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Nem pureza, nem inocência

por Celso Marcondes — publicado 19/02/2010 19h27, última modificação 18/08/2010 19h30
Crítica do filme 'A Fita Branca'

Uma voz em off informa no começo de A Fita Branca que irá contar a história vivida numa pequena aldeia no interior da Alemanha no começo do século XX. Uma sucessão de atos criminosos abalou então a vida dos habitantes, sem que sua origem tivesse sido claramente desvendada. O narrador, que era o professor do pacato povoado, já com a voz de um idoso, preocupa-se em explicar que tudo tinha se passado havia muito tempo e que sua memória não era precisa a ponto de garantir total exatidão dos fatos que iria relembrar.

O austríaco Michael Haneke entra com fôlego no terreno do mistério, mas a busca de explicações para os intrigantes acontecimentos - sempre com traços trágicos - é apenas um recurso usado para que nos apresente, naquele diminuto limite geográfico, uma fotografia do estado da sociedade alemã às vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Ele vai revelando toda a pirâmide social da aldeota. No seu topo, o personagem central é o barão, dono da grande propriedade rural da região e que emprega mais da metade dos seus habitantes. O senhor das terras, que todos respeitam, porque o temem. Aquele que dita as regras e as punições, que explora seus empregados com um trabalho incansável e patrocina um fugaz momento de festa e comemoração.

Na base da pirâmide, os trabalhadores, vivendo em condições quase miseráveis, representados centralmente por uma numerosa e triste família, cujo chefe é um homem resignado com a pobreza, mas sempre rude e mal-humorado.

Situada entre os dois extremos, a “classe média” local. Somos apresentados às figuras, importantes no filme, do administrador da fazenda do barão, do pastor religioso, do professor, do médico e da parteira. De cenas do cotidiano de suas famílias e da relação entre elas, vai se desenhando a narrativa, tendo como fio condutor a busca do professor pela solução do mistério que envolve os tais acontecimentos estranhos, que não param de se suceder.

Um elo une os lares de todos os personagens: as crianças. O pastor, o administrador e o trabalhador têm muitos filhos. A parteira é quem os coloca no mundo, mas vive sozinha, com um único filho, deficiente mental. O médico tem outros dois, é viúvo. O professor não tem filhos, é ainda solteiro, mas conhece todas as crianças. Já o barão tem apenas dois filhos, mas a baronesa prefere delegar os cuidados com eles a uma babá.

Com o transcorrer da história vão ficando nítidos os traços de uma sociedade que, além de desigual, é triste, violenta e depressiva. Sobretudo, perversa e cruel no seu cotidiano, criando a cada dia o caldo de cultura que transborda nos fatos incomuns que sempre produzem vítimas. Os acontecimentos misteriosos são todos perversos. Intrigam e amedrontam o conjunto dos habitantes. Porém, eles convivem entre as paredes dos seus lares e nas relações entre as famílias com doses permanentes de violência e desprezo.

Choca a todos quando uma das crianças desaparece e depois ressurge toda machucada, mas sem coragem de contar quem foi seu agressor. Entretanto, as surras e os açoitamentos acontecem corriqueiramente em vários dos lares, pais castigando duramente os filhos e ensinando que a força é o principal instrumento de educação.

As crianças têm que aprender apanhando. E as mulheres, seja a baronesa ou a parteira, seja a adolescente ou a namorada do professor, são sempre figuras subalternas, servis, sem direitos. Usadas e abusadas, dominadas na sociedade patriarcal e machista.

Neste cenário – mais que sombrio e acentuado pelo preto e branco da película – a “fita branca” a que alude o título é símbolo de “pureza e inocência”, como nos explica o pastor. A igreja é o refúgio que abriga a todos nas manhãs dos domingos. É onde o pastor resume em seus sermões os parâmetros desta sociedade desigual, mas também é onde o barão transforma o púlpito em palco para suas ameaças e imprecações, cumprindo o papel de representante da lei e do Estado no vilarejo.

Os únicos contatos com o “mundo exterior” acontecem quando a baronesa, já farta daquele ambiente vil, parte para a Itália com os filhos. E quando o barão, sentindo-se incapaz de decifrar pelos seus métodos as razões e os causadores dos fatos estranhos, resolve contratar dois policiais detetives, vindos da capital, para solucionar o mistério. Eles chegam trazendo esperanças, mas se utilizando também da coerção e da violência para lograr seu objetivo.

Não por acaso a história termina quando começa a I Grande Guerra. Exatamente no momento em que a violência explode no mundo. Para a guerra vão ser chamados os homens adultos da aldeia e dela vai nascer outra Alemanha, pronta para parir Hitler e o nazismo. Quando as crianças do filme já estariam adultas e, supostamente, pela experiência que tiveram na infância naquele vilarejo, aptas para ingressar nas fileiras do partido ou do exército nazista.

A Fita Branca foi vencedora da Palma de Ouro de Melhor Filme no Festival de Cannes 2009 e vencedora do Globo de Ouro 2010 de filme estrangeiro. É um dos indicados ao Oscar na mesma categoria (também o é pela fotografia). Não assisti a nenhum dos outros concorrentes, mas este mais que justifica sua presença entre os cinco finalistas. Ele supera Caché, outra bela obra da lavra de Haneke. É um filme absolutamente perturbador.