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'No' ou a política e seus afetos

por Vladimir Safatle publicado 19/01/2013 13h01, última modificação 06/06/2015 17h37
O protagonista do filme de Larraín, sobre os tempos de Pinochet, sabe que para desativar o medo é preciso insistir na esperança

Há certo tempo, o Chile começou o processo de usar seu cinema para pensar seu presente por meio da confrontação com o passado recente. A partir de Machuca, de Andrés Wood (2004), o mundo descobriu uma cinematografia capaz de aliar reflexão sociopolítica e qualidade narrativa. Ela parece ter alcançado sua maturidade com o novo filme de Pablo Larrain, No – Adeus, Sr. Pinochet.

Larraín havia criado outros dois filmes impressionantes a respeito da ditadura de Pinochet: Tony Manero e Post Mortem. O primeiro se passa no Chile do fim dos anos 70 e conta a história de um psicopata disposto a tudo para alcançar seu sonho: ganhar um concurso televisivo de imitadores do personagem de John Travolta, em Saturday Night Fever. O segundo narra a vida de um funcionário de necrotério logo depois do golpe de 1973, e sua vizinha, uma dançarina ligada a grupos de esquerda.

Nos dois filmes, temos a perspectiva de alguém apolítico, mais preocupado com a defesa de seu sistema particular de interesses e que, no entanto, se vê, de uma maneira ou outra, diante das mutações políticas de seu país. De certa forma, tal perspectiva também é o centro narrativo de No.

Aqui, vemos o Chile diante do plebiscito, convocado em 1988 para decidir se Pinochet continuaria ou não no poder. O ditador chileno havia aprovado uma Constituição em 1980 que lhe dava um mandato presidencial de oito anos, que poderiam ser renovados por mais oito por meio de plebiscito. Esta era ainda uma maneira de responder às pressões internacionais, já que o Chile era, juntamente com o Paraguai, a única ditadura militar restante na América do Sul.

Mais sobre o filme "No":

A história centra-se na ótica do publicitário responsável pela campanha da oposição. Embora se afirme a importância da campanha publicitária, vale a pena lembrar que raras eram as pesquisas nas quais o “sim” a Pinochet aparecia à frente. Mas é inegável que a campanha serviu para mobilizar aqueles eleitores temerosos de votar ou desencantados com o processo. De fato, a participação final foi de quase 98%.

René Saavedra é um publicitário apolítico que ­continuará apolítico depois dos acontecimentos. Sua função é trazer a lógica do marketing para dentro do debate eleitoral, e isso ele faz bem. Na verdade, de maneira intuitiva, Saavedra sabe que a política é, acima de tudo, uma questão de mobilização de afetos e que, no fundo, só há dois afetos capazes de mobilizar fortes reações políticas: o medo e a esperança. O que ele precisa é, pois, desativar o medo através da ­insistência na esperança. Para isso, será necessário colocar em segundo plano os discursos a respeito da necessidade de encarar o passado e reconhecer os crimes da ditadura. “Isso não ganha eleição”, é o que ele dirá com precisão. Não é difícil imaginar os conflitos entre o “núcleo publicitário” e o “núcleo político” da campanha.

Uma das riquezas do filme de Larraín consiste em explorar ao máximo esse conflito. De fato, sabemos que a transição chilena foi algo que, até hoje, não terminou. O sistema eleitoral chileno é ainda submetido a leis casuísticas herdadas da ditadura, o que produz distorções na representatividade do Parlamento, sempre em prol de partidos de direita. Ao perder o plebiscito, Pinochet conseguiu ainda continuar como chefe das Forças Armadas até 1998, quando assumiu uma vaga de senador vitalício. Sua ascendência sobre o ­país só foi quebrada graças à sua prisão, na Inglaterra, a mando do juiz espanhol Baltazar Garzón e com a posterior descoberta, em 2004, de contas secretas pessoais no Banco Riggs.

Durante todo esse tempo, largos setores da imprensa chilena e latino-americana falavam do “milagre chileno” supostamente realizado na era Pinochet. Um milagre que, como todos os milagres, tem a característica de não existir. Quando Pinochet saiu, 38,6% da população se encontrava abaixo da linha de pobreza, em que o PNB per capita caiu 6,4% durante seu reino.

Essa dificuldade da transição chilena não é sem relações com a maneira como a ditadura acabou, ou seja, nos embalos de um jingle publicitário. Uma ditadura que começa de maneira brutal, sangrenta e termina dando para si o discurso de que convoca um plebiscito e sai ao reconhecer que perdeu só pode durar, silenciosamente, muito tempo. No entanto, que população, diante da possibilidade de uma saída relativamente pacífica da ditadura, escolherá outro caminho? Nesse sentido, o conflito chileno é a representação mais bem acabada do conflito que anima estruturalmente o próprio raciocínio político. O conflito entre transição e ruptura.

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