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O brilho musical, desde Beethoven

por Luis Krausz — publicado 31/03/2011 09h23, última modificação 31/03/2011 09h23
O historiador Tim Blanning recorre à linha do tempo para explicar a idolatria a ícones da arte.

A posição singular que ocupam os músicos nas sociedades de nosso tempo é o ponto de partida de O Triunfo da Música (Companhia das Letras, 429 págs., R$ 56), livro em que o estudioso de história cultural da Universidade de Cambridge Tim Blanning tenta explicar por que os grandes nomes do rock, rap, pop e outros gêneros são hoje capazes de levar as multidões ao frenesi e de arrecadar fortunas.

Blanning recua no tempo para buscar, no fim do século XVIII, as raízes desse fenômeno contemporâneo, pois é a partir desse momento histórico que os músicos começam a se transformar de funcionários pouco graduados das cortes de nobres e de reis, normalmente obrigados a comer na cozinha dos palácios com os demais serviçais, em celebridades internacionais autônomas e independentes. Assim, o autor traça um panorama da transformação da posição social dos músicos a partir da queda do Antigo Regime e escolhe Handel e Haydn como precursores de um movimento de libertação desses artistas, cuja culminação seria a idolatria devotada a artistas como Paganini e Liszt, algumas décadas mais tarde, idolatria essa que seria análoga à fascinação provocada por nomes como John Coltrane ou Mick Jagger em nosso tempo.

Handel e Haydn viveram e compuseram num momento em que começava, na Europa, a demolição de tudo aquilo que permanecera ossificado e fossilizado pelos moldes inexoráveis das sociedades despóticas dos séculos XVII e XVIII. Poucos anos depois deles, seria Beethoven, inspirado pelos ventos libertários que sopravam da França pós-revolucionária, quem mudaria para sempre o status social da música e dos músicos. Sua Sinfonia Eroica, composta em 1803-1804, é um marco em sua trajetória como compositor tanto quanto na própria história da música europeia. Isso porque essa obra, que marca o início do romantismo na música, é também expressão de um novo tipo de relação entre indivíduo e sociedade, entre cânone musical e liberdade criativa.

Enquanto Beethoven trabalhava nessa sinfonia revolucionária, a Europa vivia sob o impacto das Guerras Napoleônicas, que significaram o fim do absolutismo e o nascimento de uma nova era, construí-da sobre conceitos como os direitos humanos, a liberdade de pensamento e, sobretudo, uma independência crescente com relação à aristocracia e à Igreja. Afetado pela surdez crescente, o compositor vivia um momento de revolta em sua vida íntima e esse sentimento manifesta-se, na música que ele compõe a partir de então, em sua ruptura com todas as convenções associadas ao estilo do chamado classicismo vienense, patrocinado pelo regime político declinante. Beethoven mergulha em uma busca cada vez mais apaixonada pelo novo, pelo não convencional, pelo original e mesmo pelo idiossincrático, que tem sido a marca da música de invenção dos últimos dois séculos.

O poder singular da música relacionou-se, em todos os tempos, com os poderes políticos estabelecidos e, uma vez submetido à autoridade e às hierarquias, funcionou como uma representação e extensão do nome de nobres e monarcas – o que ainda é verdade quando se pensa em Handel e Haydn. Porém, na medida em que os músicos conquistavam posições autônomas e independentes em sociedades cada vez mais liberais e individualistas, a própria música passaria a se tornar expressão daquilo que o século XIX europeu prezava mais do que nada: a inventividade e a genialidade.

Por meio da Sinfonia Eroica, Beethoven passou a representar na música não mais a glória de tradições oligárquicas e eclesiásticas, mas um novo espírito, uma nova imagem de sociedade, que fez dos músicos os heróis de um tempo de libertação da opressão. Não por acaso o historiador da cultura austríaco Egon Friedell considera que “Beethoven, Goethe e Napoleão Bonaparte são as três figuras de proa do momento histórico em que viveram”. Trata-se de um momento histórico de transição entre o absolutismo e a democracia, no âmbito da política, e entre a crença cega nas doutrinas eclesiásticas e a emancipação do homem, sobretudo de seus sentimentos mais sublimes, na esfera religiosa. Acima de tudo, trata-se de um momento de transição entre o constrangimento das convenções e das hierarquias e a era de liberdade, na esfera social.

É no contexto do individualismo exacerbado do movimento estético Sturm und Drang e do romantismo que emerge a figura do artista, cuja obra não reflete mais as ideias ou as formas consagradas por um Império, mas a originalidade, esse fetiche do século XIX ainda tão zelosamente cultuado pelos astros da música pop. Assim, Blanning remete ao caráter extravagante de músicos como Paganini e Liszt, que em seu tempo levavam as multidões à loucura, as mulheres à histeria e arrecadavam fortunas que lhes permitiam olhar para reis e príncipes de igual para igual, a origem das idiossincrasias, do sex-appeal, da aura de mistério, do caráter imprevisível e de tudo o mais em torno das celebridades musicais hoje hospedadas em suítes presidenciais e a bordo de Rolls-Royces.

O caráter da cultura europeia do século XIX é, portanto, visto como o pai dos exageros midiáticos do século XXI que cercam os astros populares e também, ainda que em escala bem mais reduzida, os grandes regentes e intérpretes da música erudita. A bifurcação entre música culta e a música de massas é também vista por Blanning como um fenômeno característico do século XIX, cujos compositores, em especial os do romantismo alemão, menosprezavam o novo público de massas composto de burgueses rudimentares, ignorantes e materialistas. Assim, a música de caráter elevado, que não se comunica com as emoções simples, mas busca o sublime ou o novo, separa-se, cada vez mais, da música de caráter comercial e o resultado dessa cisão também é claramente visível em nossos dias, quando se vê, de um lado, compositores de vanguarda cada vez mais sofisticados em suas abstrações e com um público sempre mais escasso e, de outro, um público cada vez maior para uma música de conteúdo rarefeito, quando não já totalmente inexistente.

Uma ressalva a essa bifurcação é que, ao tratar da história do músico enquanto astro, o autor vê a música popular e a música culta como um único fenômeno, sem descontinuidades, realizando, com isso, uma simplificação excessiva. Seja como for, as análises apresentadas levam o leitor ao encontro do poder misterioso da música, cuja realidade convive, de uma maneira ou de outra, com os outros poderes em jogo na sociedade. E que, como todas as outras formas de arte, é determinado pelo contexto em que surge, mas também é capaz de transformar esse contexto.