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Crônica / Matheus Pichonelli

Nós, eles e eu

por Matheus Pichonelli publicado 20/05/2016 16h20, última modificação 20/05/2016 18h21
O ódio é facilmente manipulado por quem lucra com o medo. É o que justifica todas as guerras – declaradas ou não
"Nós, eles e eu"

Cena no filme "Nós, eles e eu"

Em meados de 2015, Nicolás Avruj resolveu transformar em filme as memórias, gravadas em uma câmera digital, de uma viagem a Israel realizada 15 anos antes. A história do documentário “Nós, eles e eu” nasce de um desencontro. Argentino de origem judia, ele queria fazer uma visita surpresa a um primo que vivia em Tel Aviv.  Ao chegar, soube que o primo passava as férias na Argentina.

Sem o abrigo que o ligava àquele país, decidiu viajar pela região com uma câmera na mão (dessas digitais, em que manipulamos o zoom antes de sair gravando) sem muita ideia na cabeça sobre o que encontraria por ali.

A viagem começa na casa da avó, quando Avruj lança o primeiro enquadramento sobre uma expectativa: encontrar um ponto de origem, a terra dos ancestrais, reconhecida como Estado em 1948.

Ao chegar lá, a lente muda o foco. Da ausência daquilo que esperava encontrar surge uma viagem de três meses por uma terra que o cinegrafista, então amador, só imaginava conhecer. Ele só percebeu que ali havia dois povos (não dois países) em guerra quando, abrigado na casa de amigos judeus e amigos palestinos recém-conhecidos, testemunha, em conversas despretensiosas, o ódio de uns em relação aos outros.

Entre “nós” e “eles” havia um eu - e muros. Muitos. Sem saber, Avruj testemunhava o início da Segunda Intifada.

Refeito o trajeto 15 anos depois, uma profecia captada direta ou indiretamente pela câmera era cumprida: acirrado, o ódio naquela região ainda faria muitos estragos.

A compreensão de que estava em uma guerra, ainda que pudesse circular entre os dois lados, e que, portanto, corria perigo, levou semanas para ser assimilada. Pois aquela guerra entre uma nação de fato e uma nação não reconhecida, com áreas de tensão em contato e sobreposição de direitos e deveres não reconhecidos, a começar pela ocupação das terras, não é fácil de ser explicada; ela não se anuncia, mas é justificada na fala dos personagens com quem o diretor se encontra.

A guerra ali, percebe ele, não é um conflito clássico entre trincheiras, mas uma sucessão de guerras particulares - e há pontos comuns entre moradores de lados opostos do muro: todo mundo perdeu ou conhece quem tenha perdido amigos ou familiares em um conflito que ninguém consegue explicar exatamente - apenas justificar. Ação e reação, dos dois lados, são articuladas sempre como processos de defesa. Novamente, essa defesa justifica todas as guerras, mas não as explica - e é nesse ponto que o filme começa a se referir a "nós", aqui, na América do Sul.

Embora despretensioso como documento histórico, o filme serve como testemunha de um movimento: a sedimentação do ódio de lado a lado. Antes dele havia um muro, real e simbólico. À medida que Israel expandia seus assentamentos, parte da população atingida perdia o direito de circular.

Em um dos relatos, um madeireiro palestino conta como, de um dia para o outro, soldados israelenses derrubaram cerca de 200 árvores no entorno de sua casa. Aquela casa aos poucos foi sufocada entre assentamentos, tratores, muros, grades, cercas e soldados responsáveis por vigiar e limitar a circulação dos antigos moradores.

É de uma moradora israelense, amiga de uma família de palestinos, a melhor definição do impasse em todo o filme: os moradores daqueles assentamentos chegam de outros países com a promessa de encontrar um lar, mas sem saber o que existia ali antes; quando chegam, são recebidos com hostilidade pela população tirada dali.

De um lado, o muro serve para proteger esses moradores (que, de fato, só querem viver em paz com suas famílias) da “selvageria”, assim interpretada por um dos personagens, vinda do outro lado; do outro lado, a revolta daquelas famílias é resultado não só de uma invasão, mas de um confinamento.

O medo de lado a lado é o catalisador de uma indústria cuja força é apenas subentendida dentro do filme. Armas, câmeras de vigilância e monitoramento, efetivo militar, fortalezas e (novamente) muros são a essência de uma indústria tão promissora quanto agressiva. Basta ver os mundos opostos a poucos metros para entender a força da grana que ergue e destrói coisas belas.

Palestinos e israelenses vivem, assim, como desconhecidos de um lado e outro, e à medida que se desconhecem, passam a esquecer as causas e ignorar as consequências daqueles muros. O ódio, um afeto facilmente manipulado por quem lucra direta ou indiretamente com o medo, é a sua ponta mais visível. Forças políticas, econômicas e fundamentalistas crescem, assim, em detrimento da ignorância (em relação ao que ocorre do outro lado do muro) e da alienação (em relação à origem e consequência daquele muro).

A certa altura do filme, um jovem judeu, que acaba de entrar para o exército, fala à câmera, em direção a um inimigo projetado, algo como: “Oi. Eu não te conheço. Não sou um monstro, e sei que você não é, mas logo mais vou lutar contra você mesmo sem saber quem você é, e isso para mim não faz muito sentido”.

Então por que os ataques?, pergunta o diretor aos entrevistados. A primeira tentativa de resposta, do mais caloroso anfitrião palestino ao mais pacifista dos judeus, é que “eles” querem “nos” exterminar ou expulsar; que “eles” não aceitam “nossa presença”; e cada vez que um “nós” aparece sobreposto a um “eles” percebemos que a linguagem é um muro contínuo daquela divisão física imposta por um Estado armado até os dentes.

No limite, quando o interlocutor se torna incapaz de encontrar uma justificativa racional para o discurso, mesmo quando tudo parece lógico e natural, a vontade divina surge como ponto de fuga. É a vontade de “Deus”, não dos homens, que se cumpre.

Numa guerra, a pilha de mortos e feridos elimina qualquer explicação lógica para o ataque. Nela perdemos também a ideia de “desproporção”: chega uma hora em que não importa que a resposta a uma pedrada seja o míssil; importa é reagir. Mas, apesar dos mortos, apesar da reação “dura e necessária”, as pedras seguem pipocando e ninguém consegue mais explicar como nem por quê.

Ao sair da sessão, pensei no que poderia escrever sobre um relato, juntado como quebra-cabeça depois de 15 anos, aparentemente tão distante de nossa realidade. Passei alguns dias matutando e já tinha desistido de escrever a respeito quando li, nesta sexta-feira, um secretário de segurança assim justificar a violência de sua polícia contra sua população: “Não pode exigir que ele não reaja quando você dá uma pedrada nele”.

Ação, pedra, reação, desproporção. Onde já ouvi isso antes?

Lembro do documentário e penso um pouco: vivo em um condomínio, um entre tantos que se proliferaram em nossa cidade nos últimos anos. Em torno deles estende-se um cinturão de armas, seguranças e câmeras de vigilância. De dentro, nos referimos aos de fora como “eles”: todo mundo foi ou conhece quem tenha enfrentado algum tipo de violência praticada por “eles”.

E, do outro lado, os que estavam aqui antes dos condomínios e foram obrigados a se mudar ou a conviver com uma cerca eletrificada como vizinho passou ou conhece quem tenha passado por algum tipo de violência ou humilhação patrocinada pelo Estado. A começar pela chegada do “progresso”.

Tem sido assim desde que os primeiros portugueses levantaram as primeiras tendas em terras indígenas – e trouxeram de outras terras a mão-de-obra escrava para erigir os edifícios.

Lá, como cá, existe um Estado armado que filtra e decide quem pode ou não circular. No limite, decide quem tem ou não direito a ser gente. Existe um cansaço e um desconhecimento dos processos que levaram à naturalização daqueles muros erguidos com concreto e palavras ao longo de séculos. No entrechoque, ação vira reação, reação, desproporção; da desproporção, o ódio. Lá como cá, a lógica da guerra, entre cercas, ameaças e restrições de acesso, circulação e convívio, está incutida como se compusesse uma paisagem natural.

Em 2014, 2.200 palestinos foram mortos na Faixa de Gaza, incluindo combatentes e 550 crianças. Do lado israelense, 73 pessoas morreram, incluindo 67 soldados.

No mesmo ano, o Brasil se tornou o país campeão mundial de assassinatos, em números absolutos, com os 59.627 homicídios, de acordo com o Mapa da Violência – foram 2,4 negros mortos para cada branco.

Cá, como lá, nunca tivemos tantos muros para nos proteger.

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