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Nostalgia

por Coluna do Leitor — publicado 14/02/2011 10h19, última modificação 14/02/2011 10h21
Para o leitor René Ruschel, foi uma verdadeira viagem ao passado, em todos os sentidos, para a geração dos cinquentões na qual ele se inclui, rever um antigo musical que comemora os 30 anos da Tropicália, produzido em 1997

Por René Ruschel*

Um antigo musical – “Som Brasil” - produzido pela Rede Globo em 1997 para comemorar os 30 anos do movimento Tropicália, berço de onde surgiram talentos como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethania, entre tantos outros, foi reapresentando recentemente por um dos canais pagos da emissora. Uma verdadeira viagem ao passado em todos os sentidos. Para a geração dos cinquentões, onde me incluo, foi um revival de imagens, costumes, posturas e valores de uma época marcante na vida política, econômica e social do País. Sem nostalgias, afinal é impossível quantificar com os dias atuais onde o tempo não para nem se recicla, mas é vítima de uma revolução tecnologia contínua, incessante, a única certeza é que a maioria dos traumas e dilemas sociais permanece incólume, sendo que alguns se agravaram pela dimensão. A diferença fundamental está justamente nas ferramentas disponíveis e na forma como as atuais gerações reagem ante os fatos. Nos anos de chumbo e tortura promovidos pela ditadura militar, a juventude brasileira foi obrigada a “inventar seu próprio pecado” mesmo estando sujeita a provar e “morrer do seu próprio veneno”. E foi justamente o que aconteceu com essa geração, pois à época não existia o Google para dar receitas e fórmulas prontas.

Os estudantes são um bom exemplo de análise. Parece ser pouco provável encontrar nas ruas de qualquer cidade brasileira um grupo superior a 5 mil pessoas a protestar contra a violência – mazela que aflige a todas as classes sociais seja na condição de vítimas ou réus. Nos anos sessenta e meados de setenta a falta de liberdades democráticas levou milhares de brasileiros às ruas ou praças para exigir dos donatários de plantão democracia e eleições diretas para presidente da República. O que mudou num período tão curto da história que fez com que a juventude se sentisse anestesiada¿ Participar ou não destes movimentos faz diferença na vida de um jovem¿ Pagar o preço pelas conquistas tem algum valor¿ Sem dúvida que os tempos são outros. Aquela geração movida por sonhos e desejos de conquistas não existe mais. Havia não só sagacidade à flor da pele, mas projetos coletivos por um mundo melhor. Ainda hoje quando ouço a canção “Apesar de você”, de Chico Buarque, sinto um nó na garganta que me obriga engoli-lo a seco. Como explicar as minhas filhas tal sentimento¿ É muito pouco tentar justificar os tempos do “Brasil, ame-o ou deixe-o” quando sentávamos no pátio da reitoria da Universidade Federal do Paraná para cantá-la enquanto a polícia cercava o local como abutres à caça de suas presas. Mas não havia outra arma e para nós sonhar era preciso.

Nestes tempos modernos os jovens deixam às universidades para enfrentar um mercado de trabalho onde a competitividade é a palavra de ordem. Os modelos de gestão estão voltados a resultados e com isso sobra pouco tempo para olhar ao derredor. Aliás, se existe algo que foi definitivamente enterrado nas grandes corporações é justamente o sentimento coletivo. Cresci e vivi num ambiente pessoal e universitário onde o debate, a crítica, a busca pela razão e o conhecimento era fundamental. Isso não significa que a prática foi alijada dos currículos, mas são formatadas de tal maneira que ao deixar os bancos escolares à maioria dos recém formados sai à procura de estágios, MBAs e pós-graduações voltadas às atividades financeiramente mais rentáveis. Um experiente médico e professor universitário confidenciou-me que nada o deixou mais estarrecido que a pergunta de um estudante as vésperas da formatura sobre qual especialidade “ganhava mais dinheiro”.

A dúvida de Hamlet – “ser ou não, eis a questão” - escrita por Shakespeare em 1599 deu-se justamente quando o príncipe questionava se era mais nobre ao espírito sofrer perdas, inclusive em sua fortuna, ou insurgir contra “um mar de angustias e provações”. Neste embate não há alquimias fáceis e muito menos verdades absolutas. O que se constata é que o mundo mudou e caminha a passos largos rumo a um destino incerto e bem menos humanitário; onde a genialidade de um Charles Chaplin ou os poemas do imortal Vinicius de Moraes certamente seriam vistos como obras de museu.

* René Ruschel é jornalista em Curitiba