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O “Wikileaks” do professor Moniz Bandeira: de Marti a Fidel

por Rodrigo Vianna — publicado 13/12/2010 10h53, última modificação 13/12/2010 11h50
O livro " De Marti a Fidel" narra o percurso da lutas nacionalistas na América Latina e mostra como a Revolução Cubana foi o desdobramento dessa luta de dois séculos contra o Imperialismo. Por Rodrigo Vianna

Não consigo desgrudar – há duas ou três semanas – do belíssimo livro de Moniz Bandeira sobre a Revolução Cubana: “De Marti a Fidel”. Foi presente de um grande amigo que – socialista na juventude – hoje assumiu posições bem mais moderadas.
Dizer que Moniz Bandeira escreveu sobre a Revolução Cubana é na verdade profundamente simplificador. O livro é muito mais interessante que isso. Narra o percurso das lutas nacionalistas na América Latina. E mostra como a Revolução Cubana foi o desdobramento (um deles apenas, ao lado de tantos outros movimentos ocorridos na Guatemala, Peru, Bolívia, Argentina, Brasil…) dessa luta de dois séculos contra o Imperialismo.
Há – na universidade e entre esquerdistas arrependidos – um certo medo de usar a palavra “Imperialismo”. Soa como bravata juvenil, como simplificação da realidade.
O livro de Moniz Bandeira recupera a história dos Estados Unidos na sua relação com a América Latina, e mostra – com uma riqueza “wikileakiniana” de documentos – que o Imperialismo não é só uma palavra solta, que serve para enfeitar discursos em assembléias estudantis.
Não. A história dos EUA é – também – a história do Imperialismo. E de como a América Latina reagiu bravamente à tentativa dos Estados Unidos de controlar a economia, o território, a política em nosso continente.
Moniz Bandeira transcreve telegramas de diplomatas (ôpa), desde ó século XIX, e mostra a intersecção dos interesses do Estado norte-americano com as corporações que ganhavam dinheiro a rodo na América Central. Não é discurso. Não é bravata. É a história. Documentada fartamente.
Aliás, não há nisso nenhuma grande novidade. Qualquer estudante medianamente informado já leu sobre a United Fruit e outras companhias que ocupavam porções imensas do território centro-americano. O mérito de Moniz Bandeira é não ficar nas generalizações. Ele desce ao detalhe, ao papel das embaixadas, do Departamento de Estado, mostra o dia-a-dia da administração imperialista.
A leitura permite compreender melhor porque, na América Latina, é impossível ser de esquerda sem ser nacionalista. Gente que faz política apenas com base em teorias européias costuma torcer o nariz diante de posições nacionalistas. Nacionalismo, na Europa, é associado a fascismo. Na América Latina, ser nacionalista é a melhor forma de lutar por países mais fortes, menos desiguais.
Moniz Bandeira – que, além de brilhante intelectual, foi muito próximo de Brizola e Jango – sabe bem disso.
Evidentemente, nem todos os problemas da América Latina devem-se ao “malvado” Imperialismo. Esse não é um conceito para explicar tudo. Mas explica muita coisa.
Moniz Bandeira mostra como – desde o século XIX – os interesses de produtores de açúcar no sul do Estados Unidos enraizaram-se em Cuba, mesclando-se aos interesses de parte da elite agrária cubana. E narra – com precisão - a forma como altos funcionários dos Estados Unidos representavam na verdade as grandes corporações privadas: a promiscuidade entre o aparato de Estado dos EUA e a indústria bélica daquele país, no início do século XXI, não foi uma invenção de Bush Junior. Não. Essa é a tradição da política externa dos EUA.
Mas a intenção de controlar a maior ilha do Caribe não tinha só motivos mercantis – ligados ao açúcar. Quando os EUA concluíram a expansão para o Oeste, consolidando o gigantesco território banhado por dois Oceanos, tornou-se primordial encurtar a distância entre Pacífico e Atlântico. O canal do Panamá – sonho antigo – virou rota estratégica que precisava ser vigiada. Cuba era uma espécie de porta-aviões – imenso – garantindo o controle dessa rota.
Fidel era essencialmente um político nacionalista. Che Guevara e (talvez) Raul Castro já eram socialistas em 1959. Fidel era antes de tudo um herdeiro da luta nacionalista de Marti. Caminhou para o marxismo para sobreviver.
Não estou entre os que fazem a defesa unilateral do regime cubano. Lá, vive-se em ditadura. E ponto. Mas é preciso compreender a história de Cuba, plantada a menos de cem milhas do Império, para entender a façanha da Revolução de 1959.
Na Bolívia, na Guatemala e no Peru, movimentos de cunho nacionalista muito parecidos com o cubano foram massacrados com ajuda dos EUA. O caso guatemalteco é conhecidíssimo. Nos anos 50 do século passado, Juan José Arévalo foi eleito presidente. Era um moderado, social-democrata, que ousou aprovar leis trabalhistas e uma reforma agrária que contrariava os interesses da United Fruit.
Os EUA (e boa parte da imprensa brasileira, claro, reverberava os interesses dos Estados Unidos) chamavam Arevalo de “comunista”. Arevalo foi sucedido por Jacobo Arbenz, um militar nacionalista, que acabou derrubado com ajuda dos EUA, depois que o Exército guatemalteco recusou-se a defendê-lo.
Che Guevara vivia na Guatemala na época. Quando a Revolução Cubana triunfou, Che foi dos maiores defensores da necessidade de armar o povo e criar milícias que defendessem a Revolução. Para não cair no mesmo erro da Guatemala.
Tudo isso – e muito mais – está no livro de Moniz Bandeira. Que além de tudo traz fotos saborosas – como a de Fidel almoçando com JK no Brasil, em maio de 1959, apenas cinco meses após a Revolução: o prato de Juscelino aparecia vazio, enquanto o de Fidel seguia intocado no momento da foto, porque o líder cubano desde aquela época já falava horas sem parar – preferia o discurso ao almoço. Segundo Moniz Bandeira, JK (perspicaz) observou na oportunidade: “Fidel Castro não compreende o diálogo. É  homem de monólogo”.
O livro, até por esses detalhes, está longe da hagiografia. Não transforma Fidel e os guerrilheiros que chegaram ao poder em “heróis”. Mas mostra como eles foram os representantes vitoriosos de uma corrente de pensamento que tem mais de 2 séculos de história: o nacionalismo latino-americano. Corrente que segue firme com Chavez, Evo, Kirchner e (por que não?) Lula
Só que no Brasil o nacionalismo é mais discreto. E talvez, por isso mesmo, muito mais eficaz.
Lembro-me sempre de uma noite de 2002 quando eu estava em Buenos Aires, gravando reportagem sobre grupos que tentavam manter a coesão social no meio do caos provocado pelo “corralito” e a bancarrota argentina. Antes da assembléia, os argentinos cantaram o hino nacional, de forma fervorosa. Eu comentei com o velho militante que comandava a assembléia popular: “como vocês, argentinos, são nacionalistas”.
Bem informado, ele devolveu: “Nós? Não. Nacionalistas são os brasileiros, que fizeram a Petrobrás, Banco do Brasil, não venderam todas suas empresas nos anos 90… E não precisam cantar hino nacional nem bater no peito para defender seus interesses. Vocês é que sabem ser nacionalistas”.
Lembro sempre disso. Temos nossos empresários e jornalistas colonizados. Sempre tivemos. Mas soubemos preservar um Estado relativamente independente, mesmo nos piores momentos. Não tivemos Fidel. Não fizemos Revolução. Mas, pelas beiradas, construímos uma escola nacionalista – sustentada pela tradição de independência do Itamaraty.
Tradição de independência que também aparece na obra de Moniz Bandeira. Ele traz dezenas de transcrições de telegramas de diplomatas brasileiros. Quase sempre, faziam uma leitura bastante diferenciada da linha oficial sustentada pelos EUA. Defendiam o interesse brasileiro.
Nos anos 90, por alguns momentos, o Brasil esteve a um passo de jogar fora essa tradição. Mas voltamos ao velho trilho. Independência e nacionalismo. Um Brasil e uma América Latina mais justos passam pela defesa desses valores – que não saíram de moda. E nem vão sair. Gostem ou não jornalistas e intelectuais entregues a devaneios colonizados.