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Refogado

Nem tudo se renova

por Marcio Alemão publicado 02/11/2010 09h57, última modificação 02/11/2010 09h57
Foi triste o retorno a um tradicional restaurante espanhol em São Paulo

Foi triste o retorno a um tradicional restaurante espanhol em São Paulo

O Don Curro é um restaurante espanhol que fica em São Paulo, há décadas localizado em uma casa em Pinheiros. Tinha boas famas: de ser o melhor espanhol de São Paulo, o que chegou a significar o melhor do Brasil, de ser um dos melhores restaurantes da cidade e de ser caro. Todas se justificavam.

Nunca fui um assíduo frequentador do local. Meus pais nunca dispuseram de numerário suficiente para bancar uma noitada em família na casa do ex-toureiro. Sim, Don Curro teria sido toureiro na Espanha. Depois, por minha própria conta fui algumas vezes e várias outras como convidado. A famosa paella da casa nunca me encantou. Não gosto do prato. Mas o Don Curro oferecia muitas outras opções em pescados e frutos do mar, além do igualmente famoso arroz negro, feito com a tinta da lula e com a própria.

Coloque uns 17 anos entre a última linha e esta. Em um sabadão besta lembrei da velha casa. E lembrei que minha filha menor não conhecia o local. A mais velha chegou a ir algumas vezes com a avó. E por que não? Contei-lhe sobre aspectos pitorescos do local: um grande tanque com lagostas vivas, cartazes sobre touradas e até uma farda completa de toureiro. Fomos todos.

O aquário chega a ser triste. Sério mesmo? É triste. Chega a ser deprimente ver aqueles bichos amontoados. Pena de lagosta não tenho; não passa pela minha cabeça adotar uma ou sair mar adentro  proibindo a sua matança. Assim como continuo sendo apreciador da carne de vitela, mas não gostaria de ver um bezerrinho na entrada da churrascaria. Minha filha não gostou.

Uma pequena espera de alguns minutos nos leva a sentar nas mesinhas que ficam antes do salão. Sobre as mesinhas, rapidamente tratei de emprestar a elas uma história e fui dizendo:
– Esse restaurante já foi muito famoso e, em um tempo no qual não havia tantas ­opções em São Paulo, ou você chegava muito cedo ou esperava um bom tempo para sentar. E naquele tempo era permitido fumar em todos os locais dos restaurantes. As pessoas ficavam muito tempo a esperar. Enquanto esperavam, bebiam. E quando bebiam, fumavam. E quando bebiam e fumavam, acabavam fazendo porcaria do tipo: deixar o cigarro cair do cinzeiro e queimar a mesa. Está vendo, filha, essas muitas marcas de queimado? São marcas desses outros tempos. Interessante, não?

Tenho dúvida se ela chegou a achar aquela baboseira mais interessante do que uma bolacha de água e sal. Mas não tenho dúvida que essas mesinhas deveriam ter sido jogadas em uma lareira há muito tempo. Sim, tínhamos a roupa do toureiro. Comento sobre isso ou já é possível imaginar o estado da roupa?

O cardápio e sua direção de arte estiveram em voga no início da década de 80. Um cardápio com fotos. Um cardápio impensável, hoje, para um restaurante que não seja fast-food. Os cartazes sobre touradas não provocaram muito interesse. O salão é o mesmo. Nada mudou.

Sim, esqueci que, enquanto esperávamos, pedi as clássicas lulas fritas. Pois lhes digo que há muitos anos eu não via nada parecido. A quantidade de óleo presente faria um motor 1.0 rodar por um ano em estradas de terra. Nem ao menos tiveram o trabalho de retirar o guardanapo sob as meninas encharcadas.

Minha filha pediu o arroz negro, que adora. Ela tem 12 anos. Ela pediu ao garçom. O garçom sorriu e alertou: o prato é bem servido. Ótimo. Mãe e filha comeriam o arroz. Eu pedi um badejo e me trouxeram um linguado. Eu pedi grelhado e me esqueci que o grelhado de antigamente nem chegava perto de uma grelha. Ficava em uma chapa, sempre com alguma gordura, leve que fosse. E ruim não estava, mas muito longe de deixar qualquer boa lembrança.

O arroz era apimentado. O garçom acreditou que a menina de 12 anos era louca por pimenta. Tentei eu ficar com o arroz: adoro pimenta, mas odeio arroz farinhento. Um dos piores que provei na vida. Devolvi. Os camarões que minha outra filha pediu? Ok. Come-se aos montes em qualquer bar por muito menos. A única coisa que não mudou: continua muito caro. Se fiquei chateado? Não. Fiquei sinceramente triste, deprimido, como em um final de tourada.