Você está aqui: Página Inicial / Cultura / No balaio de línguas, uma paixão

Cultura

Pênalti

No balaio de línguas, uma paixão

por Socrates — publicado 25/02/2011 10h29, última modificação 25/02/2011 10h29
O futebol me permitiu conhecer diferentes povos e culturas, mas sempre tive dificuldade com os idiomas. A única exceção foi a língua italiana, pela qual me apaixonei, graças à sua poesia e sonoridade

O futebol me permitiu conhecer diferentes povos e culturas, mas sempre tive dificuldade com os idiomas.  A única exceção foi a língua italiana, pela qual me apaixonei, graças à sua poesia e sonoridade
O futebol me ofereceu várias e importantes oportunidades. Convivi com a realidade social do meu país, curti seis anos de Corinthians, o que significa séculos de representatividade do meu povo, e conheci todos os continentes, além (o que é melhor) de grande parte do Brasil e de suas inúmeras expressões socioculturais e políticas. Aprendi muito com essas experiências e espero que esteja respondendo adequadamente à responsabilidade de portar essa gama de conhecimento que me foi ofertada.
Devo confessar, no entanto, que sou um péssimo viajante, apesar de adorar encontrar pessoas diferentes e com elas trocar energias e conhecimentos. Detesto qualquer ambiente desconhecido, não pelo simples fato de ele não ter estado ao meu alcance até então, e sim por uma paúra inexplicável que carrego desde que me conheço por gente, como se só o que fosse parecido com o útero materno me confortasse.
Além disso, tenho uma dificuldade intransponível com as diversas línguas com as quais convivo. Invariavelmente, misturo tudo no mesmo balaio, o que geralmente torna impossível que alguém menos disponível a me escutar possa entender. Ainda não encontrei a razão para essa dificuldade, já que domino o espanhol, estudei francês, entendo tudo do inglês e o leio com facilidade, vivi na Itália por um ano e em pouco tempo já pensava na língua deles, o que faço até hoje com naturalidade.
Entretanto, todos esses idiomas estão na mesma gaveta cerebral e é como se fossem milhares de peças que podem e devem se encaixar, porém, com um manuseador que é um baita de um incompetente, apesar de esforçado. Mas isso não me impede ou impediu de vasculhar cada cantinho dos locais que eu pude ou posso visitar. Principalmente quando me sinto impelido a acreditar que por lá passarei muito tempo.
E foi o que ocorreu na Itália.  Inesperada e surpreendentemente não tive dificuldades de falar o italiano. Talvez porque existe outro lado da minha personalidade que eventualmente contradiz tudo o que disse acima: quando me interesso por alguma coisa, enfrento qualquer obstáculo.
É que, como tanta gente, me apaixonei pelo idioma. Sua sonoridade, a ternura e uma harmonia sem igual me fascinaram. Nunca fui de notar essas particularidades em língua nenhuma, porém, como necessariamente deveria me comunicar nos meses seguintes dessa forma, não havia como não perceber.
E um detalhe me comoveu: a origem e suas nuances. O italiano como hoje o conhecemos tem uma história fascinante. E uma íntima relação como Florença, onde vivi. Há bastante tempo a Europa possuía uma coleção de dialetos originários do latim que mais tarde se estabeleceram como italiano, português, espanhol e francês. Contudo, uma diferença entre o italiano e as demais é fundamental reconhecer. Enquanto aquelas se impuseram em virtude do poder político e econômico, já que o espanhol é claramente o madrileno, o português é o que era o lisboeta, e o francês atual é fruto da evolução do parisiense medieval, o italiano, não. Na verdade, até meados do século XIX, a Itália nem sequer era um país, e sim uma infinidade de cidades-Estados que se digladiavam o tempo todo, controladas por príncipes ou outras potências europeias.

Até hoje os dialetos das diferentes regiões são utilizados quando se deve ocultar algo de alguém próximo. Sei bem o que é isso, já que lá muitas vezes me vi boquiaberto por não entender nada do que se falava à minha volta. Voltando ao italiano, ele é fruto da insistência de um grupo de intelectuais do século XVI, os quais achavam um absurdo não haver uma língua comum ainda que só na forma escrita e que fosse acessível a todos.
 Foi esse grupo que produziu algo inédito ao escolher o mais bonito dos dialetos e o batizou de “italiano”. E o encontraram na obra de Dante Alighieri divulgada dois séculos antes. Isto é, o que eles decidiram é que o que seria considerada a língua italiana foi a linguagem pessoal do grande poeta. Logo Dante, que havia surpreendido o mundo ao escrever não em latim, como era normal, e sim naquilo que acreditava ser o verdadeiro dialeto florentino falado nas ruas, inclusive Boccaccio e Petrarca, seus contemporâneos. Como podemos ver, o italiano não nasceu dos dialetos romanista e veneziano, e sim da linguagem dantesca.
Poético como ele só, pois nasceu de um dos maiores nomes da civilização ocidental.