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Resenha/Emiliano José

O Brasil

por Emiliano José — publicado 29/05/2013 17h18
O livro de Mino Carta, com sua carga crítica acentuada, ajuda a compreender nossa história recente, para além do jornalismo brasileiro. Por Emiliano José
Mino Carta

O diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta, durante a noite de autógrafos do livro em SP

Não há possibilidade de sobrevivência humana sem que haja homens para contar o que acontece, e que acontece porque é.

A frase é de Hannah Arendt, recuperada com ênfase por Mino Carta em O Brasil, seu mais recente livro, e constitui uma espécie de núcleo do que ele entende como jornalista. Foi com ela, Hannah, que diz ter aprendido o conceito de verdade factual. Omitida ou encoberta fatalmente pela mentira, a verdade factual soçobra como um barco furado e nunca mais será recuperada – assegura Mino.

Começo lembrando isso para falar de O Brasil, cujo protagonista, não sei se exagero, é o jornalismo brasileiro, que emerge dele sem brilho e sempre pronto a servir aos donos do poder – não se compreenda necessariamente como os que estejam no governo porque, a depender de quem esteja no comando da Nação, pode se antepor a ele com toda crueldade, como ocorre desde que começaram as administrações de Lula e agora de Dilma.

Digo jornalismo como protagonista como uma espécie de, chamemos assim, licença poética, se existe isso num romance. Na verdade, Mino, no território ficcional do livro, constrói um personagem, Abukir, pobre personagem, medíocre, que passo a passo sobe na carreira jornalística, não sem, quando jovem, ter tímidas oscilações à esquerda, não mais que oscilações, e que consegue, à custa de muita bajulação e servilismo, chegar à chefia de redação de O Globo em São Paulo depois de ter passado pelo Estadão, e ter demonstrado o quanto era fiel aos patrões. O que, no caso do jornalismo brasileiro, ao longo da ditadura e depois, tornou-se quase um padrão, e o livro acertadamente não poupa quase ninguém quanto a isso.

Abukir angustia o leitor, ao menos a mim. Não sei se Mino leu Nelson Rodrigues, o mais provável que sim. O protagonista casa-se com Adalgisa, moça sem maiores atributos físicos ou intelectuais, vai lentamente subindo na carreira, sentindo o casamento desgastar-se, querendo separar-se e sem ter coragem para tanto, e depois a surpreende na cama com o filho do zelador, e sofre muito com isso, mais com a chamada dor de corno do que quaisquer outras. E depois vai casar-se com Rebeca, colega de redação, dada aos prazeres sexuais e ambições de variada natureza, e Abukir, pobre coitado, não terá destino diferente, embora aqui a dor de corno não surja porque os amantes não serão descobertos.

E assim a vida segue para Abukir que, do seu ângulo de visão, é um premiado. E um premiado porque, glória das glórias, viria a ser príncipe dos colunistas e comentarista da televisão, considerada por ele uma das mais importantes do mundo, a Globo. Ali, ele sabe, depois daquela trajetória tão fiel – ou tão servil, depende do olhar – todos gostam dele, todos mesmo, inclusive a família Marinho, e por essa simbiose, ele se sentia como se em casa estivesse.

Não é nada mau ser reconhecido nas calçadas, nos restaurantes chiques, e ser paparicado, especialmente por mulheres. Que vida maravilhosa, premiada – Abukir foi ao paraíso. Publicou livro e naquele momento pensavam nele para concorrer a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Fica difícil saber em quem Mino se inspirou, se é que há alguém com tal perfil, alguém que, jornalista, tenha aspirado a ocupar cadeira na Academia Brasileira de Letras. Recentemente, tive notícias que o notável escritor baiano Antônio Torres concorreu à Academia, e foi derrotado. Por um jornalista da Globo. Claro, quaisquer semelhanças com personagens vivos ou mortos será mera coincidência.

Há muitos outros personagens construídos por Mino no território ficcional, e alguns deles bem mais dignos do que Abukir, com perfis de cidadãos, alguns com inspiração revolucionária que chega a levá-los à morte sob a ditadura, outros com a dignidade profissional que não os leva à submissão quase caricata do protagonista. Personagem caricato, mas premiado, como ele se reconhece, e como já dito. Paulo, que não ocupa o centro do palco, emergirá de O Brasil como aquele que tem a política sempre na cabeça especialmente porque o inquieta profundamente a desigualdade monstruosa que assola o Brasil – um cidadão, com toda a densidade da palavra.

Só que o leitor é surpreendido por Mino. O Brasil é mais do que um romance e há leitores, este escriba incluso, que certamente concentrarão mais sua atenção nos entreatos, quando a palavra é do personagem Mino Carta, captando os significados da história do Brasil recente, de Getúlio Vargas ao fim do regime autoritário, com toda sua carga dramática porque revisitando a ditadura e seus horrores, as redações e suas armadilhas e carreirismos e pobreza intelectual, o jornalismo brasileiro e sua impressionante cumplicidade com os donos do poder e por extensão com a própria ditadura. E nisso tudo Mino é um protagonista ativo, influente, explosivo, dinâmico, cáustico porque irônico, tropeçando e seguindo adiante, nunca se dobrando e por isso tendo que afrontar a classe dominante e seus representantes por quem o autor revela um caústico, desdenhoso desprezo.

Não é preciso insistir, embora eu insista, que Mino é um crítico rigoroso do modo de produção jornalístico do Brasil. Mino é jornalista desde sempre, desde quase menino, desde a origem familiar, pai jornalista de nomeada. Percorre uma longa trajetória profissional. Passa por vários e mais importantes veículos impressos brasileiros, para além de rápidas incursões pela televisão, sempre em postos dirigentes. O Brasil é o único país que jornalista chama o patrão de colega – esta, uma de suas frases prediletas, a diagnosticar o servilismo, a submissão de tantos dos nossos coleguinhas.

Os barões de nossa mídia hegemônica aparecem no livro, e de modo especial, nos entreatos, não como paladinos da liberdade, mas com suas faces reais, com seu ódio e desprezo pelo povo, com seus espartilhos a segurar carnes flácidas, com sua aversão à democracia, sua repulsa a quaisquer experiências políticas que se aproximem de políticas reformistas, progressistas, a lembrar a experiência de Vargas ou a atual, com Lula e Dilma à frente. Mino disseca como a imprensa brasileira não só apoiou o golpe como, no decorrer da ditadura, foi absolutamente conivente com ela, inclusive negociando sua cabeça, como ocorreu no caso de Veja no início de 1976, para lembrar um dos momentos de servilismo mais explícito dos barões da mídia.

Este breve comentário, que não se pretende resenha, talvez devesse buscar algumas idéias-chaves que perpassam o livro, correndo o risco naturalmente de errar ou de deixar muitas de lado.

O Brasil é um país de monstruosa desigualdade social, e Mino, nas páginas de CartaCapital, que hoje dirige, tem dito que só mais recentemente houve o esforço dos governos Lula e Dilma de reduzir essa desigualdade.

Essa perversa característica brasileira é produto dos senhores da Casa-Grande. Mino não se cansa de dizer, e não apenas em O Brasil, que as marcas de mais de 350 anos de escravidão estão solidamente enraizadas em nosso País.

A elite brasileira – poderíamos chamá-la classe dominante –, na  visão de Mino, é uma das mais perversas e cruéis do mundo: feroz e hipócrita, maligna, implacável no desprezo pela ralé, com uma irredutível sanha de mando, tanto melhor se obtido no conchavo entre os pares, ardilosa, pronta a emboscadas, e pronta a ações punitivas entregues a jagunços, e estes podem usar indumentárias variadas. E esta elite desde sempre e até hoje não teve razões para temer nada, e sempre se insurge contra governos que queiram refrear, só isso, refrear alguns de seus privilégios.

Não invento nada, uso quase somente palavras dele. Essa elite ainda está na varanda, no conforto da Casa-Grande, serviçais em torno, e é guardiã atenta e feroz de privilégios, como já dito, e para assegurar a continuidade deles valeu-se de quaisquer métodos, inclusive o de chamar os militares em seu socorro, como ocorreu em 1964.

A imprensa brasileira é parte indissolúvel das classes dominantes, e por isso serve a tais classes com denodo e muitas vezes com açodamento, sem que seja necessário sequer o pedido de socorro por parte da elite.

Isso está presente em O Brasil, é raciocínio corrente nas páginas de CartaCapital, está literalmente formulado no prefácio de Mino ao livro de Cláudio Abramo, A regra do jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro.

Creio que O Brasil é marcado, penso, como tudo aquilo que Mino escreve, pela formulação gramsciana, tomada, me parece, de Romain Rolland: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade.

Grasmci com tal formulação fortalecia a razão, obrigada a analisar com atenção a realidade circundante, sem, no entanto, deixar de lado o otimismo da vontade, que podia ser entendido, em Gramsci, como a intervenção fundamental da política.

Mino, por evidência, não despreza o otimismo da vontade, mas, já que jornalista, dá muito mais ênfase ao pessimismo da Inteligência, ainda mais quando se sabe ser ele um ser cáustico, irônico, corrosivo, como já se disse.

Não há, em Mino, nada de panglossiano. Talvez, junto com Gramsci, o espírito de Mino seja animado por Norberto Bobbio, que dizia que o prazer de ser otimista era reservado aos fanáticos, àqueles que desejam a catástrofe, e aos insensatos, àqueles que acreditam que no fim tudo se arranja.

O pessimismo, assim, pode ser compreendido com uma atitude não-conformista, ativa, que acredita, ainda, no milagre da política, da ação humana, à Hannah Arendt, autora obviamente querida por Mino. O Brasil é um livro que, com sua carga crítica acentuada, ajuda e muito a compreender nossa história recente, para além da compreensão específica do jornalismo brasileiro.

Gosto quando Mino afirma a inexistência do tempo e por isso é mergulhado em reencontros que a suspensão do tempo possibilita, que se dão no epílogo do livro. Particularmente com Raymundo Faoro, um de seus inspiradores, sobretudo nas críticas ferinas aos donos do poder. O diálogo faz o livro crescer ao final. Mino pergunta ao gaúcho de Vacaria, o grande ex-presidente da OAB (e quanta saudade de um presidente assim na OAB...), autor de Os donos do poder:

-E se as bombas do Riocentro tivessem explodido no lugar previsto pelos estrategistas do I Exército e metade da assistência do show do primeiro de maio tivesse morrido pisoteada pela outra metade no monstruoso atropelo de pânico?

-Aí a ditadura verde-amarela ganharia muitos pontos na classificação das mais ferozes.

Mino continua a perguntar:

-Você repara que a mídia, a mesma que invocou o golpe de 1964, e chamou o que se seguiu de revolução, de uns anos para cá condescendeu em mudar a palavra para ditadura, sempre acompanhava pelo qualificativo militar?

-Reparo, é aquele esforço de mascarar a verdade, se quiserem adjetivar digam ditadura dos donos do poder, da classe dominante, do estamento, deu-se apenas que os milicos se prestassem ao jogo sujo, foi assim...

Gastão Vidigal surge nos reencontros, está entre os que jamais correm perigos. Robespierre o remeteria à guilhotina, mas o terror no Brasil, diz Mino, insisto eu, não será o da revolução, só pode ser do Estado, e foi assim com a ditadura, financiada pelos senhorezinhos impafiosos, como Vidigal, que financiaram a Operação Bandeirantes antes, o DOI-CODI depois, e armaram os torturadores com seus apetrechos entregues pela Idade Média à modernidade para serem acionados, por exemplo, por força elétrica. Não se diria que Mino seja cruel com essa elite que financiou a tortura – é verdadeiro, apenas isso ele o é em O Brasil.

Reecontra-se também com Pietro Maria Bardi, outro de seus inspiradores, este na pintura, e em Mino coabitam o pintor e o jornalista desde a juventude. Ambos pessimistas na inteligência e otimistas na ação e dados a grandes indignações, as de Mino mais freqüentes e mais explosivas. O professor o adverte, mais pessimista que Mino, “é preciso não se esbaldar em esperanças, e você cometeu amiúde este pecado”.

Na suspensão do tempo, conversa também, com dom Paulo Evaristo. O cardeal havia levado a Golbery do Couto e Silva, com quem Mino manteve relações amenas, isentas de ilusões, uma lista de jovens sumidos na tortura, e assistiu ao general chorar, talvez lágrimas de impotência – “Geisel era uma fera”, confidencia o cardeal.

Mino vai buscar numa frase de Beluzzo o elogio a Lula, que ele, a seu modo, sempre acompanhou, e foi até precursor na revelação ampliada dele ao Brasil: A preocupação de Lula com o destino do povo é sincera, vem das entranhas. Quando falo revelação ampliada é a capa e matéria e entrevista de Lula a IstoÉ, de 9 de fevereiro de 1978, e Mino a dirigia naquele momento, e foi ele próprio a produzir o material jornalístico, entrevista e tudo.

Mino, na sua longa jornada, pode orgulhar-se de ter sido sempre fiel aos três princípios a que o jornalismo deva obedecer: fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico e fiscalização destemida do poder onde quer que ele se manifeste. O romance, com seus entreatos, revelam por inteiro esse jornalista.

Se me incluísse nos seus diálogos quando suspende o tempo, essa invenção do homem como ele diz, só diria que o povo brasileiro, com suas características singulares, sua formação cultural própria, sua história de 350 anos de escravidão, a história de sua classe trabalhadora, tem buscado os caminhos para sua autonomia, para afirmar sua identidade, construir a democracia em meio a tantos percalços, tropeços, obstáculos, e contudo e apesar de tudo, podemos comemorar, do fim da ditadura, 1985, até os dias de hoje, o maior período democrático de nossa história e temos já 10 anos de transformações significativas na vida de nossa gente mais pobre.

Sei, sei mesmo, porque o leio muito, que Mino tem apoiado o governo Lula e o governo Dilma. A revista CartaCapital nunca se escondeu quanto a isso. Como também nunca deixou de criticar o que considera equivocado. E sei que Mino sabe que essa mudança, essa chegada do PT ao governo dependeu do amadurecimento do nosso povo, não teria acontecido sem essa nova consciência. O projeto político em curso desde 2003 só tem sido possível por uma decisão democrática da população, particularmente das classes mais pobres. Um romance, no entanto, com seus entreatos, não pode abarcar tudo, menos ainda a saga do nosso povo, suas lutas, suas derrotas e  vitórias, suas esperanças e decepções que, quem sabe, possam ser refletidas num novo romance que Mino produza. O Brasil nos ajuda a compreender o Brasil.