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Nos passos do coração

por Fábio Fujita — publicado 29/06/2011 12h28, última modificação 29/06/2011 12h31
Jovem que ficou cega vítima de meningite na infância tornou-se bailarina e, hoje, também é professora de ballet. Por Fábio Fujita
Nos passos do coração

Jovem que ficou cega vítima de meningite na infância tornou-se bailarina e, hoje, também é professora de ballet. Por Fábio Fujita

Vista de frente, não há nada que chame atenção na capela São Bonifácio, localizada no bairro da Vila Mariana, em São Paulo. Parece, e é, uma igreja como tantas. Mas, nos fundos, algo de especial acontece em alguns dias da semana. Numa sala aconchegante, meninas de collant e sapatilha se movimentam e interagem. Não há dúvida de tratar-se de aulas de ballet. E, observando as bailarinas, também não é difícil notar um detalhe inusitado: algumas delas são deficientes visuais.

Aprender o ballet sem enxergar já seria, por si só, um feito extraordinário. Mas, não bastasse, quem ministra as aulas é Geyza Pereira, de 25 anos. Desde os nove, quando contraiu meningite em sua cidade natal, São José do Egito – no sertão pernambucano – Geyza também é cega.

A professora, no entanto, demonstra uma serena desenvoltura para quem tem de superar a limitação visual no processo de ensino-aprendizagem. Numa quarta-feira de maio, ela comandava com grande disposição os exercícios junto às três alunas da turma da manhã – as cegas Mariana e Vitória, e a vidente Giovana, todas na faixa dos dez anos de idade.

Trabalhando passos simples e movimentos de coordenação, Geyza segurava no joelho e nas pernas das alunas, indicando a forma correta de um certo agachamento. “Estica o pé, Vitória. Não tem nada a ver essa meia-ponta que você está fazendo!”, cobrou em voz austera, mas com a dosagem certa de suavidade.

“Mariana, sem rebolar!”, disse com bom humor, na direção da outra aluna, corrigindo-lhe a postura.

Um assistente vidente a ajuda na organização dos movimentos das meninas. Assistir Geyza é um estágio para ele: a ideia é se tornar um futuro professor.

O ballet cruzou a vida de Geyza aos dez anos de idade, quando ela já estava em São Paulo e estudava no Instituto Padre Chico, escola própria para deficientes visuais. Ali, uma então jovem bailarina vidente, Fernanda Bianchini, topou o desafio proposto pelas freiras, de ensinar ballet como atividade extracurricular para as cegas.

As freiras acreditavam que o ballet poderia contribuir para melhorar a postura das meninas, já que muitas delas eram corcundas. Geyza integrou a primeira turma de Fernanda. “Eu já queria aprender a dança antes de perder a visão”, ela conta, considerando que a nova atividade se revelou “uma terapia”.

No início, a principal dificuldade dela era na compreensão espacial do palco. Tanto que, numa ocasião em que o grupo foi se apresentar num colégio, a produção esquecera o linóleo – fitas que são coladas no chão para ajudar as cegas a se localizar. Sem linóleo, uma das meninas caiu do palco. Da plateia só se ouviu um sonoro “Óhh”.

“A gente continuou dançando. Sabia que algo tinha acontecido, mas sabe lá Deus o quê”, rememora Geyza.

Mas a bailarina em questão não se machucou: por ter caído de pé, ainda retornou para terminar o número.

Hoje, o espaço nos fundos da capela São Bonifácio é a sede da Associação de Ballet e Artes para Cegos Fernanda Bianchini, que emprega Geyza como uma dos sete professores da casa. Geyza leciona para três turmas de crianças nas quartas-feiras: duas no período da manhã e outra no período da tarde, além de dar uma aula adicional às segundas-feiras para Mariana que, além de cega, ainda é ligeiramente obesa para os padrões do ballet.

Mas empenho não falta à pequena bailarina, mesmo com maior dificuldade para se equilibrar em movimentos mais complexos. Para Geyza, não há diferenças em ensinar para alunas cegas ou videntes. A diferença de evolução entre as alunas se dá como em qualquer curso.

“Se é só uma que não está correspondendo, então acredito que não é o meu método (que está errado), é o esforço da aluna”, explica.

O que acontece é que, muitas vezes, as mães tratam as filhas cegas com excesso de zelo, levando estas a se acomodar. Por outro lado, a professora garante que, numa das turmas, a aluna deficiente visual “pega mais rápido” do que a colega que enxerga.

Conseguir transmitir o sentido conceitual do ballet para as alunas também é uma preocupação de Geyza. Fernanda Bianchini lembra que essa é uma arte que trabalha o belo – mas como explicar a beleza para quem não enxerga?

“Pelo processo da bailarina de se vestir, de se maquiar, já dá para imaginar o que seja”, acredita Geyza, cuja vaidade podia ser notada pelas unhas das mãos caprichosamente pintadas de violeta.

Durante a aula daquela manhã, a voz dela ainda pode ser ouvida numa curiosa orientação: “Vitória, não fique segurando a barra desse jeito. Isso não é nada bonito de se ver!”.

A cega Vitória logo se recompôs. Já o sentido etéreo do ballet é algo mais difícil de ser assimilado pelas alunas. “Elas não têm noção do que é ser leve no palco”, relata Geyza.

Num esforço de tentar transmitir essa ideia, Fernanda Bianchini certa vez levou folhas de palmeira para a sala. As alunas deviam imaginar seus braços na dança como o balançar das folhas.

Geyza considera que o ballet lhe ajuda em diversos aspectos, como na autoestima, na reinserção social e, principalmente, no aspecto psicológico. “Porque a gente tem que ser bem tranquila para conseguir dançar. Antes, eu era muito nervosa”, aponta a pernambucana que, ao longo destes 15 anos dedicados ao mundo das sapatilhas, teve a oportunidade de conhecer mitos da dança, como Mikhail Baryshnikov, Ana Botafogo, a Companhia de David Parsons e o Royal Ballet da Dinamarca.

Aos 11 anos, simultaneamente ao ballet, Geyza chegou a fazer ginástica olímpica, experiência que durou quatro anos. Só parou porque, passada a fase dos exercícios básicos, a escola não teve infraestrutura para disponibilizar equipamentos mais elaborados.

Mas os feitos de Geyza não parecem encerrados no ballet. Ela sonha em tentar aprender trapézio de circo. “Seria um desafio grande, porque você não está no chão, né?”.

Pois é: a bailarina que não enxerga quer voar. Parece uma boa ambição.