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Nada além

por Socrates — publicado 18/01/2011 10h05, última modificação 18/01/2011 10h05
Sentir-se bem com a própria personalidade, caráter, capacidade e sensibilidade deveria ser o mais importante. É o que nos move a um sendo de felicidade e bem-estar

Sentir-se bem com a própria personalidade, caráter, capacidade e sensibilidade deveria ser o mais importante. É o que nos move a um sendo de felicidade e bem-estar
Escolha do melhor jogador e da melhor jogadora de futebol do mundo. Quantos dariam quase a vida para estar entre os indicados? Quantas se sentem depreciadas quando não são lembradas? Apesar de todo o valor que possa caber nisso, eventualmente verdadeiro, veraz e desinteressado, talvez devêssemos atribuir a volúpia dessas premiações à aparência, à vontade da ilusão ou à cobiça, valores questionáveis e menos fundamentais.
A sociedade contemporânea se alimenta de valores subjetivos ou, para quem preferir, inumanos. É até mesmo possível que o que constitui o valor dessas coisas boas e veneradas resida exatamente em serem aparentadas, entrelaçadas e ligadas, talvez por essência, a outras iguais e ruins, aparentemente contrárias.
A principal concorrente da brasileira Marta ao prêmio de melhor do mundo reagiu questionando a forma com que se manifestam os “gênios” – certamente acima do bem e do mal – que detêm o poder de fazer essa escolha. A alemã, que quebrou o protocolo da Fifa mesmo já tendo sido agraciada três vezes com o mesmo prêmio, desnuda a necessidade de ser lembrada ainda que sem merecimento ou convencimento quanto ao mérito da comenda.
Exatamente porque o determinado talvez valha mais que o indeterminado, a aparência valha mais que a realidade. As autoavaliações, apesar – repito – de sua importância intrínseca para muitos de nós, poderiam ser apenas avaliações externadas para afirmação pessoal, como que para preservação do próprio ser. Então teríamos de admitir que não sejam exatamente o homem e sua consciência a medida e a razão das coisas.
A falsidade de juízo não é, de forma alguma, uma objeção ao juízo. A questão é até que ponto o juízo é fomento ou razão de vida? Parece que estamos absolutamente inclinados a acreditar que os juízos mais falsos são os mais imprescindíveis e que o homem não poderia viver sem aceitar ficções ou medir a realidade que o cerca, mesmo por ausência de crítica sobre esse mundo inventado, falsificado em sua transparência. Aparentemente, seria a negação da vida renunciar a juízos falsos.
Será que não basta ser diferente e talentoso? Que seria desses jogadores e jogadoras se fossem semelhantes à maioria dos mortais? Se passassem despercebidos pela indiferença coletiva, como poderiam viver? Viver não é justamente um querer ser diferente da natureza estéril? Não é avaliar, estabelecer preferências? Exatamente para ser diferente sem a necessidade extrema de outras demonstrações de poder como as representadas por essas comendas. No fundo, o orgulho de alguns talvez pretenda prescrever ao mundo o seu ideal, a sua moral, de modo que exista apenas a própria imagem com uma imensa e eterna glorificação de seus feitos.
Os cuidados e a sutileza, quase astúcia eu diria, com que hoje se misturam o mundo real e o aparente dão o que pensar. Essa vontade de determinar qual é a verdade absoluta ultrapassa os limites da reflexão e da crítica, promovendo falsas convicções e verdades. Os louros passageiros nada mais são do que um símbolo, assim como a beleza estereotipada, a riqueza que corrompe, o poder político que trai, os relógios dourados e carrões escandalosos que servem para encobrir fraquezas e limites, o luxo que desaparece quando se vê só, a fama que engana e fantasia, e outros menos globalizados.
Sentir-se bem com a própria  personalidade, caráter, capacidade e sensibilidade deveria ser o mais importante. É o que nos move a um senso de felicidade e bem-estar. Perenizar essa descoberta de nós mesmos é o que nos torna maiores que alguma coisa qualquer. Não essas comendas de feira que se multiplicam por todos os cantos. Tornamo-nos adjetivos, reles dependentes dessas drogas e esquecemos que sujeitos deveríamos ser.
Comendas que antigamente, mas não muito, eram compradas a peso de ouro por pessoas- que não se satisfaziam com a riqueza que possuíam, pois elas não lhes ofereciam títulos de nobreza ou afins – o que, convenhamos, é fundamental para alcançar uma sensação ainda que factual e incapaz de provocar um sorriso, um olhar terno ou a sensação de plenitude. Falsa felicidade, assim como falsas comendas, faz bem aos egos desgovernados de hoje em dia. Egos que matam, que maltratam, que exalam indiferença em relação aos outros seres humanos. Melhor, mas muito melhor, é ser o que somos. Nada além.