra, Dias também cria um mapa virtual, mutável, em Território liberdade – há um espaço simbólico a ser explorado.

Se por um lado saímos do terreiro enxergando Antonio Dias, por outro se vê Alvorada de dentro da sala onde está O Sol me ensinou que a história não é tudo, de Daniel Senise. Desenvolvimento e radicalização de Eva, trabalho apresentado no fim do ano passado no Centro Cultural São Paulo, a instalação reveste as paredes do espaço com a “outra pintura” que caracteriza o trabalho do artista carioca. Placas feitas a partir do processamento de restos de convites, folders e catálogos de exposições constroem e pintam o espaço de arte com os vestígios e os resíduos da própria arte.

Outra aproximação curiosa é a de Skira, trabalho de Senise que fica do lado de fora da sala do artista, com a janela do prédio da Fundação Bienal, outra obra de Niemeyer. Feito de páginas de livros de arte marcadas pela falta de uma imagem, a pintura sem pincel e sem tinta constrói com colagem de papéis de tons diferentes um grande escaninho ou uma típica fachada modernista. Se por uma lado se comunica com Alvorada pela alusão direta à arquitetura, por outro o trabalho de Senise cria um diálogo com as faltas do território de Antonio Dias.

Como Putrih, Senise está falando de memória e de deriva. Em última instância, ambos discutem também a possibilidade de sobrevivência da arte em um mundo repleto de imagens e transbordando excessos. Esta ideia é ampliada pelo fato de A pele do invisível ser o terreiro da reprodução de outros vídeos, isto é, ser o palco contínuo para o movimento e a efemeridade das imagens. Há uma costura sutil e impressionante feita pelos curadores Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos na construção deste outro mapa que arranja as proximidades entre trabalhos em uma Bienal.

A passagem criada pelo trabalho de Henrique Oliveira é um túnel real e simbólico para os pensamentos da curadoria. Dá corpo, literalmente, a este segmento da exposição. A forma da saída da instalação do artista e o título do trabalho nos levam diretamente para a pintura A origem do mundo, de Gustave Courbet. É interessante pensar numa reinvenção desta vulva clássica, que na obra de agora é revestida com tapumes precários usados em construção. Não estamos falando do mundo, aquele criado biblicamente por Adão e Eva, mas ironicamente do Terceiro Mundo. O buraco é mais embaixo, com perdão do trocadilho.

De qualquer maneira, há no trabalho do artista paulista uma fusão do corpo orgânico, com seus fluidos, sua pele e sua imperfeição, com as veias e artérias urbanas. E ainda com um outro corpo, quase invisível, que permeia e dá feições aos extratos sociais. É como se Oliveira tornasse os indicadores demográficos mais tangíveis, dando-lhes carne e vísceras. Parindo-os, enfim.

A fenda de A origem do Terceiro Mundo deságua nos bordados e na pintura de Leonilson. Cor, corpo e diário íntimo reunidos em um só suporte, a obra do artista se relaciona diretamente com o “outro lado” do túnel, não só por questões estéticas, mas também por outras, que tampouco são irrelevantes: as do afeto. Leonilson é contemporâneo de Senise e ambos são expoentes de uma geração que, mais do que retomar a pintura, deu a ela novos alicerces. Os dois foram grandes amigos.

Para o meu vizinho de sonhos (1991) , um dos trabalhos de Leonilson incluídos na exposição, é quase uma ponte para a bandeira faltosa de Antonio Dias. Morando fora do Brasil desde os anos 1960, Dias recebeu Leonilson em Milão, quando a carreira do pintor começava a decolar. Também é um grande colecionador do artista, que morreu vítima da Aids em 1993.

As marcas do corpo, presentes na vida e na obra de Leonilson, também estão nos autorretratos escultóricos de Efrain Almeida. Talhadas em madeira, estas peças têm como título o nome do artista e mostram seu corpo tatuado por motivos da cultura popular brasileira. O que se apresenta aqui, mais uma vez, é um território nublado e intangível entre as figuras do artista e do homem. Do palácio mendigo de Tobias Putrih às miniaturas que Efrain cria de si mesmo, o que se vê sempre é uma membrana translúcida e frágil. Ela deveria delimitar arte e vida, mas o que estas obras afirmam é que, quanto mais se tenta separar, mais estas fronteiras se amalgamam.

No lugar do torniquete, o que há é a sangria, o fluxo, a enchente.