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Refogado

Não entendi

por Marcio Alemão publicado 02/03/2013 16h29, última modificação 06/06/2015 18h56
Como uma reforma transforma uma clássica rotisseria paulistana em uma nada charmosa lanchonete dos anos 1950

O Bologna é uma rotisseria de São Paulo que fica na Rua Augusta, na Baixa Augusta, há décadas. E são muitas. Tudo começou em 1925. No fim do ano passado, se a memória não me falha, suas portas foram fechadas.

Depois de alguns momentos de tristeza, vim saber que a casa adquiria novos parceiros e uma reforma da pesada seria feita.

E a reforma foi radical.

A promessa, todavia, rezava que as pérolas da casa não seriam reformadas. A saber: a coxa creme, o camarão empanado, a vitela tonata, o frango assado, alguns cortes de porco. Massas também havia algumas boas, produzidas na própria casa.

No último domingo lá estive e fiquei absolutamente confuso com o que vi e comi.

O projeto arquitetônico transformou uma clássica rotisseria do Centro em uma nada charmosa lanchonete dos anos 1950. Sei que falamos de uma questão de gosto. Logo, a minha opinião é totalmente pessoal e eu, sem mais embromar, digo logo: achei de péssimo gosto a nova cara do Bologna.

Mesas. Várias mesas apareceram. Eu havia ido até lá com o mesmo propósito de outros domingos: apanhar um frango, algumas coxas creme, camarões empanados, uns 200 gramas de vitela tonata que se transformariam em sanduba no fim da tarde e ponto.

Mas por que não sentar e comer por aqui? Foi o que fizemos.

Primeira surpresa ao ver o cardápio. Ele se parece muito com os cardápios de lanchonetes de praça de alimentação. Repleto de fotografias. Ruins, diria. Não chegam a despertar no leitor aquele desejo de tudo pedir e devorar. E muito bife, muito filé mignon com um monte de acompanhamentos triviais.

Fui virando as páginas. Cheguei ao fim e pensei: devo ter pulado algumas. Recomecei e, não, não havia pulado nenhuma página do cardápio, que não oferece nenhum dos quitutes que fez a fama e a glória da velha rotisseria.

Antes de me levantar e cair fora perguntei se era possível pedir a coxa creme, o camarão, o frango assado. Para minha alegria, sim, era possível.

A coxa creme não me agradou. O camarão, ok. O frango não consegui comer, tal a quantidade de tempero e sal. Pedimos uma farofa para acompanhar. O problema: a farofa vai num saquinho à parte quando se leva o frango para casa.

O que fizeram? Colocaram em um prato de sobremesa. Fria mesmo.

Alguns garçons parecem ser aqueles antigos funcionários que ficavam atrás do balcão. Perambulam pelo salão com uma expressão nada feliz. Ser bom atrás nada tem a ver com ser eficiente no salão.

O Bologna, repito, para o meu gosto, mudou para pior.

Certamente, o Júnior que articulou toda a mudança já deve estar com sua planilha Excel mostrando os significativos ganhos que obtiveram na primeira hora de funcionamento.

Sim, o movimento era assustador e tende a se manter. Não mais me verão por lá. Falta não irei fazer. E o que mais?

Sobre o parmesão Tânia, falei? Tânia é uma famosa marca de provolone. Provolone por essas nossas terras é um assunto difícil. Sal. Sal é um problema muito sério no mundo. Aqui ele é particularmente incômodo em alguns queijos e salames. Minha impressão: a função de tais alimentos é elevar a pressão do sujeito que já bebeu 38 cervejas, está bem próximo do desmaio e alguém pede, em caráter de emergência, um pouco de sal. Geralmente chegam à mesa em forma de salaminho fatiado ou provolone, aos quais acrescentam molho inglês de baixíssima qualidade, limão e mostarda. Estava me esquecendo do clássico pedido que rola até em sorveteria: “Tem uma pimentinha, amigo?”

De volta ao parmesão e ao provolone Tânia: recomendo. Mais o provolone.