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Entrevista

Não vai morrer assim

por Tom Cardoso — publicado 10/06/2013 08h19
Paulo César de Araújo, autor
 da biografia vetada de Roberto Carlos, espera o relançamento da obra após ensaio seu sobre os bastidores da produção
Adriana Lorete
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Paulo César de Araújo, autor
 da biografia vetada de Roberto Carlos, espera o relançamento da obra após ensaio seu sobre os bastidores da produção

O escritor Paulo César de Araújo está disposto a peitar novamente a realeza. Desta vez, sem baixar a guarda. Há seis anos, quando seu livro Roberto Carlos em Detalhes, a biografia não autorizada do astro da música brasileira, foi recolhido das livrarias, após um processo movido pelo “Rei” por invasão de privacidade, Araújo era apenas um historiador e pesquisador sem o menor traquejo para lidar com as agruras do Judiciário brasileiro.

Na época, nada conseguiu fazer para impedir o assim chamado “acordão” entre os advogados do cantor e a Editora Planeta, que terminou com 11 mil exemplares da biografia recolhidos e guardados num misterioso depósito em São Paulo, onde estão até hoje. No início, Roberto Carlos pretendia incinerá-los, mas desistiu rapidamente da ideia. Alguém, especula Araújo, deve tê-lo lembrado de que queimar livros, assim como vestir roupas de cor marrom, não era de bom agouro.

Quem vai colocar fogo na história é o biógrafo de 51 anos, que decidiu relançar Roberto Carlos em Detalhes na íntegra, atualizado. Aguarda apenas o interesse de uma editora, que poderia ser a Companhia das Letras, uma vez que o grupo, dirigido por Luiz Schwarcz, deve publicar ainda neste ano um volume sobre os bastidores da apuração de dois livros de Araújo, entre eles a biografia do cantor. A Companhia das Letras, por meio de seu publisher, Otávio Marques da Costa, descartou por enquanto qualquer possibilidade de relançar o livro, mas confirmou a publicação dos bastidores. No café de uma livraria de Ipanema, o escritor baiano radicado no Rio de Janeiro conversou com CartaCapital. A seguir, trechos da conversa.

CartaCapital: A biografia Roberto Carlos em Detalhes será relançada?

Paulo César de Araújo: Sim, sem dúvida. Mais cedo ou mais tarde o meu livro vai voltar.  Com força total, atualizado, com novas histórias. E não vou mudar uma linha do que havia escrito antes. O título será o mesmo. Eu tenho um parecer jurídico para relançá-lo. Questionei o acordo judicial entre Roberto e a Planeta antes de ele ser homologado. Tecnicamente, já posso lançar o livro.

CC: Do que depende o retorno às livrarias?

PCA: De alguma editora publicá-lo. Estou aberto a propostas. O mercado editorial aguarda para saber se o projeto de lei que libera a publicação das biografias não autorizadas será ou não aprovado no Congresso. Estava aprovado na Câmara e o Senado tinha tudo para acompanhar a decisão, mas um deputado da base evangélica, Marco Rogério, entrou com recurso e pediu para que a proposta seja analisada novamente. Apesar dos bolsões de resistência, acredito que mais cedo ou mais tarde o projeto será aprovado. Mas se dependesse apenas de mim o livro estaria nas livrarias.

CC: E está pronto para brigar de novo com Roberto Carlos? Recentemente, ele notificou judicialmente uma pesquisadora acadêmica, Maíra Zimmermann, apenas por estampar na capa de sua dissertação de mestrado, "Jovem Guarda, moda, música e juventude", pela Estação das Letras, uma caricatura sua sem a devida autorização.

PCA: Como historiador e pesquisador não posso brigar com o meu objeto de estudo. Foi ele quem brigou comigo. Eu sabia com quem estava lidando, sei de suas limitações e contradições. Passei 15 anos pesquisando sua vida. Ele é um obsessivo compulsivo. E não tem essa história de que está curado. Enquanto ele não cantar Quero Que Vá Tudo pro Inferno eu não dou alta pra ele. Como é possível o cara não cantar a música que o colocou onde ele está hoje?  Você consegue imaginar Paul McCartney nunca mais cantandoYesterday?

CC: Não lhe ocorreu na época preparar-se melhor para enfrentá-lo nos tribunais?

PCA: Sim. Se eu pudesse voltar no tempo teria contratado o meu advogado desde o início e não dependido exclusivamente dos advogados da Planeta, que estavam ali para defender os direitos da editora e não os meus. Não tinha a menor experiência na área jurídica, nunca tinha participado de uma audiência. Hoje me considero um especialista, dou até palestra sobre o tema.

CC: Três passagens do livro incomodaram Roberto Carlos: a história do acidente na infância, em que ele perdeu parte de uma perna, algumas revelações sobre sua vida sexual e o relato da doença de Maria Rita, sua mulher, morta em 1999. Pretende manter todos esses relatos na nova edição?

PCA: Claro que sim. Na verdade, não foi por isso que Roberto decidiu me processar, não foi por causa da suposta invasão de privacidade. Ele nem leu o livro, ficou é perturbado com a existência de um produto cultural envolvendo o seu nome, não autorizado por ele, que chegou com muita força ao mercado, vendendo mais de 20 mil exemplares em poucas semanas. Ficou puto não pelo livro expor parte de sua intimidade. Roberto convive com isso desde que estourou como cantor. Agora mesmo, passei por uma banca de jornais e vi uma revista com ele na capa. O título era mais ou menos assim: "Roberto Carlos, 72 anos: A intimidade, a vida e os amores". Por que proibir o meu livro, então?

CC: Aliás, a polêmica em torno da proibição da sua biografia ganhará um capítulo no novo Roberto Carlos em Detalhes?

PCA: Sim. Mais do que isso: vou escrever um ensaio apenas sobre os bastidores da pesquisa e da feitura dos meus dois livros, Eu Não Sou Cachorro Não (sobre a produção da música brega durante a ditadura) eRoberto Carlos em Detalhes. Tem muita história. São 15 anos pesquisando sobre Roberto. Desde a primeira tentativa de entrevista até o embargo da biografia. Adoraria, por exemplo, revelar onde estão os meus 11 mil livros recolhidos pela equipe de Roberto.

CC: A Companhia das Letras não se mostrou interessada em reeditar Roberto Carlos em Detalhes?

PCA: Nunca tocamos no assunto. Por enquanto apenas tratamos do livro dos bastidores.

CC: Na época da proibição da biografia, Roberto Carlos disse que pretendia queimar seus livros...

PCA: Soube que ele desistiu. Roberto é cheio de manias, superstições, deve ter achado que queimá-los poderia dar azar ou algo do tipo. Ou ficou assustado com a repercussão em torno do embargo e recuou da ideia de incinerá-los. Então decidiu guardá-los para sempre. Sei que estão num depósito em São Paulo, de sua propriedade, vigiados por um velhinho. O que não faz o menor sentido, uma vez que o livro está disponível na internet, na íntegra, para quem quiser ler, e até existem versões piratas.

CC: Além de biógrafo de Roberto Carlos, o senhor se diz fã assumido de sua obra, tanto que a biografia é considerada por alguns críticos favorável demais. Depois de todo o imbróglio, da proibição, dos livros recolhidos, continua a ouvir as canções de Roberto?

PCA: Repito: não briguei com Roberto. Foi ele quem brigou comigo. Não acho que Detalhes virou uma canção de mau gosto ou que A Curva da Estrada de Santos não é mais uma obra-prima. Ele continua o rei para mim.

CC: Há rumores de que você prepara a biografia não autorizada do cantor João Gilberto...

PCA: Acho outro grande personagem, mas pegar João depois de um Roberto é uma dose muito alta. Não estou psicologicamente pronto (risos).