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Crítica / As Insoladas

Não há filtro nem antivírus contra a falta de sentido

por Matheus Pichonelli publicado 02/08/2015 05h24, última modificação 03/08/2015 13h55
Em novo filme de Gustavo Taretto, situado nos anos 90, a parafernália tecnológica presente em "Medianeras" não existia, mas as aflições pré-Facebook eram praticamente iguais
As Insoladas

Cena do filme As Insoladas, de Gustavo Taretto

Medianeras, filme de estreia do diretor Gustavo Taretto, é uma polaroide da virada da última década. Quando estreou, em meados de 2011, a internet já era uma realidade para a maioria dos espectadores, mas ninguém sabia exatamente para onde nos levaria. Taretto deu a deixa: criadas e desenvolvidas para conectar, as novas ferramentas de comunicação davam origem a sujeitos desarticulados, emparedados, claustrofóbicos, silenciosos e pálidos. Pálidos porque mal viam a luz do sol. Sitiados em apartamentos cada vez menores, alimentavam a enganosa sensação de inserção no mundo real a partir de um botão – para pedir comida, encomendar serviços, administrar a memória, as ferramentas de trabalho, preencher as carências afetivas, encontrar a pessoa ideal.

O resultado dessa vida intramuros era a perda da alteridade: trocávamos o contato físico por uma autoprojeção irreal e o diálogo pelos fones de ouvido; com isso, perdíamos a capacidade também de olhar para fora do umbigo e nos reconhecer no outro.

Em As Insoladas, novo filme do diretor argentino, a relação com o ambiente na mesma Buenos Aires (mal projetada e embaraçada entre prédios desgastados, incompatíveis, fios e desconexão) é autoexplicativa. Aqui não falta sol nem campo aberto para a vista. O filme, destaque do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, se passa em algum ponto dos anos 1990, quando um grupo de amigas decide se reunir na laje de um prédio do centro decadente da capital para se bronzear. A câmera no alto, que ouve e observa as conversas e gestos mais banais, é a piscadela para a onda de reality shows que estava a caminho. A parafernália tecnológica presente no primeiro filme ainda não existia, mas as aflições da era pós-Facebook já estavam ali.

O resultado é um filme menos datado do que Medianeras, cuja representação do presente se tornou obsoleta à medida que as bugigangas de seus personagens envelheciam, a começar pelo computador de mesa e o mouse, passando pelos chats, pelas mensagens (pagas) de celular e pelos programas de baixar música – é impressionante pensar como, num intervalo de cinco anos, tudo parece ultrapassado, até mesmo a disposição em se trancafiar. A quebra a marretadas das paredes dos personagens para deixar entrar o sol era o prenúncio de um novo imperativo.

Em As Insoladas, Taretto volta a um passado nem tão distante para, aparentemente, mostrar como vivíamos quando não tínhamos smartphones para atrapalhar nossas conversas olho no olho. “Somos uma equipe”, diz uma das personagens, pouco antes de concluir que até mesmo as grandes equipes argentinas, como a seleção de 1986, foram montadas em torno de heróis. Mas quem são nossos heróis/referenciais hoje? O saudosismo diante de um período aparentemente menos hostil, menos ilhado e com mais calor humano é, assim, ironicamente desmontado ao longo do filme – como quando as alas dentro do mesmo grupo se formam em rodas de fofoca. Nossas redes de relacionamento já tinham brechas e conflitos consideráveis, aponta o diretor, e a culpa não é só do celular na hora do almoço.

Não deixa de ser uma chance para matar a saudade. Quem viveu os anos 1990 se diverte com as referências e a reconstrução visual do período. Estão ali os tamancos, os guias de endereço, as fitas K7, o VHS, o logotipo do Hard Rock Café, a profusão de produtos Made in Taiwan (alguém se lembra dos Tigres Asiáticos?), as jarras de plástico, os óculos de sol e biquínis coloridos, as calças até o umbigo, as miçangas, os álbuns de fotografia, as revistas de comportamento, os colares de paz e amor (era uma onda retrô?), a empolgação com a chegada dos então chiquérrimos celulares-tijolo e o espanto com uma TV “gigante” de 29 polegadas.

Segundo o diretor, a intenção do filme era mostrar um momento específico da história da Argentina, com os efeitos da dolarização no governo Menen, que marcaria um período de artificialidades e sujeições aos produtos estrangeiros em detrimento da cultural local. Os assuntos entre as personagens, não por acaso, giram em torno de frivolidades e planos de curto prazo que beiram a futilidade (vencer um concurso de salsa, viajar para o Caribe, etc).

É justamente isso o que faz do filme um retrato atemporal.

Nas brechas das conversas que vão do nada ao lugar nenhum, como um reality show, as cores da contemporaneidade se desenham: a perda do referencial familiar (duas das personagens se queixam, a certa altura, da fuga do pai), a rejeição a uma vida familiar tradicional, o desencanto com os relacionamentos, a deterioração do romantismo, a precarização do trabalho, a dificuldade em relacionar passado e presente em uma perspectiva história/científica, a inabilidade para lidar com a dor, o mal-estar diante do presente, a incapacidade de planejar o futuro. A desarticulação do sujeito contemporâneo diante do mundo está ali, e aqui, com todas as suas cores.

A viagem a uma ilha do Caribe, sonhada por elas ao longo do filme, é antes a projeção de um retorno a uma forma de vida (natural, espontânea, com os pés na areia, de amor livre, longe dos transtornos, do chão encardido e do caos da cidade grande para quem vendemos nosso tempo, nossos corpos e nossa força de trabalho) do que um passeio artificial pago em 12 prestações. Enquanto projetam uma ideia de felicidade para longe daquela laje suja e desgastada, as amigas parecem não se dar conta dos pequenos prazeres ao alcance das mãos: o chocolate, os cigarros proibidos, as bebidas, os ensaios para um grande dia, as pequenas confabulações. O sintoma é o tempo que escapa.

Ao situar essa busca em algum ponto dos anos 1990, Taretto mostra que ali já houve um presente e que este presente também era um detonador de angústias, desejos de fuga e insegurança em relação a um futuro sobre o qual não tínhamos o menor controle. Este futuro chegou em Medianeras e seguimos sem a menor ideia do que fazer com ele.

Em uma das cenas, uma das personagens, que trabalha numa loja de discos, se queixa do medo da chegada dos CDs. Outra personagem, que trabalha revelando fotos, confidencia o estranho hobby de guardar para ela as cópias das imagens de pessoas com vidas aparentemente incríveis. No instante seguinte, uma das fotografadas, que esbanjava sorrisos numa das imagens “roubada”, conta o que não aparece na imagem: aquela viagem foi um porre.

“Que coisa estranha isso de projetar a própria vida na vida de alguém”, diz uma estudante de psicologia do grupo, antes de o assunto se tornar a exposição das próprias fotografadas. Uma delas confessa o gosto de fazer “nudes” para poder se observar e se sentir desejada.

O mundo ainda não havia conhecido o Facebook e o WhatsApp, mas a necessidade de se projetar e observar e de ser ao ser olhado estava incubada desde muito antes, quando outras parafernálias já eram usadas para driblar nosso tédio e nossa incapacidade de sonhar. O Facebook apenas facilitou essa nossa vocação ancestral. No tempo do outdoor, hoje enquadrado em uma tela de celular, a busca pela felicidade já era, então, o retrato instantâneo de algo que não se viveu nem coube na foto. A solidão é a mesma com ou sem redes sem fio. Trancafiados ou expostos ao sol, aponta o cineasta, não há filtro, programa de sábado à noite ou antivírus que nos proteja de uma vida sem sentido ou direção.