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Crônica do Villas

Nem morto!

por Alberto Villas publicado 23/01/2013 14h03, última modificação 23/01/2013 14h03
Antes as pessoas costumavam ter medo de mortos. Hoje não é mais assim

Quem hoje em dia tem medo de gente morta? Ninguém, não é mesmo? Mas não era assim. Hoje a pessoa morre, enterra ou crema e pronto, morreu aí. Mas não era assim. Minha mãe, por exemplo, morria de medo dos mortos. Cada um que ia indo embora desse mundo, parente, amigo, vizinho, conhecido, ia aumentando o seu medo.

Ela dormia todas as noites com a cabeça coberta por um travesseiro, um lençol, um vira-lençol (lembra de vira-lençol?), uma colcha, um cobertor, qualquer coisa, o importante era estar com a cabeça coberta para não ver um morto amigo ou inimigo entrando no quarto na calada da noite ou lá no cantinho, parado, olhando pra ela.

De madrugada, quando dava vontade de fazer xixi ela chamava o meu pai ou muitas vezes esperava a vontade passar porque tinha certeza que ao acender a luz do banheiro, lá estaria o Aurino, a Aparecida, o padre Zé Maria ou o Osvaldo, os mortos da nossa infância.

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Osvaldo é um caso a parte. Funcionário do Ministério da Agricultura, morava num pequeno hotel no centro de Belo Horizonte. Num belo dia, ou melhor, num triste dia, chegou a notícia de que Osvaldo estava morto, caído na escadaria daquela pensão meia estrela. Pior. Havia sido assassinado, assim sem mais nem menos. Nunca se soube quem matou Osvaldo. O que mais nos intrigou foi o fato do assassino não ter roubado nada. No seu bolso estavam algumas notas de cruzeiro, seus documentos, no peito um cordão de ouro e no pulso um relógio Mido que ele se orgulhava muito. Não levaram nada mas mataram Osvaldo.

Desde esse trágico dia, minha mãe concentrou o seu medo naquele funcionário do Ministério da Agricultura que, para ela, poderia aparecer na nossa casa a qualquer momento, ela não tinha a menor dúvida. Era raro o dia em que minha mãe não sonhava com ele. Antes mesmo de sentar-se conosco para tomar o café da manhã, mexendo o Cremogema no fogão ela já anunciava:

- Sonhei de novo com Osvaldo!

Passávamos o café da manhã inteiro ouvindo o script do sonho, com detalhes. Antes de contar a história propriamente dita, ela dizia:

- Ele estava com uma camisa xadrez, uma calça branca de linho e óculos escuros desses tipo Ray-Ban.

Com o meu pai era diferente. Meu pai cultuava e catalogava os mortos. Tinha um caderno preto desses de A a Z, onde ele ia anotando a morte de cada parente, de cada amigo, de cada funcionário do Ministério da Agricultura. Também no café da manhã ele trazia o caderno e dizia.

- Hoje fazem trinta anos que mamãe morreu!
- Já são seis anos que Asplênio nos deixou!
- Seu Neco morreu há exatos dez anos!

Fazíamos um silêncio tipo respeito e nada mais. Minha mãe, na verdade mais preocupada com o Cremogema no fogo, sempre comentava alguma coisa para deixar claro que estávamos prestando a maior atenção na sua ladainha.

- Dez anos? Isso tudo? Parece que foi ontem.

Sei que naquela casa havia um culto aos mortos. Ninguém esquecia assim da noite pro dia aqueles que haviam nos deixado. Hoje, quando pego minhas anotações fico assustado. Nem me lembrava mais que o Dicró tinha morrido. Nem mesmo o Billly Blanco, a Cesária Évora, a Elizabeth Taylor, o Ítalo Rossi, o John Herbert, o Pery Ribeiro, o Serginho Leite, o Zé Vasconcellos e o Lacraia. E olha que nos deixaram há tão pouco tempo...

Não sei porque mas hoje não vejo mais ninguém com medo dos mortos. A minha mãe passou a vida inteira dizendo que quando morresse, se tivesse um jeito de voltar, ela voltaria. Isso já faz mais de quinze anos e nada. Eu, particularmente, acho que perdi o medo dos mortos por isso, sei que eles não voltam jamais, só voltam no sonho. Essa noite mesmo sonhei com a minha mãe. Ela estava toda de branco, um broche de madrepérola no peito e, nos pés, uma sandália de plástico amarela dessas tipo Melissa.