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Cariocas (quase sempre)

Novembro, em ritmo de gerúndio

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 17/11/2010 16h41, última modificação 17/11/2010 16h41
O ano passou rápido e não nos deu chance de entender tantos acontecimentos

O ano passou rápido e não nos deu chance de entender tantos acontecimentos

Sabemos lá por que o tempo anda passando tão rápido, em ritmo de gerúndio. É como se estivéssemos vivendo num mundo de atendentes e promotores de telemarketing nas 24 horas que emolduram um dia. Se essa é uma constatação que já não assombra mais somente os idosos, mas também os jovens para quem antes sempre tudo era “infinito”, abandonamos, não sem alguma insegurança, a impressão de que essa escalada doida é algo pessoal.

Então o relógio destrambelhado não é somente criação de nossa cabeça, fruto de nossas frustrações, de projetos fracassados ou de sonhos insepultos que teimam em nos tirar o sono com uma interrogação que nos acalenta e desafia. Não saberemos nunca quem mexeu na máquina do universo.

Mas o mea culpa insiste: o tempo pode simplesmente estar a galope ou viajando num TGV, porque vamos envelhecendo, soprando novas velinhas quando se irrompe, inesperadamente, mais um aniversário e, quem sabe ganhamos mais alguma sabedoria para entender esse mistério.
E o que era passado passa a ter – ainda bem – importância relativa. Por culpa do tempo pretérito e daquele que nos aguarda adiante, aprendemos que é mais sábio olhar o futuro. Um futuro que, por conta de uma era gerúndia estacionada entre o que é e o que virá a ser, não está mais no ano que vem, mas no minuto seguinte àquele que gastamos pensando no assunto e àquele em que não nos damos conta de que algo está se esvaindo. Já foi.

Não dá para ficar paranoico. Além de doentes e desatentos ao que de importante acontece à nossa volta, só perderíamos mais alguma da mensurável matéria-prima. A vida está à frente e não atrás, embora não consigamos nos desligar do nosso balaio de amores antigos.

Amores não são somente pessoas que sonhamos um dia, lá no seu tempo devido, trariam mais significado às nossas vidas. Esses amores de ontem estão, exatamente agora, engendrados em seus minutos e horas, quem sabe a lembrar-se, eventualmente, e por um segundo, de nós no tempo deles. Que alegria nos dariam se nos deixassem saber disso.

No cesto dos amores do passado estão também os amigos ficados no caminho. Há os camaradas repescados pela modernidade da rede social que, apesar de sua fina malha, nem sempre consegue trazer de volta aqueles de quem lembramos do jeito como os lembramos. Há aqueles companheiros que resgatamos, menos provavelmente, contudo, num encontro casual em que as rugas e o caminhar um pouco mais errático não são capazes de tornar irreconhecíveis um rosto e o som de uma gargalhada.

Amores do passado são também nossos antigos locais de trabalho, edifícios, escadas, elevadores, pés-direitos, mesas, lápis, canetas, máquinas de escrever, computadores paquidérmicos, orgias supostamente intelectuais, bravatas, greves, demissões, conquistas, reconhecimentos, inesquecíveis atos de companheirismo, gratidões, ingratidões, manchetes e primeiras páginas.

De olho no agora, é com alguma pressa que precisamos decupar esses amores todos de todas as naturezas e sorver o que nos traz esperança, talvez a melhor rima branca para o futuro.

Novembro chegou e estamos a um mês de um novo ano, que por passar tão mais rápido que o ano passado e o retrasado, não nos deu chance de tentar entender como tantos acontecimentos couberam em um pouco mais de 300 dias amanhecidos e anoitecidos em ritmo de gerúndio. De qualquer maneira, ano novo, vida nova. Feliz 2011!