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Ninguém como Magda

por Redação Carta Capital — publicado 14/11/2011 15h57, última modificação 14/11/2011 15h57
Uma série de concertos homenageia os 25 anos de morte da mais importante pianista clássica brasileira do século XX
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Uma série de concertos homenageia os 25 anos de morte da mais importante pianista clássica brasileira do século XX. Foto: Acervo Fundação Magda Tagliaferro

Por Ana Ferraz

Quando as delicadas mãos de Magdalena Tagliaferro (1893-1986) tocavam as teclas de um piano, o que se via era uma artista em estado de graça. “O coração tem de estar na ponta dos dedos”, ensinava a intérprete, que associou o virtuosismo à entrega à arte. Para essa brasileira de Petrópolis, cujos pais franceses lhe apresentaram o piano aos 5 anos e a viram triunfar nos palcos aos 13, vencedora do Primeiro Prêmio do Conservatório Nacional de Paris, de nada valia a técnica esvaziada de alma. Magda reservava aos maus intérpretes o rótulo de “gângsteres da música”.

A fim de homenagear os 25 anos de morte da artista que marcou a história da música clássica do século XX, e não somente no Brasil, a Caixa Cultural de São Paulo recebe entre os dias 16 e 20 deste mês os pianistas Ronaldo Rolim, Flávio Varani, Eva Gomyde, Marco Antonio Bernardo, Karin Fernandes, Eudóxia de Barros, Analaura de Souza Pinto, Fábio Caramuru e Gilberto Tinetti. Último aluno brasileiro da intérprete em Paris, Caramuru, também diretor artístico do evento, considera as apresentações uma forma de retribuir o que o convívio com a artista lhe proporcionou. O recitalista e arranjador vê como cruciais para seu desenvolvimento artístico os dois anos de contato com Magda (1979 e 1980, ele aos 23, ela aos 86 anos). “Com ela aprendi a dar colorido à interpretação. Seu mote era ‘entregue-se’, vá além da partitura, não deixe que a técnica se sobreponha à emoção”, relembra o pianista, que em dezembro se apresenta como solista da Filarmônica de Bruxelas no Festival Europalia Brasil, na Bélgica.

Tinetti, considerado um dos melhores cameristas brasileiros, credita a Magda a nova aragem na técnica pianística que soprou sobre o Brasil desde que ela passou a compartilhar seus ensinamentos. Também bolsista em Paris, conviveu três anos com a intérprete (1958-1960). “Foi muito produtivo, porque Magda tinha uma nova visão das coisas, sempre inquieta. Via a música como missão artística, não uma coisa árida. Aprendíamos muito com aulas coletivas que ela dava em casa. Naquela época fascinante, você respirava arte, abria o jornal e ficava tonto diante de tamanha oferta de opções culturais.”

Pioneira no ensino por meio de aulas públicas, ou cursos de alta interpretação, assim por ela denominados, Magda encontrou nos alunos ávidos por seus conhecimentos uma fonte de realização. “Ela era teatral e tinha todo um ritual para se apresentar aos alunos. Sempre impecavelmente vestida, entrava usando luvas, que tirava lentamente e colocava sobre a mesa. Embora fosse de pequena estatura, sua voz potente dominava a plateia”, relembra Caramuru. Rigorosa nas observações aos pupilos, recheava as reprimendas com ironia. Certa vez, após ouvir atentamente a execução de uma peça por uma aluna, comentou: “Filhinha, tocar piano não é como ir à feira de sacolinha”.

“Até hoje me norteio pelos princípios estéticos e pela postura em relação à arte aprendidos com Magda Tagliaferro”, enfatiza Caramuru. A mestra logo cedo mergulhou na efervescência artística que a França vivia de forma especial nos anos 1920. Com talento
excepcional, a intérprete, que aprendeu as primeiras notas com o pai, Paulo Tagliaferro, caiu nas graças de Gabriel Fauré (1845-1924) e de Francis Poulanc (1899-1963). Esse fazia questão de que a jovem prodígio executasse as primeiras audições de suas composições. Após ouvi-la tocar a Oitava Novelette, de Robert Schumann, um de seus mestres, Alfred Cortot, foi definitivo: “Ela interpretou de forma tão extraordinária que, desde então, eu nunca mais quis tocar essa peça”. O compositor, crítico e maestro Reynaldo Hahn também se prostrou diante da brasileira: “Se Magda tocasse trombone de vara, ainda encontraria um jeito de produzir algo maravilhoso”.

Vulcânica no temperamento, culta e sedutora, ela angariou paixões. Entre os devotos de seus cabelos eternamente vermelhos, vestidos de tons marcantes, carmim nos lábios e nas unhas, estaria Cortot. “É uma injustiça terem me atribuído uma vida de ‘aventuras’ que não tive. Longe do meu pensamento fazer-me passar por santa, no entanto... Enfim, mística, mas pecadora”, confessou a intérprete em seu livro de memórias, Quase Tudo, de 1979.

Oficialmente, Magda casou-se duas vezes. Seu primeiro companheiro foi o violinista francês Jules Boucherit (1877-1962), com quem viveu dez anos, cada um deles em seu próprio apartamento, como preconizavam o filósofo Jean-Paul Sartre e a escritora Simone de Beauvoir. Anos depois, ela casou-se com André B., um administrador da Sociedade Imobiliária da École Normale de Musique, que arruinou suas finanças. O segundo casamento oficial deu-se no Brasil com o engenheiro agrônomo Victor Konn, que ela conheceu durante uma turnê na Grécia e com quem também partilhou a vida por uma década. Entre um relacionamento e outro, a imaginação de seus fãs ganhava asas. Em entrevista ao programa Jogo da Verdade, em 1981, já com 88 anos, ela tentou desmistificar a fama de mulher fatal: “Não tive aventuras, tive casos sérios, e poucos, muito poucos”.

“Magdalena tinha de fato uma aura de sensualidade”, afirma Fábio Caramuru, que menciona sua elegância marcante e o porte altivo. “A forma como ela entrava no palco e se dirigia ao público e à orquestra mostra isso com clareza.” Os vestidos de gala escolhidos com esmero, os penteados caprichados, a maquiagem onipresente, ingredientes que ajudavam a compor sua feminilidade, ela nunca abandonou. Em Paris, confidenciou ao aluno: “Fábio, estou ficando muito idosa, mas eu não queria morrer...”

Quanto mais chegava perto do fim, vindo sob a forma de um enfarte, aos 93 anos, no Rio, mais Magda se interessava por tudo à volta. As aulas públicas foram a maneira de perpetuar seu ideal. “Ela era excelente professora, fazia o aluno amar a música e sondava se ele tinha a fibra necessária. Com Magda refinei minha arte”, atesta o ex-aluno, que desde 1990 coordena projetos da Fundação Magda Tagliaferro, criada pela artista em 1969. “É uma honra ser o ex-aluno que divulga sua memória. Magda é única. Jamais achei alguém que se comparasse a ela.”

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