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Brasiliana

O bloco na rua

por Ana Ferraz publicado 02/03/2014 07h31, última modificação 02/03/2014 07h35
Cresce em São Paulo a adesão à folia libertária que exige pouco ou nenhum investimento
Preliminares 2013 / Flick / Creative Commons

Não faz muito tempo, Carnaval de rua de paulistano era mote de chacota de carioca, a dizer que por aqui bloco era de concreto e cordão só se fosse de isolamento. Era quase verdade. Para dar o troco, retroalimentar a rivalidade ou apenas se divertir, a folia descompromissada, que exige pouco mais que alegria e disposição, começou a ganhar fôlego. Do ano passado para este, o número de blocos oficialmente cadastrados pela Prefeitura de São Paulo saltou de 60 para 172. Temáticos, irreverentes como pede o folguedo ou talhados para servir de vitrine a finórios bem-nascidos, os blocos invadiram as ruas no fim de semana que precedeu o Carnaval e prometem arrastar multidões na data oficial.

Carnavalesco de quatro costados, batuqueiro reverenciado, Osvaldinho da Cuíca analisa o fenômeno com o olhar de quem participa do cenário há quase 60 anos e ostenta com orgulho o título de Cidadão Samba Paulistano. “Os blocos vão engolir as escolas de samba, que estão com dificuldade até de vender fantasias, pois, além de caras, engessam o sambista. Enfiam o sujeito num escafandro e ele tem de se arrastar pela avenida e seguir o esquema. É um sacrifício e uma exploração.”

Folião ardoroso, o músico louva o bloco nos moldes tradicionais, em que não se gasta nada, basta uma calça branca e algum gingado diante da batucada descontraída, com andamento que não obriga ninguém a apressar o passo para cumprir o horário do regulamento.

Na semana passada, Osvaldinho, como de costume, apadrinhou blocos que participaram da Pholia na Luz, no Centro. “É um fenômeno espontâneo, sem restrições. A bateria é menor, seu trabalho aparece, você vê a alegria genuína do povo. O bloco Império do Morro saiu com 30 cuiqueiros, coisa que não existe em nenhu- ma escola de samba.” Batuqueiros como ele, diz, estão migrando para a liberdade dos blocos. Animado, Osvaldinho cogita ressuscitar o cordão Ziriguidum, que fundou em 2000. “Acabou porque cresceu, eu não tinha dinheiro para bancar e não quis me filiar a ninguém.”

Situado entre a contemporaneidade e a tradição, o bloco Nóis Trupica Mais Não Cai sai durante o dia, em clima familiar, e cessa a festa quando a noite chega. Fundado em 2010, a partir de outra agremiação, Os Trutas, de 2005, privilegia as marchinhas. No desfile pré-carnavalesco pelas ruas de Vila Madalena, atraiu ani- mada multidão. A algazarra foi bem até que um motorista alcoolizado resolveu ter muita pressa e não esperar os foliões retardatários liberarem as ruas. Acelerou a Pajero e atingiu dez pessoas. A Companhia de Engenharia de Tráfego avalia que a região tenha recebido cerca de 10 mil pessoas em momentos diferentes e anunciou reforço na segurança nos próximos dias.

“Uma hora após a passagem do bloco, o motorista atropelou as pessoas. Ocupamos o espaço de forma consequente e ordenada, em cinco anos de atividade não temos registro de violência”, diz Gustavo Melo, um dos idealizadores do Trupica.

O bloco, assim como outras 39 agremiações, é signatário do Manifesto Carnavalista, surgido em 2011 para reivindicar apoio do poder público para ga- rantir segurança e organização do trânsito. A situação melhorou, faixas foram colocadas no percurso e a PM acompanhou a festa sem interferir. “Mas tivemos dificuldades de logística. Garantimos a limpeza das ruas e firmamos patrocínios para banheiros químicos.”

A falta de hábito de ver as ruas cheias de foliões levou muitos paulistanos a registrar a algaravia por meio de fotos publicadas nas redes sociais. Não é sempre que a Vila Buarque é invadida por comunistas de camiseta vermelha a brandir foices e mar- telos (de plástico). É o Bloco Soviético, surgido há um ano durante tertúlias de botequeiros contumazes. No repertório, A Internacional em ritmo de samba e paródias de marchinhas. “O bloco é uma ironia, não temos pretensão política nem partidária”, esclarece Julianna Granjeia.

Enquanto os comunas avançaram pelo Centro, brincantes na Avenida Sumaré cantavam You say you want a revolu- tion. Pode soar estranho, mas o bloco do Sargento Pimenta, importado do Rio de Janeiro, mistura Carnaval com Beatles. No Centro, abrigo de baladas descoladas, o Acadêmicos do Baixo Augusta cantou a paz e o amor e trouxe Alessandra Negrini como rainha de bateria.

Nos Jardins, a banda Gueri-Gueri arrebanhou socialites, artistas, modeletes e aspirantes, boa parte com a camiseta exclusiva vendida no Shopping JK Iguatemi. De shortinho de paetês, a madrinha da bateria, Adriane Galisteu, distribuiu sorrisos e fez pose com convidados da nobreza paulistana, como o conde Chiquinho Scarpa. Radiante, Roberto Suplicy explicou a um site que a iniciativa de trazer o bloco para as ruas após dez anos de inatividade foi da herdeira, Fernanda, sobrinha do senador Eduardo Suplicy. Com a candura dos ditosos, o patriarca relembrou como a agremiação nasceu, em 1986, em seu bar, o Supremo. “Pusemos uísque e champanhe numa Saveiro e saímos tocando pela Oscar Freire.”

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