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Narrativa de esperanças

por Eduardo Graça — publicado 23/12/2011 09h04, última modificação 06/06/2015 18h56
Após um período de isolamento, Cameron Crowe retorna, numa comédia romântica clássica, para contar a reinvenção de um homem obrigado a enfrentar as perdas da maturidade
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Após um período de isolamento, Cameron Crowe retorna, numa comédia romântica clássica, para contar a reinvenção de um homem obrigado a enfrentar as perdas da maturidade. Foto: A família de Compramos um Zoológico

Protagonista de Jerry Maguire – A Grande Virada e de Vanilla Sky, Tom Cruise decidiu visitar, numa típica tarde azulada deLos Angeles, a locação da nova empreitada de Cameron Crowe, Compramos um Zoológico, a partir do dia 23 nos cinemas brasileiros. A estrela de Missão Impossível sabia que encontraria o amigo no melhor dos espíritos, provavelmente selecionando as músicas que gosta de tocar quando filma cenas cruciais. No set, Matt Damon vive o jornalista britânico Benjamin Mee, que trocou as reportagens de aventura pela administração do semiabandonado zoológico de Dartmoor, em Plymouth, parte do processo de recuperação da família pela perda precoce de sua mulher. Scarlett Johansson é a zeladora capaz de balançar o coração do recém-viúvo.

 

O filme é uma adaptação do livro de memórias de Mee, com a ação transportada da chuvosa Grã-Bretanha para a ensolarada Califórnia. “Tom apareceu justamente no dia em que iríamos filmar a cena do beijo. Pensei: isso vai complicar tudo, as atenções agora vão se voltar para ele. Mas acho que sua presença deu um quê de competitividade saudável e os takes fo ram ficando cada vez melhores. E o escolhido para o filme é justamente aqueleem que Tomgritou, animado, no fim: ‘Agora sim, tá bom!’”, diz Crowe, sorrindo, em suíte do Ritz-Carlton, emManhattan.

Lá se vão 15 anos desde o lançamento de Maguire, muito provavelmente, ao lado de Quase Famosos, o filme mais reverenciado de Crowe. Depois de Tudo Acontece emElizabethtown, em 2005, fiasco de crítica e público, o diretor de 54 anos isolou-se em um movimento de reencontro consigo mesmo. Em 2008, separou-se, depois de 24 anos de casamento, de NancyWilson, famosa nos anos 80 por sua banda de pop rock Heart, com quem tem um filho de 11 anos. Foi o amigo Tom Cruise quem o tirou de casa, em outra tarde californiana, para “dar umavoltapela cidade”. “Não é que ele me encontrou exatamente em uma posição fetal? Sim, estava deprimido”, confessou o diretor em recente entrevista a The New York Times.

 

Os dois passaram o dia acompanhando as filmagens de Ligeiramente Grávidos. O diretor, Judd Apatow, era também roteirista e produtor de mão-cheia destinado a dominar a comédia hollywoodiana nos próximos anos. Reverente, o idealizador de O Virgem de 40 Anos disse que havia anos vinha roubando ideias de Diga o Que Quiserem, primeiro filme de Crowe.

Compramos um Zoológico não tem nada do humor verborrágico e sem pruridos de Apatow. É uma comédia romântica clássica, com algumas cenas dramáticas intensas, centradas na dificuldade do filho adolescente de Damon, Colin Ford, de lidar com a perda da mãe. No filme, é sua irmã mais nova, Maggie Elizabeth Jones, de 7 anos, quem impulsiona o jornalista a se mudar para o zoo. Lá, Mee tenta salvar o emprego dos funcionários, aalmade sua família e o bem-estar dos animais. Entre os figurantes de luxo estão leões, tigres, muitas cobras e até um urso.

“Tenho cachorros, mas não sou um fã tresloucado de animais. Li o livro, vi o documentário Ben’s Zoo e percebi o quão focado aquele homem era, compromissado em manter o zoo e a memória de sua mulher vivos. O que me atraiu foi a ideia de falar de sonhos impossíveis. Só faltava convencer o Matt Damon e o filme sairia do papel”, relembra o diretor. A outra principal mudança foi um truque e tanto: além de transportar a história para a Costa Oeste dos EUA, em Compramos um Zoológico a aquisição se dá depois da morte de Katherine, a mulher de Mee. Interpretada pela belíssima francesa Stephanie Szostak, a Katherine de Crowe surge ora em flashbacks, ora em sequências oníricas. “Penso nas mudanças centrais da história realcomouma versão de uma música”, diz.

Crowe, que antes de voltar ao mundo da ficção dirigiu documentários sobre Elton John (The Union) e Pearl Jam (Pearl Jam Twenty) e cuja trajetória como repórter mirim é a base de Quase Famosos, pelo qual recebeu o Oscar de melhor roteirista, pensa tanto visualmente quanto através de sons ao ler um roteiro. Ele conta que esta é sua maneira de mergulhar no centro da narrativa. “Neste caso, pensei muitoem Momento Inesquecível, de Bill Forsyth, com Burt Lancaster. A ideia de uma pessoa desaparecendo em um cenário estranho não saía da minha cabeça”, diz. A partesonorase resolveu ao convidar Jónsi, o gênio islandês do grupo de rock Sigur Rós, conhecido por sua música grandiosa e melancólica, para compor a trilhasonora.

O diretor de fotografia de Compramos um Zoológico, Rodrigo Prieto, celebrado pelas parcerias com Alejandro González Iñárritu (Amores Brutos,21 Gramas, Babel, Biutiful e O Segredo de Brokeback Mountain), crê que o estilo “cabeça aberta” é um dos segredos da leveza do cinema de Crowe. “É o oposto de cineastas que já chegam com o desenho do filme pronto,comoPedro Almodóvar, com quem fiz Abraços Partidos. É outra viagem”, compara. Compramos um Zoológico, assimcomoJerry Maguire, é centrado na reinvenção de um homem lidando com as perdas da maturidade. Mas a diferença de uma década e meia entre as duas produções fica óbvia no resultado final. “É mais difícil fazer algocomoJerry hojeem dia. Nomomento em que as pessoas estão tão sofridas na vida real nos EUA, com a crise financeira, é cada vez mais difícil um filme realista, mas com uma narrativa recheada de esperança, ser financiado porHollywood. Mas o que nunca vai mudar é a necessidade de se contar histórias sobre personagens com quem nos identificamos. Foi assim com o Jerry, agora com o Ben, era o mesmo na época do Billy Wilder”, diz.

 

A súbita referência ao diretor de Crepúsculo dos Deuses tem razão de ser. Crowe conta que ele foi seu maestro soberano, objeto de seu livro Conversations with Billy Wilder, lançado em 1999, três anos antes da morte do criador de Se Meu Apartamento Falasse, Quanto Mais Quente Melhor e Pacto de Sangue, então com 95 anos. “Ele é o maior diretor-roteirista da história do cinema americano. Billy tinha um mote que eu adoro e adotei descaradamente. Ele dizia: só seja escravo da melhor ideia que alguém te der. É isso. Não sou um control freak”, diz, para, em seguida, acrescentar, o dedo indicador apontado para cima, informando o tom que gostaria de dar à sua volta a Hollywood: “Já passeei, com ou sem Tom Cruise, por sets cercados de mistério, com detalhes impensáveis de segurança, sigilo absoluto, o diretor com o megafone berrando, e o resultado foi sensacional. Pode funcionar. Mas não sou assim. Meus filmes são voltados para os atores, para a performance. Quero que eles experimentem tudo. E que a criação venha, uma vez mais, da liberdade”.