Cultura

Calçada da Memória

O artista da desordem

por José Geraldo Couto — publicado 25/03/2011 10h33, última modificação 25/03/2011 11h12
O parisiense Michel Piccoli sentiu-se a vontade para transitar da ternura ao cinismo, da fragilidade à truculência em filmes como Comilança e o Discreto Charme da Burguesia

Aos 85 anos, o parisiense Michel Piccoli é uma espécie de símbolo vivo do cinema francês. Não por acaso encarnou o centenário Monsieur Cinéma no filme As Cento e Uma Noites, de Agnés Varda, e foi o condutor do documentário Duas Vezes Cinquenta Anos
do Cinema Francês, de Godard.Filho de um italiano e uma francesa, ambos músicos, Piccoli estudou interpretação e, na juventude, atuou no teatro, na tevê e no cinema. Nos anos 50 apareceu em medíocres filmes de gênero, com raras exceções, como French Can-can, de Renoir, e La Mort en ce Jardin, de Buñuel.Foi nas décadas seguintes que floresceu seu talento singular, estranha combinação de contenção e exuberância, presença física e introspecção. Trabalhou com Godard, Resnais, Melville, Demy, Sautet, Costa-Gavras, Malle, Tavernier, Rivette, Bellocchio e até Hitchcock, em Topázio (1969), que Piccoli, ativista de esquerda, considerava “completamente reacionário”. Fundou sua própria produtora para bancar filmes anti-establishment, como Themroc (Claude Faraldo) e L’État Sauvage (Francis Girod).
Mas foi com Buñuel e Marco Ferreri que se sentiu mais à vontade
para transitar da ternura ao cinismo, da fragilidade à truculência, em filmes como A Bela da Tarde e O Discreto Charme da Burguesia, do primeiro, e Dillinger Está Morto e A Comilança, do segundo.“Gosto de trabalhar na desordem e com a desordem de meu parceiro de cena,
e também com a desordem que pode existir no imaginário do diretor e do escritor, para ter esse caleidoscópio em mim e tentar fazer dele algo imediatamente compreensível”, define Piccoli. E não é que ele consegue?