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Nunca esquecer

por Orlando Margarido — publicado 22/03/2011 16h45, última modificação 22/03/2011 16h45
Cópia Fiel é um acontecimento especial em Kiarostami. O filme quebra paradigmas por ser sua primeira produção estrangeira e de não ter ligação com o Irã

Cópia Fiel é um acontecimento especial em Kiarostami. O filme quebra paradigmas por ser sua primeira produção estrangeira e de não ter ligação com o Irã

As lágrimas de Juliette Binoche talvez tenham embotado a discussão, mas confirmaram a sensibilidade que ela demonstra na tela como a mulher angustiada pelo encontro, ou reencontro, com um escritor de meia-idade que parece se comportar como um velho conhecido íntimo. O filme é Cópia Fiel, o novo trabalho do cineasta Abbas Kiarostami em cartaz a partir de sexta 18. Era sobre ele que se deveria discutir na conversa com a imprensa no Festival de Cannes do ano passado. Houve debate, mas antes lembrou-se a condição de prisioneiro do diretor Jafar Panahi, que naquele dia iniciava uma greve de fome no Irã. A informação chegou no instante da entrevista e Binoche, emocionada, chorou. Dias depois, a estrela francesa ganharia o prêmio de interpretação feminina no evento.

Cópia Fiel é um acontecimento especial em Kiarostami, um realizador de carreira notável, mas até aqui harmônica. O filme quebra paradigmas por ser sua primeira produção estrangeira, com atores estrangeiros, e de não ter ligação com o Irã. Mais ainda, traz um traço contemporâneo de discussão de relações e casamentos. O que se mantém é o recurso de não esclarecer as coisas ao espectador, deixá-lo na suspeita, como em Gosto de Cereja, quando um homem vaga com o carro em busca de algo que não nos é dado saber a princípio. No caso de Cópia Fiel, a dona de uma galeria de arte (Binoche) e um escritor em viagem à Toscana (o barítono William Shimell) saem pela estrada numa conversação com mais implicações do que parece. Se o eixo é um debate entre cópia e original na arte, Kiarostami o transfere para o amor e deixa ao público as decisões, conforme afirmou em Cannes: “Se a importância de uma obra está no seu olhar, como dizia Nietzsche, então o seu objeto de amor também depende do olhar que você lhe lança”.

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